"Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo".
(Shakespeare - 1564-1616 - 'Hamlet' - Ato III/Cena I)
Quando marquei esta entrevista com o dr. Sérgio Tufik, imaginei alguém pouco simpático, preocupado em liderar todos os segmentos de um evento que estava reunindo quase 800 pessoas no Centro de Convenções de Vitória, nos últimos dias 5 e 8, iniciozinho deste mês. Imaginei que nossa entrevista pouco renderia.
Não por ele ser desinformado, mas por estar tão atarefado, que pouco teria como me atender e, conseqüentemente, aos leitores deste Século Diário. Era o IX Congresso Brasileiro de Sono. Era um turbilhão organizado - se assim posso dizer - de gente mergulhada na mais tradicional forma de recarregar as baterias do corpo humano, encarada até como algo "sagrado" durante mais de mil anos a.C.
Era gente de todas as partes da cidade, de todos os recôncavos do Estado, de várias ramificações do País, de longínquas estações em qualquer lugar do mundo. Era gente interessada em saber tanto leiga quanto cientificamente dos processos do ato de dormir - sem dúvida um excelente negócio para o organismo e para profissionais que se especializam, cada vez mais, na área da Medicina capaz de esmiuçar problemas e encontrar algumas soluções para as técnicas eficazes de combater males como insônia, apnéia (parada respiratória ou uma série de fragmentos no caminho da respiração no decorrer do sono), dependência de medicamentos...
Enfim, ao me deparar com tantos interessados, dentre médicos de especialidades diversas, psicólogos, farmacêuticos, naturalistas e esotéricos, aí é que comecei a pensar mesmo que o dr. Sérgio, presidente da SBS (Sociedade Brasileira de Sono) e, como tal, organizador e monitor do evento, conversaria comigo pouco menos de cinco minutos.
Dei um tempo zanzando por entre os estandes e fui observando o quanto a Medicina do Sono avançou em processos terapêuticos, desde a sua descoberta ou efervescência, na década de 70. São inúmeros mecanismos aflorados pela Ciência, facilitadores do acesso tranqüilo às janelas do sono. E como é que anda a sua? Talvez ainda entreaberta. O ideal é que ela encontre um horário determinado e obediente todos os dias de sua vida - pois esta, para correr com uma saúde equilibrada, deve conter as horas de descanso dorminhoco fundamentais ao seu biotipo ou ao modelo que você traçou (ou vem traçando) para se sentir em paz.
Fiquei em tom de passeio ainda mais pelos estandes e encontrei informações sobre a Higiene do Sono. Como assim? Higiene? Limpeza? Depuração? Sim. São regras - flexíveis, lógico - sobre o que devemos seguir antes de tentar dormir. Ainda encontrei tristes dados sobre a sonolência que acontece no volante, responsável por mais da metade dos acidentes no País e, na realidade, favorecida pela famosa "falta de atenção". Se você não conseguir dormir bem, fatalmente vai bagunçar suas possibilidades de concentração, seja em que for.
Tomei um cafezinho. Lembrei que ele é inibidor do sono em potencial. Mas eu deveria estar de olhos bem abertos para perceber que, nas proximidades das salas de reunião, aconteciam conversas e trocas de panfletos e livros sobre tantos assuntos, que só mesmo uma boa noite de sono seria forte para administrá-los na fase REM - esta a mais intrigante, mesmo tendo sido descoberta há meio século. É a Rapid Eye Movement (ou Movimento Rápido dos Olhos), pronunciada assim mesmo, como se escreve. Ocorrem nela os registros do nosso inconsciente - lugarzinho inconfessável em público e no qual se constroem os sonhos.
Quando pensei que ficaria com sono de tanto esperar, eis que chega o médico que me acordaria numa entrevista, espero, esclarecedora para os leitores e comemorativa por tantos eventos e avanços no setor. Simpático, brincalhão, alegre, mas extremamente sério e compenetrado no que fala ensinando, Sérgio Tufik desmoronou a minha idéia inicial. Pacientemente, foi me fazendo despertar para raciocinar sobre tantas noites mal dormidas, frutos de hábitos que acabam, como na maioria de nós, pisoteando uma espécie de liberdade que nosso organismo merece.
Paulista, descendente de libaneses e provavelmente um bom planejador das suas janelas soníferas, aqui está o médico Sérgio Tufik, especialista em Sono. Que depois destas linhas possamos entender o que seria dormir com a mais profunda tranqüilidade.
