Seculo

 

'Ele lá e eu cá. Estou até mais aliviado, com melhor saúde em ficar livre do imperador'


15/07/2017 às 19:09

Rogério Medeiros, José Rabelo e Renata Oliveira
Imagens e fotos: Leonardo Sá / Porã


Em novembro próximo, o deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) completa 80 anos de vida, desses, mais de meio século dedicado à política e não parece estar prestes de pendurar as chuteiras. Se não for disputar, vai para o palanque apoiar outro candidato, desde que não seja o governador Paulo Hartung (PMDB), com quem está rompido, segundo ele, de forma irreversível, deste o naufrágio de sua reeleição ao quarto mandato à frente da Assembleia Legislativa.

A história de Ferraço é longa e, consequentemente, a entrevista a seguir, também. Mas é valiosa para entender passagens da política recente do Espírito Santo, como as verdadeiras causas que o levaram a romper com o governador Paulo Hartung. "Os imperadores não gostam realmente de serem passados para trás, e que se faça alguma coisa sem falar com eles, infelizmente o estilo dele é esse". E acrescenta: "Ele gosta de lidar com pessoas que engraxem o sapato dele, que façam o topete para ele, que limpem seu rosto, que joguem um perfume nele".

O deputado fala também sobre o passado e sobre o futuro, embora se diga satisfeito com a trajetória até aqui. Ele também conta passagens inéditas do governo militar, com o qual teve relação estreita. Mas sempre se coloca como um homem de ideias progressitas, mesmo durante a ditadura militar. Ele relembra que lutou pela reforma agrária e pelas diretas já. Sobre as diretas recorda de uma frase célebre: “Os militares têm que voltar para os quartéis”. Frase que teria contrariado o presidente João Figueiredo e inviabilizado o seu nome para ser governador do Espírito Santo.

A seguir, o leitor tem disponível a versão em vídeo e a íntegra da entrevista trasncrita.


 

Século Diário  – [Rogério Medeiros] Theodorico de Assis Ferraço. Eu te encontrei nas ligas camponesas na porta da fábrica de cimento Barbará, fazendo agitação...
 
Theodorico Ferraço – Verdade. Por incrível que pareça, fui acusado depois pelo Serviço Nacional de Informação (SNI) de ser representante da Liga Camponesa no Espírito Santo. Naquela época, o general Cordeiro de Farias fazia parte da amizade do grupo – e eu tenho uma grande saudade do João Santos Filho, que era uma pessoa bem evoluída – e depois fui conhecer o Julião [Francisco Julião Arruda de Paula, 1915 - 1999]. Quando fui deputado federal e falei: ‘Julião, você sabia que me acusaram na revolução de fazer parte da sua liga. Ele disse: Como? Nós nunca tivemos contato. Eu disse: Eu fundei uma liga de camponeses de Monte Líbano e você fundou aquela liga dos camponeses de Pernambuco e aí me confundiram com você’. Aí nos tornamos amigos e contamos muitas histórias. Foi um situação da minha mocidade, por volta de 1964, antes da revolução. O que me custou depois uma prisão de 13h40 minutos no Tiro de Guerra de Cachoeiro. Quando eu dei um depoimento de 13h40. Me lembro que Ricardo [senador Ricardo Ferraço] foi levado pela mãe no colo, chorando. Estava lá com um monte de fuzil. Por incrível que pareça, me entrevistaram e nunca mais esqueci do major Chaquir, Capitão Batalha e Capitão Caim
 
– Que era de Cachoeiro...
 
– Que era de Cachoeiro. Praticamente, se tivesse uma revolução naquele dia, eles seriam membros da Liga Camponesa, quando eu expliquei a eles o motivo pelo qual estava ali, que era em defesa de posseiros que estavam em seus direitos... Eu peguei em armas realmente. Eu estava com uma 22 e doido que não acontecesse tiroteios, que não acontecesse nada, mas estava ali por idealismo e por religião. Eu era congregado Mariano [pessoa de oração, de fé], como sou até hoje...Eu sempre fui contra a injustiça.
 
– E esse foi o seu primeiro apronto?
 
–Esse foi o meu primeiro apronto que dei na mocidade.
 
– [Rogério Medeiros] Eu lhe encontrei antes como primeiro suplente de deputado estadual pelo PRP...
 
– Não, eu era do MDR, uma composição com o PRP, em que o Jamil Zouain me deu a oportunidade muito grande, quando então compareci como deputado na presença do presidente Castelo Branco, da revolução. Fui lá denunciar a Light que estava cobrando preços abusivos da energia aqui em Vitória. E pedi, naquela época ao Danilo Venturini, que era aqui do Espírito Santo, que me levasse até ele. Ele conseguiu marcar uma audiência. E era chefe da Casa Militar Ernesto Geisel, que depois veio a sucedê-lo. E naquela ocasião o Castelo Branco marcou a reunião e eu compareci lá nas Laranjeiras [Palácio das Laranjeiras – antiga sede do antigo Estado da Guanabara]. Ele então me atendeu e eu disse: ‘A revolução está falando muito em moralidade, mas no Espírito Santo, o preço está abusivo, o povo está revoltado. Então o senhor comparece lá no Planalto para fazer essa denúncia e vou chamar o ministro de Minas e Energias, que era o Japonês [Shigeaki Ueki], para você falar com ele’. Aí eu me recordo de uma decepção que eu tive. Eu todo entusiasmado, estava com minha malinha, em um fusca. Tinha um fusca verde. Fui de carro na ocasião até a presença dele, viajei de Cachoeiro até lá [Brasília]. Eu falei: ‘Presidente, posso pegar uma carona com o senhor, no seu avião, que economizo a passagem. Ele disse: não, o senhor vai de empresa aérea, eu prefiro. Esteja lá às 10 horas em ponto no meu gabinete. E foi uma reunião muito boa porque ele me levou muito a sério. Dei a ele, inclusive, um terço que eu tinha, para acompanhá-lo, para protegê-lo, porque eu achei ele um homem de muito boa fé, tive boa impressão dele. E ele tomou providência realmente e o preço baixou.
 
