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Classe empresarial capixaba tenta separar o ‘Dr. Paulo’ do ‘Baianinho’


17/04/2017 às 21:23
O ato de solidariedade que a aristocracia empresarial capixaba organizou na tarde desta segunda-feira (17) para o governador Paulo Hartung (PMDB) durou duas horas e reuniu entre 100 e 150 empresários na sala de reuniões do governador, no Palácio Anchieta. Hartung ouviu as palavras de apoio e mensagens piedosas que não encontrou nos 10 minutos da delação do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Júnior, que arruinou sua biografia política. 

Movimento empresarial tenta blindar Hartung da delação da Odebrecht
 
Ao final, questionado por um repórter sobre a diferença entre Hartung e os demais delatados, Marcos Guerra, coordenador do Fórum de Entidades e Federações (FEF), grupo que solicitou a audiência, respondeu com serenidade: “Os resultados”. 
 
O presidente Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Lino Sepulcri, mimoseou a gestão hartunguista com o adjetivo “maravilhosa”. Para Otto Andrade, presidente do grupo homônimo, Hartung é “homem probo”. O presidente do Grupo Buaiz, Américo Buaiz Filho, disse a mesma coisa, porém com lirismo: “Acho que não se apaga uma história de décadas com uma simples versão”.
Foto: Leonardo Sá/Porã


Às 14h30 desta segunda-feira, a moderna fidalguia capixaba reuniu-se no Palácio Anchieta para blindar o governador Paulo Hartung dos impactos da delação da Odebrecht. Divulgada semana passada, a colaboração garante ter doado, via caixa dois, R$ 1,080 milhão para o peemedebista irrigar as campanhas de aliados políticos nas campanhas de 2010 e 2012. 
 
A partir das 14h10, um cortejo incessante de veículos iniciou-se à entrada lateral do Palácio Anchieta, na Praça João Clímaco. O tráfego fez-se tão intenso que engendrou engarrafamento e desafiou a paciência de quem não tinha nada a ver com a reunião- que, claro, se manifestou em buzinas impacientes. Talvez o presidente da Associação dos Municípios do Espírito Santo (Amunes), o prefeito de Linhares, Guerino Zanon (PMDB), tenha sido o único a chegar ao local de táxi.
 
“Esse alvoroço aqui é só enquanto tem a reunião”, disse um flanelinha, em frente à sede da antiga Assembleia Legislativa. Bem ao gosto dos flanelinhas da região, carregava um molho apinhado de chaves de carro. O “alvoroço”, no entanto, agravou o tira-daqui-e-põe-ali de carros para acomodar todo mundo na Cidade Alta. Em frente, um Volvo T6 e um sedã BMW formavam fila dupla no estacionamento central. 
 
Às 15h, o alvoroço cedeu. Sedãs Honda, Hyundai, Toyota e Mercedes-Benz reluziam estacionadas em vagas demarcadas com cones em frente ao Palácio. Uma última vaga foi ocupada por uma SUV Mitsubishi. Na Rua Nestor Gomes, uma Range Rover Sport estacionou com pisca-alerta ligado ao lado de uma placa de proibido parar e estacionar. A Guarda Municipal de Trânsito passou apenas uma vez, mas o suficiente para, com apenas um toque de sirene, espanar o Volvo e a BMW acima dos locais irregulares.

Foto: Leonardo Sá/Porã



Se fora do Palácio o cenário era de caos, dentro reinava a harmonia. Hartung estava em casa.

Formado pelas federações das Indústrias (Findes), da Agricultura e Pecuária (Faes), do Comércio de Bens e Serviços (Fecomércio) e dos Transportes (Fetransportes), além do Espírito Santo em Ação, o Fórum de Entidades e Federações reúne um segmento para o qual Hartung, desde a primeira vez em que assumiu o Palácio Anchieta, canalizou seus esforços, ideias e projetos.  
 
Quando reassumiu o governo, em 2014, Hartung aplicou a mais dura política de ajuste fiscal do país, que foi aplaudido pela classe empresarial. Com o projeto Escola Viva, transformou educação em negócio: a ONG empresarial Espírito Santo em Ação é patrocinadora do projeto.
 
Muitos ali receberam talvez o principal destes projetos: o afago doce dos benefícios fiscais. O presidente do Sindicato do Comércio Atacadistas e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades), Idalberto Moro, que não conteve o susto e o constrangimento ao se deparar com câmeras de TV e fotográficas à saída do Palácio, foi um dos apiedados com o mau momento do governador.
 
Hoje a nobreza local tentou separar o “Dr. Paulo” do “Baianinho” - “Dr. Paulo” era como Benedicto Júnior se referia a Paulo Hartung; “Baianinho” é como a Odebrecht se refere a Paulo Hartung na lista do Departamento de Propinas da empreiteira. 
 
À primeira vista, há uma boa distância entre os dois. Segundo o delator, “Dr. Paulo” não é patrimonialista, isto é, sabe em última instância distinguir o público do privado. Já o “Baianinho” embaralha tristemente as fronteiras: é quem figura nas listas da empreiteira sob acusação de ter recebido R$ 1,08 milhão de caixa dois.
 
Não foi fácil. Na saída, os empresários que se dispuseram a atender a imprensa exerceram um misto de contorcionismo verbal e relativismo moral para separar um do outro.  
 
Marcos Guerra mostrou habilidade. “O Estado é uma referência não só em gestão, mas também em política. Desde 2003 a gente não vê corrupção. Se você pega os três Estados mais bem governados, os que oferecem maior perspectiva, o Espírito Santo está entre eles”, asseverou, completando que houve precipitação da Odebrecht em jogar “todo mundo no mesmo saco”. 
 
Sepulcri foi pelo mesmo caminho. “O comércio de bens, que eu represento, apoia a gestão maravilhosa que o governo atual está fazendo a nível de Brasil. Não cabe a nós avaliar o mérito da coisa. Cabe à Justiça, naturalmente, tomar as medidas cabíveis. Cabe a nós dar apoio a um gestor que nos orgulha”. Uma polidez ao agrado de gregos e baianos.

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