"As dificuldades são como as montanhas.
Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas"
(Provérbio japonês)
Espírito Santo: o jornal "A Palavra", fundado há sete anos e encarado como um autêntico veículo longe dos muros da Capital. Por isso e por tantas histórias e estórias, o misto de jornalista e escritor abriu sua cortina de passado, presente e - quem sabe - futuro para este Século Diário.
Muitos da geração recém-formada pelas tantas faculdades não o conhecem, mas ele fez o jornalismo apaixonante, mergulhado em ideais, lutando pela liberdade de expressão. Sofreu no percurso desse mesmo ideal, mas se levantou. Com a compreensão de si mesmo, decidiu não deixar as palavras, o processo da informação.
Almyr Carvalho nasceu em Alegre, no dia 8 de março de 1935. Ele se acha "velho paca"... Casou-se quarentão, com Zilma Maria Macedo de Carvalho, supervisora escolar. Dois filhos vieram: Almyr Júnior e Duílio.
O primeiro, segundo Almyr, "bem mais inteligente que o pai", mas ainda sem caminho profissional definido: quase diplomado em Ciências de Computação, abandonou o curso; depois, quase diplomado em Engenharia Elétrica pela UFJF-MG, desistiu. Duílio acabou de se formar em Direito, pela Faculdade de Cachoeiro de Itapemirim.
Foto: arquivo pessoal
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O pai de Almyr era Virgílio Pereira de Carvalho, filho de imigrantes portugueses. A mãe, Lolita Peçanha de Carvalho, de origem rural, pertencia ao ramo pobre da família do ex- presidente Nilo Peçanha - prima em segundo grau. Ambos nascidos no Estado do Rio, migraram para o interior de Espera Feliz-MG, casaram-se e, depois de tentativas fracassadas no comércio, chegaram em Alegre em 1925. Na época, relembra Almyr, "a cidade atingiu seu apogeu e era um dos mais dinâmicos centros do Estado". Todos os nove filhos, 26 netos e 24 bisnetos do casal estão vivos.
Quando Almyr Carvalho iniciou-se no jornalismo, não havia cursos de Comunicação. "Aprendia-se a fazer, fazendo", com a grande escola: a área policial. Formou-se técnico em Contabilidade. Em seguida, em Direito pela Faculdade de Cachoeiro - embora nunca tenha exercido a profissão - e Letras, pela Fafia (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), em Alegre.
Em 1975, foi admitido como funcionário da antiga Esaes (Escola Superior de Agronomia do Estado). A autarquia estadual passou a ser de domínio do governo federal e transformada no atual CCA - Centro de Ciências Agrárias da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).
Aqui, nesta entrevista, ele mesmo relata o que pensa da profissão, espécie de respiração, de sopro divino de todos os dias e de tanto o que ele tem para transmitir a outras gerações. Ele ainda vai falar da revista "Viva Alegre", de 'Estórias & Estorinhas' e 'Outras Estorinhas do Varandão'... Bem, um jornalista e escritor - ao mesmo tempo - tem sempre o que contar. Os leitores tentarão definir esses desafios.
Século: - O que é mesmo o jornalismo? O senhor pode nos definir, com base na sua experiência de mais de 40 anos de estrada?
Almyr Carvalho: - Sou jornalista de um tempo romântico. Em que os 'porraloucas', do interior ou não, queriam ir para o grande centro para mudar o mundo, achando que não estariam subjugados a um sistema que, ontem como hoje, só visava lucro. Ganhava-se pouco, tinha-se que trabalhar simultaneamente em dois ou três empregos para sobreviver, mas era bom. Era um tempo em que se respirava liberdade. Ao contrário do que veio depois com a ditadura militar. Jornalismo para mim, portanto, é tudo: é meu oxigênio, minha razão de viver, um meio de satisfazer a minha necessidade de comunicação (sou excessivamente tímido) e de achar (pelo menos) que posso contribuir, de alguma forma, para um mundo melhor. Idealismo puro, como se vê.
- Como foi construída a decisão pela profissão?
Foto: Divulgação
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- Comecei no jornalismo por acaso. Gostava de ler. E isto foi o bastante para que meu cunhado, Carlos Boechat Machado, político e advogado, numa fase em que me encontrava - assim como o Júnior, meu filho - meio perdido, disse para mim: 'Arranjei um emprego para você. É só aceitar...' Então, entra ele, na minha casa, com o prefeito Ary Oliveira, e diz: 'Este é o redator do jornal oficial "O Alegrense" - o mais antigo do Estado, fundado em 1911 e que merece, hoje, muito pouca atenção dos poderes públicos'. Numa de horror, aceitei. Mas, após a saída do prefeito, disse ao Boechat: 'Cara, você é um filho da... Eu nunca publiquei nada, nunca entrei numa redação de jornal, como é que eu vou ser redator de "O Alegrense?" Boechat, que tinha saída para tudo, me disse: 'Você tem talento. Depois, deixa que eu faço para você...' Foi assim que comecei. Na marra. Resultado: assumi a redação. Aos poucos, ele ia tirando o corpo fora e eu tive que me virar. O que escrevia era uma calamidade. Só que eu sabia disto. Procurei, então, ler jornais e revistas com mais atenção e, valendo-me das orientações do redator que me antecedera - o talentoso Alvimar Rodrigues, que já estavaemo "O Dia" e passou pelos principais jornais do Rio e de São Paulo, aposentando-se como editor da revista "Manchete", depois de mais de 30 anos de atividade - fui tomando gosto e melhorando. Dois anos depois, 1960, estava na "Última Hora", um dos grandes jornais da época, e no "Diário Carioca", já meio decadente mas um marco na história da imprensa brasileira. Em Alegre, participei também da redação de "A Tribuna Estudantil", da Casa do Estudante de Alegre, que moveu campanhas memoráveis em prol da moralização dos costumes.
- Descreva, por favor, a sua longa passagem pelo jornal "O Alegrense" - fundado em 1911.
- Entrei em "O Alegrense", na marra. Era 1957. Depois do acidente que sofri, no Rio, já jornalista profissional, em 1962 e que me valeu um ano de internação e três de recuperação em Brasília, no Sara Kubitschek, fui aposentado por invalidez. Retornar ao jornalismo era uma barra. Os jornais em que eu trabalhava, e muitos outros, haviam fechado. Minha ficha, apesar de nunca ter pertencido a partido político, não era das mais limpas devido aos meus posicionamentos e aos manifestos de solidariedade a Cuba, depois da frustrada invasão da Baía dos Porcos, entre outros. Enfim, começar tudo de novo - afinal, segundo os médicos eu renasci - com dificuldade de locomoção, era complicado. Aí, voltei para Alegre, reassumi, 'sem assinar', "O Alegrense", e pude participar de campanhas memoráveis, como pela encampação da empresa local de energia elétrica pela Escelsa, criação das faculdades Esaes e Fafia. Acho que valeu. Nesse período (1975), o então diretor da Esaes, Paulo Lemos, me chama para trabalhar no futuro CCA-Ufes. Aceitei , exerci o cargo de secretário-geral, cargo no qual me aposentei em 1992.
- Em que ano o senhor decidiu migrar para o Rio de Janeiro? Por quê?
- Em 1957. Porque tudo que Alegre poderia me fornecer àquela época, no jornalismo, eu já tinha adquirido. Havia, também, o sonho de um jovem idealista.