 
– [Rogério Medeiros] Agora vou dar um salto, botando você como deputado federal, fazendo o primeiro discurso de um parlamentar contra a ditadura militar, que você cunha ao final do discurso uma frase: “os militares têm que voltar para os quartéis”.
 
– Exatamente. Verdade. Eu fiz um discurso e me recordo que o Genoino [ex-deputado federal, José Genoino, PT], que é uma figura extraordinária, que eu respeito muito, me chamou de louco, por causa do meu pronunciamento meu. Ele disse: ‘Eu que sou o radical, e você é do partido do governo’. Eu era macho, hein? E um macho com um discurso desse aqui perdemos o mandato. Aí eu vou chegar lá na frente. Nesse discurso que eu declarei. Eu era uma pessoa que queria a reforma agrária. Aí eu pedi uma audiência ao general Walter Pires [ministro do Exército no governo Figueiredo], que depois se tornou meu maior inimigo, me colocou até na lista de cassação. Depois de muito tempo o ajudante de ordem do presidente Figueiredo [João Batista Figueiredo, 30º Presidente do Brasil, de 1979 a 1985, e o último presidente do período do regime militar.] relatou isso para a mulher dele e eu a conheci. Ela estava com uma pessoa da minha amizade, que acabou me relatando. Eu fiz um discurso dizendo o seguinte: que achava que estava na hora de os militares voltarem para os quartéis. Já tinham cumprido a sua missão. Precisava ter eleição direta nesse País e que precisavam voltar aos quartéis e voltando aos quartéis, em vez de os soldados ficarem fazendo exercício todos os dias, que fizessem uma reforma agrária usando o pessoal [os soldados] em vez de fazer exercício, que trabalhassem na terra.
 
Isso foi um desastre. Passei a ser uma das pessoas mais odiadas pelo general Walter Pires, a ponto de ele ter ido às forras lá na frente, quando eu pedi ao presidente Figueiredo que colocasse o general Ludwig na sua sucessão porque era um dos melhores membros que tinha no governo dele. De Ulisses [Guimarães] a Miguel Arraes, todos o apoiavam. Ele era uma mentalidade nova, fantástica. E aconteceu que o Valter Pires soube disso e pediu até que eu evitasse entrar no Palácio do Planalto, coisa que um ajudante de ordem do general ter me trazido essa história. Mas esse pronunciamento foi um. Mas o pior [no sentido de polêmico] que eu fiz, foi quando voltei da Nigéria, e o presidente Figueiredo tinha sofrido um enfarte e tinha ido para Cleveland (EUA) e o secretário do embaixador me acordou de madrugada, na Nigéria, sabendo que eu era deputado federal, membro das Relações Exteriores, para me comunicar que o presidente tinha tido um enfarte, e havia a ameaça de haver um golpe. E pra mim foi uma luta. Tinha um voo da Nigéria e de Lagos direto para o Rio de Janeiro. Era um Boeing 707, era a Varig que fazia e não tinha voo no outro dia, só dali a três dias. Aí eu senti na vontade de regressar. Ele arranjou pra mim pela Alitalia. Fui a Roma e depois para o Brasil. Foi uma viagem terrível.  Fui saber o que estava acontecendo com o Figueiredo. Cheguei a ligar para o filho dele, pedindo informação. Até aquele momento, tinha uma boa relação com o Figueiredo. Ele tinha ido na minha casa. Jantou na minha casa com oito ministros, e vários senadores e deputados. Foi o único lugar que um general, um presidente foi. Ele foi à minha casa porque ele gostou de uma conversa que eu tive com ele. Isso foi anteriormente. O fato é que ele foi para Cleveland e lá houve um célebre recado depois. Vocês se lembram que o Eurico Rezende [senador e governador do Espírito Santo, 1918 - 1997] fez uma lista de candidatos ao governador. Você se lembra [se dirigindo a Rogério Medeiros]. Você fez parte da minha história, você me fez vestir uma camisa do PT. Na eleição do Vitor [Buaiz], que ele estava ameaçado. Você foi o cara que me corrompeu espiritualmente.
 
– [Rogério Medeiros] Nós fizemos um trato.
 
