A leveza dela é visível, logo, mesmo à distância. Anda com graça, faz um bailado ao vento, sorri com tranqüilidade. Gosta de observar e respirar calmamente. O sotaque é uma mistura de vários países dentro de um brasil: uma miscigenação para tornar a conversa ainda mais dinâmica.
Ninom Rouze: exótica por natureza e por convicção. Sangue de todas as cores, mas com devoção ao espírito indígena. Ela, na realidade, tem pele índia, sorriso de uma aldeia guarani, passado e futuro em colares e ensinamentos sagrados.
Ao longo desta entrevista, ela fala sobre a verdade do princípio feminino que cura, que renova, que faz florescer as diversas outras aptidões num ser humano. O sagrado também se encontra com as palavras, à medida que os filhos vão aprendendo sobre o legado dos antepassados.
Ninom se alimenta da expectativa dessa mesma voz sagrada. Ela quer parceria para imprimir esse sagrado de forma real, nos municípios capixabas, nos recantos de uma gente que ela acredita ser capaz de gerar riqueza interior. Conseqüentemente, riquezas materiais que evoquem sustentabilidade, que possam se harmonizar com o meio ambiente.
Ninom filha, mãe, irmã, índia, empreendedora social, enfermeira, professora, pesquisadora, curandeira, escritora, transformadora. Difícil conhecê-la e não se interessar por sua história. Aqui estão alguns trechos de uma rica - e sábia - jornada.
Século: - Podemos começar com uma rápida explicação sobre o seu exótico nome?
Foto: Apoena
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Ninom Rouze: - Sim!.. (risos) Minha mãe, quando ainda era mocinha, na fazenda do meu avô, assistiu a uma das primeiras novelas pelo rádio. Minha mãe é uma mulher de 1925. E a protagonista da novela se chamava Ninom Rouze, uma francesa, e ela ficou enlouquecida com aquele nome e ela disse: 'Quando eu tiver uma filha, vai se chamar Ninom Rouze'. Sou eu!...
- Você lembra o nome da novela?
- Não, não lembro.
- Onde você nasceu?
- Em Governador Valadares, Minas Gerais.
- Como foi descoberto o Espírito Santo?
- Minha mãe foi com a minha avó para Brasília, logo após a fundação da cidade. Eu era bebê, tinha dois aninhos. E lá elas se fixaram. Eu cresci no Distrito Federal também em crescimento. Era recém-fundada a Capital e eu fui crescendo, ali, naquele lugar. Muito lindo, onde cresci porque tinha mata ainda. As brincadeiras todas eram ali. Muito legal. Lá eu estudei e vim, depois, para o Espírito Santo porque, antes de mim, minha mãe viveu aqui, em Guarapari, com o meu pai, com os meus irmãos mais velhos. E ela tinha vontade de mostrar a mim e a minha irmã o lugar, a praia... E nós duas, crescidas no Planalto Central, éramos praticamente 'candangas' e não conhecíamos o mar. Então, quando eu cheguei no Espírito Santo... Em primeiro lugar, eu fui no sul do Espírito Santo, em Guarapari. Fiquei apaixonada. Foi amor à primeira vista. Falei: 'Vou morar nesse lugar!' Daí, depois de um ano e meio eu estava morando aqui e vim parar no Espírito Santo e daqui não saí mais. Saio muito, mas volto sempre. Aqui eu sinto que é um dos meus lares aqui na Terra. O que me conquista são as etnias. A diversidade cultural, a beleza... O Espírito Santo é demais! Esse aconchego que a geografia do lugar lhe dá, a liberdade - é importante, por isso - tanto nas montanhas quanto no mar, na serra... As frutas são deliciosas, a beleza das cores, o mar, as cachoeiras... E mais as pessoas também. Esses grupos tradicionais do Espírito Santo... Também acho até que a conquista começou um pouco por aí. Depois do amor à primeira vista ao lugar, foram os grupos tradicionais.
- De que maneira foi construída a sua ligação com esses grupos?
- Logo que eu cheguei, eu recebi um convite da Fundação Nacional do Índio (Funai) para trabalhar como enfermeira dos índios lá de Aracruz. Eu achei isso interessantíssimo porque batia com o meu anseio. Quando eu saí da cidade grande - Brasília já era uma cidade grande, eu não queria mais exercer a minha função dentro de um contexto institucional porque imagino que aquilo ali fomenta mais a doença do que a própria cura. E a minha intenção era trabalhar com prevenção, profilaxia, promoção de saúde - não com a fomentação da doença! Daí, então, eu tinha um convite para trabalhar numa tribo, a guarani, aqui do Espírito Santo, na aldeia Tequaporã, no município de Aracruz, e fiquei encantada. Me seduziu muito a idéia de poder fazer um trabalho de saúde em campo, que era o que tinha o meu anseio. E tinha a ver com o anseio interno, desde a minha infância, de querer morar no interior. E um dos motivos da minha mudança era que os meus filhos eram muito pequenos - eu não queria que eles crescessem na cidade. Que eles tivessem a liberdade de aprender a nadar no rio, o contato com a terra, com as árvores, com os bichos... Esta foi uma das grandes coisas que me moveram e, para mim, também, uma vida mais tranqüila. Então, poder trabalhar no interior dentro de uma reserva indígena foi algo que me fascinou muito. E aí começou minha história no Espírito Santo.
- Sua história no Espírito Santo se confunde com a sua própria história com os índios?
- Todo o meu trabalho se confunde comigo porque a minha expressão, enquanto estou exercendo a minha profissão, não é muito diferente da minha expressão, das minhas concepções éticas, do meu estilo, da minha vida, do que eu acredito, como empreendedora. A minha função é estar empreendendo as sociedades, um elo 'facilitador' dos movimentos sociais. É a saúde humana. E eu fui para esse lado.
- Como você se auto-define?
- (risos) Ai... Como ela manda perguntas difíceis (diz, dirigindo-se ao fotógrafo, Apoena). (risos) Como eu me auto-defino... (fica visivelmente encabulada).
- (risos).
- Eu me defino como um ser muito nobre, que acredita num mundo de paz verdadeira, num mundo solidário, onde as fronteiras culturais não sejam motivos para a falta de inter-relação entre todos os seres humanos, onde o ambiente interno, de cada um de nós, é respeitado, amado, e o ambiente externo, a Natureza. Eu me defino assim: esse ser que... Isso não é um sonho, não é uma utopia. Vejo que as outras pessoas também são nobres e eu sou um ser nobre, que eu tenho essa origem de nobreza, um ser que já evoluiu bastante. Tenho certeza que estou só numa 'onda' e que essa 'onda' passa. Sacrifícios existem, e eu, com esses meus olhos, verei passar. Luto por um mundo diferente, onde ser é mais importante do que ter.