Seculo


  • Lava Jato no ES

 

Na Semana dos Povos Indígenas, Guarani e Tupinikim é que presenteiam sociedade não-indígena


19/04/2017 às 18:48
O que é ser índio hoje no Espírito Santo? As comunidades indígenas vivem cercadas por mais de 30 empreendimentos industriais e duas rodovias e sofrendo o assédio incessante pela usurpação da terra e o abandono das tradições, a discriminação e a violação de direitos constitucionais e internacionais fundamentais.
 
Para Vilson Benedito de Oliveira, o Jaguareté, liderança tupinikim e coordenador técnico local da Funai em Aracruz, norte do Estado, em primeiro lugar, é um orgulho. “O jeito da gente viver em comunidade, sentir a dor dos nossos aldeados e eles também a nossa dor, e a gente acabar lutando por causas coletivas. É também o jeito da gente se relacionar com o meio ambiente, e daí eu ressalto a importância das terras indígenas”. Ele destaca que na crise hídrica que castiga o Espírito Santo, as Terras Indígenas (TI) têm sido as grandes produtoras de água e vida pro município e entorno.
 
De fato, o remanescente florestal protegido na TI cumpre um papel importantíssimo na conservação da água da região. Benefício, aliás, que se repete em todo o país, mas com estudos mais detalhados para a região amazônica.
 
Florestas protegidas
 
“As Terra Indígenas protegem muito a floresta”, afirma a coordenadora do Programa Monitoramento de Áreas Protegidas do Instituto Socioambiental (ISA), Fany Pantaleoni Ricardo.
 
Os últimos números, detalha a coordenadora, referentes ao desmatamento de 2015 e a estimativa de 2016, vindos da análise dos dados do PRODES-INPE – órgão do governo federal responsável pelo monitoramento das áreas protegidas – mostram que 98,31% das florestas em Terras Indígenas na Amazônia Legal Brasileira encontram-se preservadas, com uma média estimada de desmatamento de 1,69%.
 
“Quanto às UCs [Unidades de Conservação] de Proteção Integral [como parques e reservas biológicas], o desmatamento é de 1,35% de suas florestas e, nas UCS de Uso sustentável [como APAs e Reservas de Desenvolvimento Sustentável], o desmatamento é de 2,44%”, compara Fany.
 
Uma ilha de bio e sociodiversidade em meio às indústrias

A conservação florestal e hídrica realizada pelos indígenas da Mata Atlântica impressiona ainda mais do que a realidade encontrada na Amazônia, devido à intensa ocupação urbana e industrial do bioma. No Espírito Santo, esse paradoxo quase heroico dos indígenas atinge, talvez, o ponto culminante.

“A comunidade indígena Tupinikim-Guarani [de Aracruz] é provavelmente a que possui o maior número de empreendimentos no seu entorno, impedindo a manutenção do seu modo de vida original. Exigir que os índios vivam apenas da pesca e do extrativismo ficou inviável com a poluição gerada por indústrias, estaleiros, ferrovia, portos, etc.”, analisa o procurador da República em Linhares, Paulo Henrique Camargos Trazzi, em artigo reproduzido na página do Ministério Público Federal (MPF-ES).

Esse sentimento é realmente consenso dentro das comunidades. “A principal luta do meu povo aqui no Estado e a de resistir em meio a tantos empreendimentos”, afirma Maynô Cunha da Silva, educador indígena e jovem liderança guarani.

Jaguareté ressalta a cumplicidade do Estado, em níveis municipal, estadual e federal, que licencia os empreendimentos “passando por cima dos direitos dos povos indígenas”, como a Constituição de 1988 e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “A Convenção 169 fala sobre a forma como a comunidade deve ser comunicada e que a comunidade tem que ser livre pra expressar a sua vontade, isso em relação até aos empreendimentos. Mas infelizmente não é o que acontece, o que leva as comunidades a se manifestarem, protestarem”, explica a liderança tupiniquim.

Território

A professora Arlete Schubert, doutoranda em Educação e pesquisadora em Territorialidade Indígena no ES, destaca a importância do território para a identidade cultural dos indígenas. “Eles não podem viver sem o seu território; não podem abrir mão de suas memórias e tradições”, afirma.

Nesta Semana dos Povos Indígenas, Arlete relembra a diáspora tupiniquim, nas décadas de 1950 e 1960, quando as grandes empresas começaram a tomar suas terras, expulsando-os e queimando suas casas. A pesquisadora conta que os vínculos com o território permaneceram, mesmo à distância e, na primeira autodemarcação das terras, muitos deles voltaram, refundando antigas aldeias. E cita a fala de uma das anciãs tupiniquins: “Se as crianças não aprenderem os costumes, não vão aprender depois na escola É na comunidade que se aprende a ser índio”.

Convite

“O Dia do Índio é uma data, mas todos os dias nos estamos aqui na nossa tekoa, vivendo, resistindo e preservando os nossos maiores tesouros, que são os conhecimentos tradicionais. Estamos sempre à disposição para recepcioná-los e mostrar um pouco da nossa vivência. Vamos quebrar esse estereótipo do índio colonial e trazer a realidade, o indígena do século XXI, que usa muitas coisas da sociedade não-indígena, mas que não deixa de viver sua cultura ou de falar a sua língua por isso”, convida Maynõ. 

Leia Também

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

.

SOCIOECONÔMICAS
Descompasso

Hartung priorizou tanto lotear a gestão com quadros políticos, que os embates ocorrem na contramão de sua própria estratégia. Rodney Miranda que o diga...

OPINIÃO
Editorial
Esgoto veio à tona
Manietada pelo governo, CPI para investigar Cesan se torna obrigatória após denúncias envolvendo a companhia
Piero Ruschi
O desmanche do Museu Mello Leitão
Um ato de desrespeito à população que foi camuflado e conta com o apoio da própria diretoria e sua associação de amigos
Renata Oliveira
Vai liberar?
Rodrigo Janot pode criar um precedente muito ruim para a política brasileira ao anistiar quem recebeu o “caixa dois do bem”
Caetano Roque
Desmonte em curso
Enquanto o movimento sindical dorme , o capital segue a passos largos a retirada de direitas
Nerter Samora
#SomosTodosBaianinho
Causa espécie um encontro às portas fechadas entre o governo e parte do empresariado capixaba logo após a “delação do fim do mundo”
Geraldo Hasse
O despudor do poder
O marqueteiro-mór pagou multa de R$ 30 milhões à Justiça, deu depoimento e saiu rindo
JR Mignone
Inquietudes políticas
O ''Fica, temer'' de Gaspari e a pesquisa que confirma a memória curta do eleitor
Caetano Roque
Greve na rua
É hora de o trabalhador dar a resposta as ações antidemocrática do governo golpista
BLOGS
Blog do Phil

Phil Palma

Um homem nu.
Flânerie

Manuela Neves

Nenna, em transição
Panorama Atual

Roberto Junquilho

A Odebrecht quebrou a "Omertá", e agora?
Mensagem na Garrafa

Wanda Sily

Nossa Terra, nossa gente
Gustavo Bastos
Blog destinado à divulgação de poesia, conteúdos literários, artigos e conhecimentos em geral.
MAIS LIDAS

CPI da Odebrecht quer investigar contratos de empreiteiras com setor público

Descompasso

Depois das delações, Magno Malta se descola de Ricardo Ferraço

Sindicato quer que Nestlé preste esclarecimentos sobre possível venda da marca Serenata de Amor

Assembleia barra projeto que acaba com exclusividade da Cesan na região metropolitana