– Eu digo que Vitor foi o melhor governador para nós que governamos Cachoeiro. Meu deu amparo, você ajudou muito. Aquele contorno da fábrica de cimento, que foi uma obra extraordinária, várias escolas. Aí voltando ao presidente Figueiredo. O presidente estava em Cleveland e de repente voltou e eu não tive mais acesso a ele. Aí o Eurico [Rezende], numa indicação, naquele tempo que quem indicava os nomes que passavam  pela ‘democracia militar’. Aí Eurico pegou alguns nomes que ele achava que deveriam ser governador do Estado. Pegou o meu nome, o do Carlito Von Schilgen, do falecido Feu Rosa, do Setembrino Pelissari, o José Carlos da Fonseca e Valter De Prá, se não me engano. Aí o governador começou a ouvir com prefeitos e deputados e o meu nome teve 75 % dos votos. O segundo foi o Carlito que teve poucos votos, menos de 15 votos. Eurico foi ao presidente, que já tinha voltado, já estava no poder, eu  já tinha feito um discurso ‘queimado’ por eleições diretas, tinha desagradado muito. Eurico me trouxe um relato querendo saber o que havia acontecido comigo e Figueiredo. Ele também tinha ido no jantar na minha casa. Eu disse, nada, absolutamente nada. Eu só pedi a volta dos militares para os quartéis. Figueiredo conversou comigo pessoalmente. E teve também aquele lance da exoneração do Simonsen [ministro Mário Henrique Simonsen], da Fazenda, que foi o presidente que abriu o jogo, quiseram que eu desmentisse depois, o presidente Figueiredo sempre dizendo se você não desmentir eu não vou desmentir. Era um homem de palavra. Um homem de bem o presidente Figueiredo. Aí nesse ínterim, o Eurico disse: ‘Levei os nomes, Ferraço. Você não vai mais ser governador. Porque o presidente disse esse aqui não, deu um risco [apontando o meu nome]’. Pra mim foi uma surpresa o que estava acontecendo. Ou é jogada de Eurico... ainda falei com ele: ‘Ou é jogada sua, você quer me ver fora da lista, e isso não tem problema nenhum... Aí eu o persegui, até voltar a falar com o presidente Figueiredo...
 
– [Rogério Medeiros] Vou dar um corte, senão a gente não entra no assunto [atual]...
 
– Eu vou interromper porque essa história é muito boa. Porque eu explodi a revolução, fazendo a participação, quando o [José] Sarney se tornou vice do Tancredo [Neves]. Aí tem uma traição que fizeram a mim também, porque o Tancredo falou comigo que só aceitaria ser presidente se o Aureliano [Chaves] não fosse. Aí pensei: ‘Não sei mais com quem eu converso’.
 
– Vamos dar um pulo para o Paulo...
 
– Paulo Brossard [morto em 2015, deputado estadual, deputado federal, senador, ministro da Justiça e ministro do Supremo Tribunal Federal] ou PH?
 
– PH.  Só para fazer a transição mais suave, de onde você parou, eu queria fazer uma pergunta que tem a ver com a sua trajetória, que é de mais de meio século de experiência política. O senhor acha mais difícil fazer política hoje ou em outros tempos?
 
– Eu sempre me dei bem com política. Vários mandatos deputado federal, prefeito...
 
– Três de prefeito, três de deputado federal e cinco...
 
De prefeito quatro, de deputado federal três e de deputado estadual, seis. Eu sempre me dei bem, eu gosto de eleição, eu gosto de eleição direta. Eu falei agora há pouco com a Norma Ayub, passei o telefone, disse: ‘Olha, você está dando entrevista, mas você não falou nada [sobre a denúncia contra Temer que tramita na Câmara]. Claro que a Norma quer eleição direta, vota pela eleição direta. O seriado da Globo me colocou como um dos três rebeldes que votaram pela eleição direta. Apareci ontem na Globo como uma das pessoas que se revoltou e pediu eleição direta no País e continuo pedindo eleição direta. É a única salvação. Mudam os homens, sai o Temer entra o presidente da Câmara ou sai o presidente da Câmara e vai entrar outro, não vai mudar nada. A crise vai continuar. Podem até ser substituídos por gente boa, sem problema nenhum, mas o país está precisando respirar novos ares. Onde o povo se manifeste para que nós possamos ter aqui eleições já. Eleições diretas já, o País está em crise, esse desemprego, não dá mais pra ficar brincando com o país.
 
 
–  O senhor fez três mandatos sucessivos na presidência da Assembleia e quase partiu para o quarto. Durante os três mandatos nunca escondeu de ninguém que sempre fez um direcionamento buscando a harmonia com o governador...
 
– Conciliação com os poderes...
 
– Isso tanto no governo Renato Casagrande quanto no governo Hartung. E agora, quando o senhor volta à tribuna fazendo críticas incisivas ao atual governo...
 
– Ainda não fui incisivo, vou fazer pronunciamentos mais incisivos ainda.  Mais realistas.
 
– O senhor está levantando pontos que não são só a crítica pela crítica, são informações [denúncias] para a sociedade. Por que o senhor resolveu virar a chave [contra PH]?
 
