"Não esqueças: comédia é nossa vida,
e o teatro de farsa é o mundo inteiro,
e nele somos todos farsantes"
Quevedo (1580 - 1645)
José Luiz Gobbi guarda a funda convicção de que nasceu predestinado para o teatro. A paixão pelo ofício pulsa em suas veias, está impregnado na espiral do seu DNA. Transcende, portanto, à vocação ou escolha profissional consciente. É, segundo ele, 'la raison d'être' (a razão de ser) da sua existência. Aos 3 anos, estreou oficialmente no palco. Jamais parou! Quanto às circunstâncias, situações e épocas já vividas - das mais felizes às mais amargas -, José Luiz Gobbi, 49 anos, conseguiu interpretar com raro talento todos os papéis que os deuses lhe destinaram. Um virtuose também nos palcos da vida. Parodiando Mallarmé - "Tudo existe para terminar em livro" -, Gobbi acredita que o mais correto seria: "Tudo existe para terminar no palco". E justifica, lembrando a obra máxima de Balzac, "A Comédia Humana". Aliás, Gobbi conseguiu provar na vida prática a teorização do seu conceito de vida. Transformou os anos escolares, solenidades religiosas e festas profanas, relações familiares, amores e desamores em... teatro! Tchecov ou Nelson Rodrigues? O certo é que, no momento atual, vive a sua 'fase Gorki'. Adaptou a peça "Pequenos burgueses", escrita no início do século XX para o instável e mutante mundo contemporâneo. O resultado da sua firme e competente direção teatral surpreende: casa lotada, aplausos de pé ao final de cada espetáculo. Para os seguidores da filosofia de São Tomé - ver para crer -, a recomendação é ir ao Teatro Galpão neste final de semana e conferir 'in loco'. Domingo, dia 25, é o ultimo dia da temporada que estreou no dia 3 de abril. Inegável, no entanto, é que a personagem que o consagrou em definitivo foi a lendária solteirona Marly. Seu desempenho é tão fiel à personagem da 'tira em quadrinhos' criada por Milson Henriques que José Luiz Gobbi garantiu lugar de destaque nos anais da 'História do Teatro do Espírito Santo'. Com vocês, leitores de Século Diário, a franqueza, o bom humor e a irreverência de José Luiz Gobbi. Ah... sim, um último esclarecimento: esta conversa teve como 'cenário' o apartamento do ator, localizado no centro de Vitória. As fotos de Bernando Coutinho constituem prova cabal da afirmação:
Século: Que tal começarmos pelos seus dados biográficos, Gobbi?
Foto: Bernardo Coutinho
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Gobbi: Bem, eu nasci em 21 de fevereiro de 1955, na Santa Casa de Misericórdia de Vitória, a despeito da minha família residir, à época, em Jardim América. Aliás, morei lá até os 3 anos. Com os alagamentos que ocorriam com as chuvas - e, aliás, ocorrem até hoje -, belo dia a família acordou boiando: travesseiro, colchões, crianças, mãe, pai ... (risos). Tudo boiava dentro de casa. Meu pai veio para Vitória procurar um novo local para a família morar. Encontrou um apartamento aqui, na rua Sete, em frente ao antigo jornal "O Diário". Dessa forma, aos 6 anos, nos mudamos para a rua Sete. Nesta rua vivi toda a minha infância. Fiz o jardim da infância no Sesc, cursei o primário no Gomes Cardin e, então, voltei para Jardim América para estudar em um colégio de padres. Neste colégio fiz o ginasial e, mais tarde, o científico. Sempre, absolutamente sempre, voltado para o teatro. Esta é a minha vida. Marcada por inteiro pelo teatro. Ainda no jardim da infância representei o Dom Ratão, personagem da peça "O casamento do Rato com a Dona Baratinha". Nos anos subseqüentes, interpretei todos os dias considerados importantes no calendário escolar: Dia da Árvore, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Bandeira, Dia do Coelhinho, Dia do Gay (risos). Olha, lá estava sempre eu... O teatro pontuou toda a minha existência.
- Quer dizer, o teatro está impregnado em você desde a mais tenra infância. Você gostava de inventar personagens?