Foto: Gustavo Louzaada
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Século Diário - Na noite anterior a esta entrevista, dormi muito mal. Acordei no meio da noite, tive pesadelos e sobressaltos na respiração. Na verdade, tive a impressão que não dormi, ao acordar, bem depois, absurdamente cansada. Como o senhor poderia explicar isto?
Dr. Sérgio Tufik - A verdade é que a Medicina do Sono fez uma grande revolução, que é o exame de Polissonografia. Antigamente, se você fizesse uma pergunta desta a um médico, ele jamais responderia o que acontece com você. Ele jamais responderia ou tentaria responder de forma menos científica. Ele ficaria todo atrapalhado porque não havia tido a abertura suficiente de estudos no nosso meio para uma possível explicação. Ou uma explicação detalhada, realmente fundamentada em pesquisas, em experimentos sérios, no que a Fisiologia determina sob fatores essenciais para a conclusão de algum fato. Bom, o médico jamais responderia com a certeza que pode ter hoje. Ele receitaria um hipnótico qualquer, que lhe 'chumbaria' na noite seguinte e você nunca saberia o que teve. Você, aparentemente, concordaria com aquele provável descanso. Um descanso ilusório. Você cairia de sono, mas um sono que não era totalmente saudável, de acordo com a sua orientação física, de acordo com o que o seu organismo estava esperando para repor as energias, vamos dizer... de modo mais lento. Hoje, uma grande revolução está acontecendo no mundo. Começou na década de 80, mais nos Estados Unidos, e na década de 90 no Brasil. Foi se proliferando em idéias e foi se fundamentando cientificamente. E você pode ver o grande congresso que fizemos aqui (em Vitória), com mais de 800 participantes. Um sucesso de público e de troca de informações sobre algo que é primordial para a vida. O Brasil está sabendo disso, está consciente dessa tarefa em lutar pela vida através de um sono perfeito. Não, não diria perfeito, mas tranqüilo. São mais de 150 laboratórios de Sono pelo Brasil. Isto significa dizer quase dois mil profissionais envolvidos, pensando o sono de forma científica, até que se transforme num hábito cada vez mais saudável. Através do seu exemplo, nosso estudo permitiria que você dormisse num desses laboratórios para que pudéssemos dizer, no laudo do dia seguinte, o que teria, então, acontecido no seu caso.
Foto: Gustavo Louzaada
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Você poderia ter tido o movimento periódico das pernas. Muita gente dorme, mas as pernas ficam pulando. Isto fragmenta o sono, você acorda várias vezes e isto faz com que você se sinta sonolento, acorde no meio do sonho, tenha sonhos ruins ou 'veja' pesadelos e, enfim, passe uma noite muito mal. A fragmentação do sono é que provoca ruídos no processo. Se não é linear, será complicado mais tarde. Ao longo do dia, certamente você poluiu a sua possibilidade de dormir bem. Provavelmente, dormiu num horário irregular, que não tinha nada a ver com o que você estava tentando encaixar no cotidiano há vários meses. Você pode ter se alimentado mais próximo ao horário de dormir. Isto fez com que o seu aparelho digestivo trabalhasse mais, de forma mais apurada e cansativa, e você lutasse contra, já que estava querendo entrar num ritmo de passividade. Seu sono ruim pode ter sido, também, apnéia. São paradas respiratórias durante o sono, que ninguém sabia que tal distúrbio existia há um tempo atrás. É o que faz com que a pessoa pare de respirar, de 5 a 80 vezes por hora. Atrapalha, é lógico, o andamento do sono, embora a pessoa nem se dê conta. E, cada vez que ela pára de respirar, ela tem que acordar e voltar a respirar de novo. Então, ela não lembra que acordou. Olha como é perigoso. Isto faz com que ela sonhe nas fases 1 e 2, que é o sono superficial. Ela não tem a fase reparadora, que é o Delta e o REM - o sono dos sonhos. Fundamental a fase reparadora para o sono se adequar ao ritmo da tranqüilidade e provocar uma recarga das energias do organismo. Então, se ela não entra nas fases reparadoras, ela dorme muito superficialmente e, com isso, acorda cansada. Dá essa sensação que você descreveu. Ou não. Isto tudo pode ser uma insônia.