– O PH todo mundo conhece. Eu fui um dos idealizadores de sua campanha… [em 2014, ao governo]. Tive até responsabilidade porque foram 18 reuniões na minha casa. Lá compareciam [João] Coser de um lado, [Sergio] Vidigal, o pessoal do PSDB, o ex-prefeito de Vila Velha, Rodney Miranda...Foram várias reuniões. Cada reunião que tinha, no dia seguinte tinham várias exigências de Hartung. E a gente procurava agradar. O meu candidato na realidade, era o Casagrande, nunca foi o Paulo Hartung, só que o Casagrande pisou na bola comigo. Não pisou na bola no sentido de faltar com a palavra, é um homem de honra, que tem  honradez, tem dignidade, me dei muito bem com ele, sabe conversar com você  e a gente sentia firmeza ao conversar com ele. O problema é que ele achou que podia dividir meus votos com deputado com o Glauber Coelho [morto em 2014, em acidente automobilístico, durante a campanha à reeleição de deputado estadual]. Olha, Glauber Coelho foi criado por mim [no sentido político]. Eu queria que o Glauber se elegesse, mas ele [Casagrande] pediu umas divisões de votos. Para tirar votos meus para o Glauber. Eu disse a ele: ‘Governador, político nenhum se elege antes da hora’. Ele dizia que eu tinha muitos votos. Eu disse: ‘Governador, não faça isso, porque eu vou ter que brigar, vou ter que romper [com você]’. Aí depois ele foi novamente em Presidente Kennedy, fazendo sentido que o candidato melhor [Glauber], que precisava de votos. Me agradava muito que ele tivesse esses votos, mas nos meus votos, não. Nos meus eleitores, não. Aí eu realmente disse a ele: ‘Olha governador, quero comunicar que já que o senhor está dividindo os meus votos, eu não vou dividir os meus com o senhor. Fui sincero. É o que está faltando a muitos políticos hoje, ser sincero, ser honesto. Ele ficou assim...perguntou se eu não podia rever. Eu disse: ‘Não, você não precisa de mim, você já está eleito. Eu vou procurar o Paulo Hartung para ser candidato’. Ele disse assim: ‘O Paulo não vai ser candidato, porque ele não tem coragem de me enfrentar’. Eu disse: ‘Então, tudo bem, um abraço. Mas ficamos amigos’.
 
Hoje, inclusive, se ele voltar a ser candidato a governador vai ter o meu apoio. Estarei no seu palanque. Se tiver uma disputa com o Paulo Hartung, não tenho dúvida que o meu palanque será o de Casagrande. Então, o que aconteceu foi um desgaste natural. Porque eu julgava que o PH tivesse melhorado, tivesse alterado, se transformado. Vamos dizer assim... daquela política da serpente, que levanta a cabeça e enche os olhos da pessoa que está ouvindo. Às vezes o adversário, doido pra comer o adversário, mas ele é agradável. É o voo da serpente que ele fez com o Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos Deputados], recentemente [o deputado do DEM conversou com o governador em agenda não oficial]. Eu já estava cansado disso. Ele tem capacidade? Tem. Mas ele tem muita capacidade para o mau. Ele é terrível. E ele não me inspirava confiança nenhuma. E eu tinha um grande defeito. Dizia: ‘Governador, tá indo mal neste caminho, precisamos melhorar, mas com ele. Não fazia isso pela imprensa, respeitava. Mas eu sei que ele não gostava. Quando houve uma lei de mudança da Constituição Estadual para que permitisse que eu fosse reeleito. Isso foi feito por iniciativa do [Luiz] Durão – que está pagando o pecado até hoje por fazer essa lei. Saiu da Assembleia e o governador nunca mais falou com ele – o governador guardou aquela mágoa porque foi feita uma reforma sem que ele fosse ouvido. Gente, os imperadores não gostam realmente de serem passados para trás, e que se faça alguma coisa sem falar com eles, infelizmente o estilo dele é esse. Ele quer tudo, quer saber de tudo. Eu tive um desagrado com ele na presidência [da Assembleia] em somente uma coisa. Ele gostava que os outros Poderes pedissem benção a ele antes de mandar qualquer projeto da Assembleia Legislativa. O Tribunal de Justiça tinha seus projetos independentes, quando mandaram um projeto para lá que ele não foi ouvido, virou uma onça. Disse: ‘Governador tem de haver respeito, haver diálogo, isso é possível’. Então, ele não gostava dessa coisa. Ele gosta de lidar com pessoas que engraxam o sapato dele, que façam o topete para ele, que limpe seu rosto, que joguem um perfume nele. O meu perfume foi sempre o da honestidade e da sinceridade e eu cheguei à conclusão que aquele homem que me chamava para almoçar e jantar com ele, sentar na poltrona e conversar comigo, que cruzava os pés e eu não olhava pra ele. Eu não conseguia olhar para ele e pensar que estava conversando com um amigo, eu estava conversando com um inimigo. Essa cobra venenosa, a hora que puder vai me morder. Aí mudou a lei. Me falaram  assim: olha o Paulo reclamou. Tudo bem. Um dia, conversando com ele eu disse: ‘Governador, eu não vou mais ser candidato a presidente da Assembleia’. Ele disse: ‘Os deputados mudaram a lei, você tem que ser, você é o melhor presidente’. Eu disse: ‘Estou me sentido um pouco cansado, com a ida da norma para Brasília. Vou ter de dar uma atenção maior a ela, porque ela me fez esse pedido’.
 
– Foi uma decisão do senhor?
 
