"Toda sociedade tem os adolescentes
que merece." J.B. Priestley (1894 - 1984)
Os adolescentes brasileiros estão dando início à vida sexual cada vez mais cedo. Se na década de 80 as meninas experimentavam a primeira relação sexual aos 15 anos e os meninos aos 17, nos anos subseqüentes a iniciação sexual passou a ocorrer em faixas etárias ainda mais baixas: situa-se atualmente nos 13 anos para as meninas e 15 para os meninos. É o que apontam as mais recentes pesquisas feitas no Brasil. Em 29 de outubro, um jornal local noticiou na sua principal coluna que a Escola Municipal Irmã Jacinta Soares, localizada no Morro do Romão, em Vitória, estava comemorando 216 dias sem registrar um único caso de gravidez entre suas alunas. Dá para acreditar? A incidência de gravidez entre os adolescentes é um fato que perpassa todos os estratos sociais: da classe média alta até as canadas C, D e E. Quem pode facilmente atestar são os professores e diretores das escolas da rede pública e privada. Aliado ao grave problema do consumo de drogas, a gravidez precoce representa hoje a segunda maior fonte de preocupação dos pais. Preocupação - não custa lembrar - sempre envolta em um grande temor. Medo permanente! Fica, no entanto, a pairar um aspecto nebuloso: com tanta informação sexual sendo veiculada na mídia - as incontáveis campanhas induzindo ao uso do preservativo para se evitar a Aids e doenças sexualmente transmissíveis - por que o número de adolescentes grávidas continua a crescer? Quais as conseqüências de uma gravidez precoce não só para a adolescente como para a sua própria família? Como os pais devem proceder para evitar tal desfecho? Para responder a esses questionamentos, procuramos o Dr. Carlos Boechat Machado Filho, psicólogo e terapeuta com especialização em sexualidade humana, educador sexual nas escolas da rede pública e privada de ensino no Espírito Santo, autor do livro "Falando de Sexo com Amor", lançado em 2000, pela Editora Vozes, dono de vasto currículo recheado de trabalhos apresentados em congressos, conferências, seminários e palestras ministrados nos mais conceituados estabelecimentos de ensino do Espírito Santo. Ah... sim! No decorrer desta entrevista que aconteceu no consultório do psicólogo e terapeuta sexual localizado na Praia do Canto, fomos interrompidos por uma chamada telefônica internacional: tratava-se de um convite para o dr. Carlos Boechat deslocar-se até os EUA, precisamente para a cidade de Miami, para proferir uma palestra sobre sexualidade para os adolescentes brasileiros residentes na Flórida. O convite foi aceito.
Século: - Em que década ocorreu uma maior abertura para a educação sexual aqui no Espírito Santo?
Foto: Gustavo Louzada
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Boechat: - Eu poderia dizer que a abertura para a educação sexual no Espírito Santo teve início quando eu cheguei de Brasília. Sou seguramente um dos primeiros psicólogos a conseguir acesso às escolas, ou seja, a 'ousar' entrar nos colégios levando o conhecimento da educação sexual. Isso ocorreu em torno de 1987, 1988 ... por aí. No Brasil, o 'boom' da questão sexual aconteceu com a Martha Suplicy no programa 'TV Mulher' da Rede Globo. Aqui no Espírito Santo, a TV Educativa colocou no ar um programa diurno, chamado "Da mulher para a mulher" e um dos quadros do programa tratava da sexualidade feminina. Fui convidado e aceitei ser o responsável e apresentador desse quadro. Então, a TV Educativa do Espírito Santo foi pioneira nesse aspecto. Quanto ao desenvolvimento do trabalho de educação sexual nas escolas capixabas ocorreu de forma lenta, morosa, só aos poucos foi se abrindo uma brecha, uma discreta abertura nos colégios religiosos, particulares e públicos. Aliás, nas escolas públicas o acesso foi - em relação às demais - mais rápido, devido a maior carência de informação e uma explícita demanda de profissionais preparados para falar da questão.
- Houve época, em que se falou exaustivamente da necessidade de se introduzir Educação Sexual na grade disciplinar dos estabelecimentos de ensino do Brasil. No entanto, em pleno 2003 essa não é ainda uma realidade nacional. Por que? E quais as conseqüências dessa não institucionalização da disciplina?
- Bem, os parâmetros curriculares do Brasil colocaram a educação sexual junto com outras matérias que consideraram menos relevantes como, por exemplo, ética, cidadania, drogas etc. Ou seja, toda essa temática foi classificada sob o rótulo de conhecimentos transdisciplinares e deverá ser ministrada diluída no conteúdo das disciplinas tradicionais. A idéia inicial, desenvolvida por um grupo de Brasília da qual fiz parte, era se lutar para a institucionalização da 'Educação Sexual' como disciplina autônoma. Não logramos êxito. Por que? Principalmente por dois grandes motivos: primeiro, o custo para se formar um profissional habilitado para ministrar a disciplina 'Educação Sexual' seria muito elevado para o governo; segundo, na hora da votação do projeto, atuaram as forças conservadoras do Congresso Nacional, quer dizer, as correntes mais tradicionais e religiosas se posicionaram totalmente contra o projeto. Então, o que temos hoje, na prática, é uma educação sexual às avessas. Não há nenhum tipo de controle de qualidade sobre os professores que deveriam ou devem estar ministrando noções de educação sexual em sala de aula. Aliás, a esse respeito, pode-se fazer uma série de questionamentos. Vejamos: 'Todo professor está habilitado a ministrar educação sexual?' Se a resposta for 'sim', a pergunta seguinte será: 'E quem está orientando esses profissionais?' Caso a resposta seja 'não', pergunta-se: 'E quem é esse professor que irá ensinar 'Educação Sexual'?; 'Qual a sua habilitação científica para discorrer sobre o conteúdo?' Assim - visto está - quando o domínio e a habilitação de uma disciplina pertence a todos, fica mais que provado que ninguém, na verdade, o possui e, portanto, ninguém irá ministrá-lo. Exatamente por terem absoluta consciência dessa situação é que os diretores de escolas mergulharam em um profundo e hermético silêncio sobre a questão. Fala-se muito sobre ética, filosofia, cidadania mas, quando o assunto versa sobre sexualidade humana, adota-se a política do 'deixa para lá', visto que sexualidade é uma questão mais complexa. A verdade é que continua a vigorar a Lei da Omertà - ninguém, absolutamente ninguém, fala disso! A conseqüência? É o que aí está: a gravidez indesejável alastrando-se de forma assustadora, prejudicando não só a adolescente grávida mas a dinâmica emocional e financeira da família; a Aids e inúmeras outras doenças sexualmente transmissíveis disseminando-se largamente entre a juventude. E há, ainda, um ponto que a estatística esquece de pesquisar: o distúrbio afetivo. O não conhecer o amor. O não conhecer um sexo afetivo, amoroso, responsável, respeitador do corpo do outro. Esses fatores, a estatística não registra! Estão preocupadas com o número da incidência de casos de gravidez precoce e das doenças sexualmente transmissíveis. Esquecem de registrar os números da felicidade do ser humano.