Seculo

 

‘Tem uma corrente na entrada que eu, cego, vivo caindo no chão’, diz deficiente sobre a Câmara de Vitória


19/05/2017 às 17:12
Representante do Instituto Braille na audiência pública que, nessa quinta-feira (18), discutiu acessibilidade e inclusão em Vitória, Reinaldo Thomé usou de ironia para lamentar os problemas enfrentados por pessoas com deficiência na capital capixaba. “Enganaram os ceguinhos: colocaram semáforo sonoro no Shopping Vitória com menos de 20 segundos! Isso está impossível”.
 
Realizada na Câmara de Vitória, a audiência apontou falhas de acessibilidade e inclusão em Vitória, como nos semáforos sonoros, nas calçadas e transporte público e na própria Câmara. O debate foi promovido pelo vereador Duda Brasil (PDT) e teve tradução simultânea de libras. 
 
Os vereadores Neuzinha de Oliveira (PSDB), Davi Esmael (PSB), Dalto Neves (PTB) e Cléber Felix (PP) também estiveram presentes. A mesa também reuniu Tatiana Marques, representante da Secretaria de Educação, Famiglia Braga, da Assistência Social, Daniele Merízio, do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, e Marcus Vinicius Oliveira, da federação de judô paralímpico.
 
Thomé lamentou a ausência do presidente da Casa, Vinícius Simões (PPS). “Não podemos tratar de nada sem antes tratarmos da nossa Casa. E falar de acessibilidade dentro desta Casa deixa a gente muito triste”, disse. “Tem uma corrente na entrada que eu, cego, vivo caindo no chão. Eu vou começar a fazer o seguinte: na próxima queda, vou cobrar do presidente da Casa. Quero indenização!”. Foi aplaudido.
 
Membro do Movimento Organizado de Valorização da Acessibilidade (Mova), José Olympio Rangel Barreto, foi duro: “Eu vou entrar com um pedido de interdição Cessa casa porque eu também quero participar das plenárias”.
 
O Centro de Vitória foi bastante criticado. Wagner, morador do Bairro da Penha, afirmou: “Desafio vocês a botarem uma cadeira de rodas e andarem no Centro de Vitória”, exclamou. Marcus Vinicius, na plateia, pediu mais fiscalização das calçadas pela prefeitura. “O Centro de Vitória, como já foi dito, as calçadas são inacessíveis”. Ele citou a do Hotel Estoril, onde tem uma rampa “que liga o nada a lugar nenhum” e o obriga a dar uma volta enorme apenas para cruzar a Avenida Jerônimo Monteiro para a Avenida Princesa Isabel. 
 
A representante da Associação Vitória Down, criada em 1998 por um grupo de pais de filhos com a Síndrome de Down. Ela tratou do tema “inclusão” de forma mais direta na audiência. 
 
Sugeriu que o município adotasse um modelo de sucesso vigente em Curitiba (PR), que obriga os hospitais a encaminharem as crianças nascidas com a síndrome para associações que tratam do tema. Segundo ela, o de uma criança com Down é sempre uma experiência dura para família e criança. “Se a família não for acolhida, esse filho não será incluído”, justificou.
 
José Olympio lembrou a decisão judicial que obriga a prefeitura a realizar melhorias no programa Porta a Porta, programa municipal de transporte de pessoas com deficiência. “Temos 377 pessoas presa em casa, em função de um prefeito que está cometendo crime contra as pessoas com deficiência e improbidade administrativa”, disse, referindo-se à lista de espera do programa. 
 
Marcus Vinicius contou que, dia desses, marcou um retorno para casa às 16h, mas o carro só chegou às 17h30. Antes, sugeriu treinamento para motoristas e cobradores para auxílio de embarque e desembarque das pessoas com deficiência. “Estão exigindo que a gente entre de costas, mas eles não ajudam”, disse. Lamentou, ainda, que alguns, poucos, agem de má-fé, apontando defeitos no elevador para não embarcar o passageiro.

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