– Decisão pessoal, minha e familiar. Fui a ele e ele disse: ‘De jeito nenhum, você vai ter de ser candidato a presidente. Disse, não governador, quando o senhor mandou o Rodrigo [Coelho] para a Assembleia e o senhor declarou que ele deu um tiro no pé – como outro deputado lá que ele disse que deu um tiro no pé, mas isso eu vou falar na hora certa – o senhor ligou para mim, eu estava em Nova York, conversando com o pessoal do grupo Edison Chouest, visando o projeto do porto [Açu] para Itaipava novamente, só que em vez de óleo e petróleo, para ser geral e eles toparam a parada. Aí o primeiro que tinha que saber disso era o governador, para não atrapalhar. Porque se você não adiantasse essa ideia, atrapalhava. Ele é terrível. Não mudou nada, piorou muito. Marquei o encontro, veio o diretor internacional [da Edison Chouest], nos reunimos lá no Palácio [Anchieta]. Ele virou para mim e disse assim: (Isso eu juraria em cima de uma Bíblia): ‘Mas porque vocês não falaram isso para mim antes, que ideia espetacular, um porto geral. Tem o meu apoio total’. Aquele negócio todo. Dois dias depois estava o secretário dele em Presidente Kennedy, porque ele morre de amores para trazer o porto para Presidente Kennedy, o que para mim é uma notícia muito boa, só que você vai deixar de apoiar um grupo [Edison Chouest] que não precisa de dinheiro do Estado, não se mete em política, que não dá dinheiro para campanha política, que não se mete. Lá nos Estados Unidos, eles resolvem o problema, aqui no Brasil, não. Dois, três dias depois, o secretário dele aparece com um diretor lá do pessoal de Kennedy do porto para ver o problema de terreno, a situação, porque o meu projeto, o projeto Edison Chouest podia prejudicar Kennedy, e morreu. Pensei, eu não tenho mais campo para conversar com esse cara [Hartung]. Não posso conversar, porque eu sinto nele, assim, a cara de traidor, de traição.
 
– É irreversível a sua relação com ele?
 
– Irreversível. Eu tenho vergonha na cara. Tenho vergonha na cara. Ele disse:  ‘Olha, eu não mandei o Rodrigo [Coelho] para a Assembleia para tomar o seu lugar não’. Eu falei: ‘Mas o Rodrigo é um bom candidato’. E o Zé Carlinhos [da Fonseca Júnior] estava perto, não vai desmentir nunca, nem que tenha que desagradar ao rei ou ao imperador. ‘Não tenho nada contra o Rodrigo, disse, e se o senhor quiser, tem o meu apoio’. E ele disse: “Não, ele [Rodrigo] deu um tiro no pé, você vê que o partido dele já foi contra’. Eu comecei a olhar pra cara dele. Ligou pra mim pra dizer que deu tiro no pé e tal. Aí voltei nele, e disse mais uma vez, que não seria candidato a presidente da Assembleia. ‘Vamos escolher um de comum acordo? Tem o presidente da Comissão de Finanças, o Dary Pagung, que é muito bom, que é seu amigo. Tem o Gildevan, que é seu líder, e tem o Rodrigo Coelho, que é um bom rapaz, excelente rapaz. Vamos acertar isso, fazer uma conciliação’. Ele disse: ‘Não. Não se envolva nisso. Deixa que eu resolvo isso na hora certa. Passou um tempo, um deputado, não vou dizer o nome, um deputado muito amigo meu, me disse: ‘Ferraço, não conversa mais com Paulo Hartung, não. Não dá confiança, ele está usando três deputados para fazer o Erick [Musso] presidente, porque ele quer mostrar a Aracruz que foi o único lugar que ele foi para pedir votos para seu prefeito e o povo disse não. Ele quer mostrar que é ele quem manda neste Estado, que ele quer fazer o presidente’. Aí eu disse: ‘Mas o Erick pode ser o meu candidato, é um excelente rapaz, não tem problema nenhum’. Aí entra o Erick no meu gabinete para pedir o voto para a liderança do bloco. Disse: ‘Erick, você não quer ser candidato a presidente, não?’ Ele disse: ‘Não, o máximo que eu posso esperar é ser secretário em uma Mesa com você’. E esse deputado estava lá e viu essa conversa toda. Aí virou para mim e disse: ‘Ferraço, você não tem mais idade para ser enganado assim. É o Paulo que está por trás disso tudo, mandando escolher Fulano, Sicrano, com bloco formado. Então, você tem que dizer que é ele quem vai dirigir e você não tem que conversar mais sobre nenhum entendimento. Fui a ele e disse: ‘Governador (na presença do Enivaldo dos Anjos, da Luzia Toledo e do Zé Carlinhos), venho lhe comunicar que a partir de agora o senhor não toque mais comigo em matéria de presidência da Assembleia, porque eu não confio no que o senhor fala comigo, porque vocês estão traindo, estão fazendo tudo por trás das minhas costas, quando não tinha motivo nenhum. Nós podíamos escolher de comum acordo. Não faço questão  de ser candidato’. Ele ficou imóvel, não disse uma palavra. E a partir daquele momento eu rompi com ele definitivamente e espero que o povo do Espírito Santo me perdoe por eu ter pedido tanto voto para ele.
 
– O senhor tem feito algumas denúncias em relação ao governo do Estado e estava falando de um empréstimo com a Caixa, gostaria que o senhor falasse mais sobre isso.
 
–  No governo do PH [início do primeiro mandato, em 2003], ele fez um empréstimo de R$ 350 milhões e o Lula foi muito cordial com ele e mandou emprestar. A situação era difícil, etc.
 
 
– O senhor está falando daquela antecipação...
 