- Não. Eu já comecei fazendo teatro mesmo! Quando eu tinha três anos eram bastante comuns aquelas cerimônias de 'Coroação de Nossa Senhora', lembra-se? Pois bem. Lá estava eu chorando e esperneando, porque queria participar de qualquer jeito. Aí me faziam uma roupa de papel e eu acho que até interpretava muito bem... Ficava lá mudo e saía calado, porque não havia texto para ser dito. Atualmente é usual as pessoas que sonham em fazer teatro imitarem cenas de novela da TV diante do espelho. Eu não! Fazia teatro mesmo! Não era um sonho... era uma espécie de predestinação, uma compulsão irresistível. Enfim, o teatro é e sempre foi a essência maior da minha existência. Sonho para mim é algo que pode ser inatingível. E tem tanta gente que sonha a vida inteira sem conseguir transformar o sonho em realidade. Eu não. Não só interpretava, como também escrevia. No colégio comportava-me assim: 'Professor, fiz um poema sobre o Dia da Árvore'. Ou 'Professor, fiz uma poesia sobre o Dia do Professor'. Ou ainda: 'Professor, escrevi uma peça'. Até hoje eu tenho perfeitamente memorizado um texto do Boccage que o poeta pronunciou no aniversário da filha de Dom João VI, em Portugal, e que eu interpretei com apenas 11 anos de idade. Então, ratifico: eu fazia teatro. Não ficava sonhando em fazer teatro, não!
- Do colégio você prosseguiu por quais palcos?
- Bem, do colégio, da interpretação do evento Inconfidência Mineira - que apelidamos de Inconfidência Financeira(risos) -, passei a enfrentar um problema sério. Porque estávamos vivendo no período da ditadura militar... Bom, deixa eu explicar isso melhor: eu vivi na rabeta do regime militar. Os meus amigos, como o Milson Henriques, por exemplo, esses sim, chegaram a ser presos e apanharam. Eu 'peguei' o rescaldo da surra. Quer dizer, meninos de mãos dadas cantando a plenos pulmões o hino nacional antes de entrar na sala de aula. Aquele ufanismo militar exacerbado, não é? Pode ser até que isto tenha sido uma preparação - quem sabe? - para o mundo gay de hoje (risos). Eram meninos de mãozinhas dadas com meninos; e meninas de mãozinhas dadas com meninas...(risos).
Foto: Bernardo Coutinho
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- Já que você fez referência ao 'mundo gay', dos anos 60 - década da sua infância - até o final do século XX, ocorreu uma grande liberalização dos costumes. Foi aberto, inclusive, espaço para o homossexualismo mostrar-se à luz do dia. Qual é sua visão a respeito?
- É verdade, a repressão já foi total, total! E havia também o medo... Eu percebia que nutria outro tipo de desejo e aí experimentava um caudal de sentimentos negativos: medo, pecado, errado. Aliás, eu me sentia o próprio 'errado'. Mas, por outro lado, também sentia uma vontade incontrolável, incontível mesmo. Aquela vontade de olhar o colega e achá-lo bonito, sentir carinho por ele... Então, eu sempre vivi cercado de 'melhor amigo'. E havia a obrigação de se apresentar a namoradinha, o que para mim era um sufoco, um terror. Hoje, não! Hoje, a pessoa é solta, os pais já entendem a situação. Lembro-me que um dia - eu devia ter aí por volta dos 13 anos - minha mãe foi alertada por uma pessoa sobre minha sexualidade e, então, ela me disse: 'Prefiro ter um filho morto a ter um filho homossexual'. Muitos anos depois - quase uns 20 - aconteceu de eu voltar da Europa com o Tião Sá. E nós dois nos pusemos a procurar um apartamento para morar e aí minha mãe resolveu ajudar. Estava saudosa do filho. Minha vida já havia tomado outro rumo, eu já era alguém no cenário cultural... Minha mãe disse assim: 'Olhe, achei uma quitinete para você...' Repliquei: 'Mamãe, isso é muito pequeno. Somos eu e o Tião'. E ela: 'Pois é, vocês 'botam' uma cama de casal'. Indaguei: 'A senhora acha que eu e o Tião temos um caso? Mãe, eu odeio veado!' E minha mãe, perplexa: 'Ai, meu Deus, eu já não entendo mais nada!'(risos). Porque no entendimento materno, ser gay era pertencer a um mundo diferente, ser um sexo à parte. Quando na verdade não há um sexo à parte. Acho que o homossexual tem toda a condição de ter uma mulher na hora em que ele quiser ter filhos e, aliás, é exatamente o que acontece hoje. O que acho desagradável é essa condição de 'enrustido' que prejudica, que pode levar doença à mulher. Enfim, não é uma situação feliz! Daí uma triste conseqüência: a pessoa que não assume sua orientação sexual, engana a parceira, faz sofrer essa outra pessoa.