Seculo

 

Voluntários realizam tratamento de pele em crianças vítimas do crime da Samarco/Vale/BHP


11/09/2016 às 17:02

“Criança que brinca na areia, é normal que tenha micose, mas não na proporção que eu vi, na pele toda”, relata a artesã e artista plástica Marcely Perroni Fraga. Atuando em oficinas de arte em Areal desde o final de 2015 – quando a comunidade foi atingida pelos rejeitos de mineração oriundos da barragem de Fundão, rompida no dia 5 de novembro do ano passado, em Mariana/MG – Marcely se assustou durante a última oficina, quando pôde perceber, em todas as crianças que participavam, as mesmas manchas e feridas, por todo o corpo: pernas, braços, pescoço.

Não há nenhum laudo oficial sobre a origem do problema, pois a empresa e o governo abandonaram a comunidade. Perguntando às mães, também não há certeza, mas uma impressão é comum entre elas: a de que os problemas de pele, normais em crianças que brincam na areia, afloraram muito intensamente após a chegada da lama.

“A gente abre a torneira da escola e a água é laranja. Elas estão em contato direto com essa água contaminada”, relata a artesã. “E o mais triste é saber que esse crime está impune, não está tendo acompanhamento, as pessoas estão ali deixadas ao léu”, indigna-se.

A primeira pessoa que Marcely angariou para a causa foi sua terapeuta holística, Maria Flor Oliveira, que imediatamente se prontificou a ajudar. Rapidamente, a mobilização se estendeu às redes sociais e a adesão continua.

A ideia das voluntárias é utilizar técnicas de aromaterapia e pomadas, tanto para tratamento da pele como para limpeza no ambiente. Areal é muito impressionante, com todas aquelas tubulações passando no meio das casas das pessoas, é preciso harmonizar o ambiente”, observa.

Um ponto importante é conseguir o apoio de um profissional de dermatologia. “É preciso fazer anamneses, pra saber se é micose de areia ou se é mesmo por causa dos metais na água”, indaga.

A equipe ainda precisa de mais voluntários para colaborar nos dias do evento e também de doadores de materiais terapêuticos, como creme de mameleuca, de calêndula e de recue, além de álcool 70 e toalhas de papel.

Senso de pertencimento

Quando a lama chegou à região, Marcely estava implementando um novo projeto de vida, de se mudar para Regência e viver uma vida mais simples, em contato com a natureza. Percebendo que a comunidade vizinha, de Areal, estava em situação de maior abandono, se uniu a um grupo de voluntários que levou mantimentos e água para as famílias.

Em seguida, começaram as oficinas de artes, cada um levando uma técnica diferente, com objetivo de ensinar um novo ofício, já que a pesca, que movimentava a economia local, já não podia mais ser exercida. “São todos muito habilidosos e, para as crianças, acaba sendo uma recreação, porque lá não tem muitas opções de lazer a não ser brincar no meio das tubulações”, conta.

A artesã conta que se sente parte daquele território, por isso o impulso de atuar é imenso e, felizmente, contagiante. “Quem tem um laço com um lugar sabe o que é esse sentimento”, compartilha. 

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