–  Dos royalties do petróleo. O que foi feito? Em vez de ser um empréstimo a juros de 8% ao ano, subsidiado, uma coisa que a Caixa e o Banco do Brasil estavam fazendo com o governo, o economista PH [em tom irônico] fez um contrato vendendo o ativo dos royaltie a US$ 12 o barril para pagar o empréstimo. Começou a pagar a dívida e o governo pagou a dólar de 40, a dólar de 60 até de 140 o barril, o que significou um prejuízo para o Espírito Santo de mais de R$ 900 milhões em números redondos de R$ 811 milhões a 911 milhões, porque tem uns reajustes a fazer. E quando mudou de governo, o governador Casagrande, sem nenhum alarde, entrou no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo que fosse paralisado o pagamento daquela dívida, porque aquela dívida já havia sido paga três vezes, quatro vezes. Não foi Renato que me pediu para fazer essa denúncia. Não sabia. Tomei conhecimento por quê? Eu pedi a Assembleia que entrasse como litisconsorte [no STF] em defesa dos interesses do Espírito Santo, que estava precisando de dinheiro, quer dizer, até para ajudar o governo, a intenção é essa. Mas esse PH é terrível. Até para você ajudar, ele acha que está errado porque tem que ser só ele. Só vale quando é ele que faz as coisas.
 
A Assembleia não deu [permissão para entrar como litisconsorte]. O governo interferiu. Localizei um processo em que o ministro [do Supremo, Luiz Roberto] Barroso havia sido o relator e é relator até hoje, reconhecendo que o contrato era lesivo aos interesses do Espírito Santo. Lesivo aos interesses. E como tinha sido assinado pelo governador, que fosse feito um acordo com o governo federal para que o prejuízo que estava em... (não sei se é R$ 811 ou se é R$ 911 milhões,  e a dívida de R$ 300 milhões já estava em R$ 500 milhões, descontados mais de R$ 900 milhões), que fosse dividido e fosse feito um acerto de comum acordo. Ministro Barroso do Supremo Tribunal Federal. Foi para o governo federal e o governo federal disse: ‘Não, não vamos ter acordo nenhum’. O governador foi quem assinou, deu um lucro muito grande ao governo federal, problema do Espírito Santo. Quer dizer, então, a situação estava assim e nesse pronunciamento [na Assembleia] meu, de boa fé, de muito boa fé. Já que o Espírito Santo está precisando de dinheiro eu perguntei: ‘Por que o governo tinha tido encontro com o senhor Temer aqui na Praia da Costa, antes de o Temer ser presidente da República, mas aí já era presidente, ao invés de chamar o Temer aqui para conversar assuntos muito íntimos, depois para derrubar a Dilma, para ser presidente... um acordo desse tipo, que depois eu vou relatar ao povo do Espírito Santo, lá na frente, um outro que ele teve com [José] Dirceu, que eu cheguei e topei os dois conversando. Esse assunto eu vou reservar para o momento certo.
 
– Com José Dirceu?
 
– Sim, que tem a ver com a sucessão... [de 2010, quando o seu filho, Ricardo Ferraço foi sacado da disputa ao governo para dar lugar a Casagrande], mas vamos a esse fato que é muito importante para o Espírito Santo. Não tinha me tornado nem um opositor, não. Estava lutando por uma coisa... porque, inclusive, tem os 25% dos prefeitos, que têm que entrar na Justiça e o governo tem que pagar. Desse dinheiro, 25% são dos prefeitos que não aconteceu nada. Não aconteceu nada. Mas isso é outra história. Aí com essa reclamação eu tive que tornar público, a minha insatisfação porque a Assembleia não me atendeu de ser litisconsorte. Para ir ao governo, uma missão governamental, uma missão nossa, para ir ao presidente da República e pedir a liberação do dinheiro. Tanto que eu pedi uma audiência ao presidente Temer, eu e Norma. Pedimos a audiência, eles ficaram de marcar, mas demorou muito, deixei pra lá e parti pra briga. Aí o que aconteceu nessa história toda, a Assembleia arquivou o pedido, dizendo que não era caso de litisconsorte. Simplesmente. Eu peguei o processo e mandei para o lugar certo, o Ministério Público, que eu confio muito. Eu confio muito no Ministério Público. Tem um problema ou outro com promotor, mas isso faz parte. Eles também muitas vezes não gostam de deputados, mas em sua maioria é uma instituição séria e que é responsável por defender os interesses. Então, agora está lá no Ministério Público e eu quero dizer o seguinte: quem foi o responsável por esse prejuízo? Não fui eu e não foi você, não, Rogério, nem você Rabelo, nem você, Renata. Foi o ‘grande economista’ que está dirigindo o Espírito Santo que assinou esse contrato...
 
– O senhor acha que foi uma escorregada econômica dele? Por que ele passou esses dois anos como o “grande guru” da economia. O senhor classifica como uma escorregada?
 
– Guru, eu conheço guru de muitas outras coisas. Guru é até o apelido de um passarinho que é metido a cantador, mas fica imitando os outros pássaros a cantar, mas gosta que seja ele que esteja cantando. Mas vamos deixar esse negócio de guru prá lá. O governo, que teve aqui o Temer e depois o Maia, devia cuidar disso [da dívida com o governo federal] e não cuida. Será que está com medo de fazer esse acordo, e a associação dos prefeitos dizer assim: ‘E os nossos 25%?’. Vou defender os prefeitos, agora vai ser a segunda fase. Vou entrar na Justiça, mostrando que os prefeitos tinham direito a 25%, mas não sou eu que estou falando, não. O próprio Tribunal de Contas já entendeu que eles deveriam ter dado esses 25% e está arquivado o processo, por enquanto. Essa é uma atividade que você pode dizer: ‘Você está fazendo isso porque está com raiva do Paulo Hartung?’ Raiva eu não consigo sentir de ninguém. Eu não consigo. Vingança? Eu não consigo ter. A Bíblia, que é o maior livro do mundo, ensina a não fazer vingança, mas você não é obrigado a conviver com os inconvenientes, com os intocáveis, com os implacáveis e como aquele filme... ‘Os Imperdoáveis’ [clássico do faroeste, de 1992. Direção de Clint Eastwood]
 
– O senhor não tem medo de sofrer represálias na eleição do próximo ano?
 
– De jeito nenhum. O povo... e eu vou pedir a Deus, e vou pedir aqui também, que me dê forças para eu estar nos palanques, dizendo a verdade e vou dizer toda a verdade, como aconteceu e o que aconteceu, inclusive, com a minha sucessão na Assembleia. Quem viver verá! Não vai sobrar pedra sobre pedra! Nós não somos donos do povo. Quem pensa que é dono do povo fica encalhado. Não cresce de jeito nenhum, vai ficar sempre com um metro e meio. Eu, como deputado, tenho de dar essa satisfação ao povo. Eu estarei em um palanque e não será no do Paulo Hartung. Se Deus quiser, e peço a Deus que me dê muita saúde, porque eu vou voltar a ser o Ferraço que eu sempre fui. Não é o Ferração, não. É o Ferraço humilde, mas com coragem para falar o que tem que ser falado, aquilo que tem que ser dito e o povo vai ouvir verdades. Quem viver verá! 
 
Não estou ameaçando ninguém, mas também não sou homem de receber ameaça. Sei que houve um agrado aí de um colega meu, que o governador chamou lá no Palácio para dar café a ele, e eu não vou revelar o nome, que fica reservado para futuramente. Ele tem o maior prazer, ele parece que goza, entendeu, com a desgraça dos outros. É terrível! É terrível! E eu não tive outra saída, não tinha como eu tolerar mais, entendeu, o canto da sereia ou a serpente venenosa pronta para te dar a mordida. E o veneno da serpente se você não tiver boa vacina na hora... e antes que acontecesse isso, eu estou onde estou e estou muito bem. Está [Hartung] perseguindo o pessoal ligado a mim. Não estou nem aí! Estou com pena do pessoal, mas essa perseguição vai pro palanque, vai para a sua história política, a história que ninguém contou até hoje, vai ser contada.
 
– O deputado está no DEM, e teve esse episódio com o Rodrigo Maia. Paralelamente, o PSDB teria feito uma aproximação com o senhor, na tentativa de evitar que o Paulo entre no PSDB. Como ficam essas movimentações partidárias?
 
– Eu fiquei muito orgulhoso com o convite do PSDB, porque se o Paulo entrar, realmente, no Democratas, vai entrar por uma porta e eu vou sair pela outra. Então, eu tenho um bom partido, o PSDB, que me convidou, como também o PSB. Eu pretendo continuar no Democratas. Continuou porque nós tivemos o apoio geral. O que aconteceu aqui com o Rodrigo Maia foi uma coisa simples. O Rodrigo Maia recebeu um telefonema de um assessor direto do governador, dizendo: ‘Você vai ao Rio, venha aqui conversar com o Paulo, trocar ideia sobre o que está acontecendo no País’. E lá [no encontro] o governador levou pessoas de sua confiança, que não sabiam o que foram fazer lá. Eu tenho o relato de um deles que é terrível. Foi para lá como bobo, para ser apresentado ao presidente [da Câmara]. Mas no fundo, o que o Paulo fez foi o seguinte. Uma jornalista, que publicou, em um jornal, dizendo que o encontro foi para tomar o partido, que foi para o Paulo tomar o partido [o DEM]. Isso nunca passou pela cabeça do Rodrigo Maia, nunca passou. Até houve um episódio hoje interessante. Uma pessoa me ligou e falou assim: ‘Você viu o que aconteceu com o Rodrigo Maia?’ Eu disse: ‘Não’. “O Rodrigo Maia recebeu um telefonema da mãe dizendo para ter cuidado e não trair os amigos e foi depois que ele esteve aí no Espírito Santo e está traindo o Temer’. Eu disse: ‘Não, não é por causa disso não’. Ligo a televisão. O grande comentário da televisão, o Rodrigo Maia realmente recebeu... e ele é de uma família fantástica, o pai é um político que eu tenho muita admiração por ele. A mãe ligou realmente para o Rodrigo e disse: ‘Rodrigo, os jornais estão dizendo que você está traindo o Temer. Olha, o Temer foi quem te colocou na presidência! Não faça isso, meu filho! Aí já confundiram, entendeu?’ Que ele fez isso depois que veio ao Espírito Santo. Eu espero que não.
 
 
– Depois de 50 anos na política, o que o senhor ainda não fez e que gostaria de fazer?
 
– Olha, não posso reclamar da vida. Não posso reclamar. Eu poderia dizer ao povo do Espírito Santo que é para ter muito cuidado com esses políticos que aparecem na hora da eleição se oferecendo para fazer ponte até onde não tem rio. Que encarasse a população, que tivesse mais preocupação com os interesses legítimos do Estado e do País. Isso é muito difícil porque, às vezes, alguns eleitores são responsáveis por isso, vêm pedir ajuda, vêm pedir dinheiro, vem pedir recursos e acabam vendendo o seu voto. Aí tem os profissionais, que vivem disso. Vivem das mentiras, vivem das ilusões e mascarando a sua personalidade, o seu caráter. Eu gostaria que isso mudasse, eu gostaria que os políticos tivessem mais credibilidade e hoje o povo não está acreditando nos políticos e tem razão. Vocês estão vendo o que está acontecendo? Todo dia é um problema. Qual a liderança que tem hoje para mostrar ao Brasil que tem condições de governar esse país? Para acabar com o desemprego? Não faturar em cima do dinheiro público? Eu sonharia. Gostaria que esse país fosse realmente um país de todos os brasileiros. Que houvesse menos pobres, menos ricos, que a sociedade se entendesse melhor, que o capital se unisse ao trabalhador. Eu já sonhei com muitas outras reformas, nessa minha idade, o que eu sonho é ver ainda um país de todos os brasileiros. Um país onde não tem fila para a saúde, um país onde você entra em um hospital e é tratado igual o rico, com igualdade de condições, onde você não precisa ficar um ano esperando uma consulta, um ano para fazer uma operação. Eu, por exemplo, tenho um orgulho muito grande, do Instituto do Coração de Cachoeiro, que a Santa Casa agasalhou. Que bem nós fizemos ao povo. Ali atende adversários, amigos, inimigos, seja quem for. Que bem faz o Instituto do Coração. Trata o pobre igual rico. É um exemplo para o Espírito Santo e para a minha vida pública. Além das outras obras, grandes desafios que nós tivemos.
 
Eu hoje diria a você que eu estou satisfeito com o que fiz. Em Cachoeiro, deixei de ser candidato a prefeito, na última eleição. Estava com 72% na pesquisa, mas disse não. Vou continuar deputado estadual. Me perguntaram por quê? Eu disse: ‘Porque eu não vou conseguir fazer uma nova Beira Rio, não vou conseguir tirar novamente o Instituto Guandu’. Das sete ou oito pontes que tem aqui [em Cachoeiro], cinco foram feitas por mim. O asfaltamento, a linha vermelha, o Instituto do Coração, o Instituto dos olhos, que recebeu o nome da minha mãe, que nós fizemos com recursos de verba pessoal. Não conseguiria fazer mais essas grandes obras. A Beira Rio, por exemplo, como os carros iam passar todos na Francisco de Braga, de mão e contramão, se não tivesse a Brahin Seder e a Beira Rio? Mas hoje eu ainda sonho como porto de Itaipava, em Itapemirim. Que saia o porto de Kennedy. Acho ótimo! Mas vamos fazer essa justiça, para isso é preciso ter o terreno e ainda está em desapropriação. Eu sonho que isso seja realidade e que bata firme no coração do governador, que sonha com esse porto, mas por que não podemos também ter o porto de Itaipava? Itapemirim também tem direito a ter o seu porto. Só porque foi ideia nossa? Foi ideia da administração da Norma. 
 
Aliás, falando da Norma, ela está doida para fazer um pronunciamento [na Câmara]. Ela já fez uma emenda, pedindo que quando o vice-presidente fosse afastado, tivesse eleição direta nesse país, convocada pela presidência do Supremo Tribunal Federal, no caso, a ministra Cármen Lúcia. Por quê? Porque aí vai ter uma pessoa da Justiça administrando uma eleição sem partidarismo, sem esculhambação com o dinheiro público, ou favorecimento. A Norma entregou o partido, porque o partido pediu que houvesse uma manifestação só no momento oportuno, mas eu posso dizer aqui: ela está doida para ter eleições diretas. Ela me viu na televisão, ficou radiante. Ela vai dizer assim: ‘Se o Ferraço por acaso me pedir: olha, protege o Temer, protege o Rodrigo Maia, ou o João, ou o Antônio, ou o Buru, ela vai dizer não. Na sua época você não quis eleição direta. Esse é meu grande sonho’. Me falou hoje: ‘Esse país só tem uma saída: eleições diretas já para o povo se manifestar.
 
– Ferraço, você na Assembleia vai até 2018 como vai ser essa trajetória com essa vontade de pegar Paulo Hartung?
 
– Eu espero chegar em 2018 com um mandato que vai deixar saudade ao povo do Espírito Santo. Não sei se eu serei candidato. Vou conversar com o povo. Vou conversar com meu anjo Gabriel. O meu anjo Gabriel, quando eu ia ao Palácio Anchieta, eu pedia a ele para me acompanhar. Para me proteger... da cobra venenosa. E ele me protegia sempre. Foi ele quem me abriu os olhos: ‘Sai fora desse governador. Isso gosta de enganar todo mundo. Você não tem idade mais para ser enganado, não’. Acho que o anjo Gabriel usou essa palavra na palavra de um amigo que me estimulou a ter esse encontro. Agora ou nunca mais. Ele lá e eu cá. Estou com uma tranquilidade! Estou até mais aliviado, com melhor saúde em ficar livre do imperador.

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Comentários

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