"A libertação do desejo conduz à paz interior"
(Lao-Tsé - 570-490)
Ele é uma mistura de todos os elementos da floresta, incluindo os imaginários. Com uma certa calma, respirando tranqüilamente e pisando no chão como se estivesse em cena, ele foi respondendo. Na verdade, entrevistar Marco Ortiz é saborear de um frutífero bate-papo.
A tarde pedia para se estender: risos, leveza, risos novamente. Mas, uma pitada de reflexão. Aí, então, tivemos os ingredientes para a conversa que foi encenada num espaço novo, um teatro aos fundos e ao alto, no restaurante dele, o Sol da Terra.
A rua é a Barão de Monjardim, Centro de Vitória. De um lado, o cheiro da baía, atlântico, salgado, movimentado por barcos e navios. Do outro, a Gruta da Onça, cheiro de mato, diversidade, silêncio. E as perguntas foram se processando, também com o cheiro natural do restaurante, ambientado como a fuga do normal, como o exótico instalado no mundo urbano.
Embaixo das árvores, um convite às idéias, à poesia. "A paz é assim", disse Ortiz. Não podemos nos esquecer que ele é médico. Por um instante, quase se esquece, já que Marco é sério no que faz, sim. Médico naturalista. Porém, desde quando era ainda estudante - e isto ele faz questão de mencionar na entrevista - começou a quebrar as convenções, questionar os padrões, ser diferente.
E se desamarrou do que quis, com base em outros estudos, outras vivências, outra forma, digamos, "esotérica" de encarar a vida. Trata-se de um ser de consciência planetária, somado às aptidões artísticas, como ator, como artesão, como cúmplice das aptidões que o cercam.
Durante muitos anos, é lembrado na pele do personagem que dá título ao "Auto de Frei Pedro Palácios". Nasceu em Lorena-SP, mas é capixaba por adoção e pela vocação que acredita e faz acreditar - sempre voltado à saúde, mas do ponto de vista da comunhão de áreas afins.
Nesta entrevista, também fala de suas viagens, suas descobertas, sua postura alternativa em se desligar do que é escravizante e cansativo. Sem cansaço algum, vamos a alguns minutos de sossego na floresta do médico Marco Ortiz. Títulos como "doutor" e "senhor", ele abomina. Isto ajudou bastante na hora de conversar.
Século Diário: - Aqui se tem a idéia nítida de tranqüilidade. É um desligamento da vida urbana. Como é que você conseguiu construir esse lugar, assim...?
Foto: Bernardo Coutinho
|
|
|
|
Marcos Ortiz: - Foi uma vivência, durante anos. Estive num encontro de medicinas alternativas que ocorre uma vez por ano em cada região do Brasil. E, desde 1974, 75, eu já venho participando. É lá que existia, existe ainda, essa vivência alternativa que não se tinha conhecimento dentro dos muros das universidades. Então, era lá que se falava de medicina natural, de parto natural, de vida natural. Meu pai vive na montanha, no último sítio do caminho, lá em Parati, bem na estrada do ouro, onde Dom Pedro levava o ouro de Minas Gerais para o mar. Ele, meu pai, veio de lá, de cima da montanha, que são duas horas de burro ou a pé para chegar na casa dele - o carro não chega... (risos) Então, lá, no meio da Mata Atlântica, cheio de cachoeira para todo lado, um lugar maravilhoso... Ele sempre teve essa vida e isso, provavelmente, passou para mim. Ou, quem sabe, eu já venho com essa história, esse enredo já pronto...
- Como é que foi pensado o seu restaurante?
- Foi um trabalho árduo e constante, durante anos de construção.
- Desde quando?
- Bom, a gente começou em 1981, em Vila Velha. Funcionamos quatro anos lá e depois viemos para cá. Tem 19 anos que estamos aqui, nesse local. Houve várias sugestões, principalmente de dois arquitetos, César Romano (Arânio) e Eliana Gomes (Pifa), que trabalham com Feng Shui, e também de outras pessoas. A gente ia absorvendo as idéias e ia colocando em prática. Eu faço a síntese. Depois, faço-a se tornar realidade. Eu vejo a obra antes de ela estar concluída. Isso é muito legal, tem sido muito legal...
- Como é que tem funcionado a mistura de eventos com o dia-a-dia do restaurante? Pois quando se pensa em restaurante se pensa logo em comer...
- (risos) A cultura sempre foi entendida por mim como um fermento que fará com que a sociedade reaja a esse caos que ela foi obrigada a seguir. Então, a cultura sempre esteve perto. Eu faço teatro desde criança, minha mãe era artista e tudo isso me incentivou. O fato de eu ser artista também me obriga a eu ser artista dentro desse espaço. Então, o restaurante sempre teve palco, desde que foi fundado em 1981. Lá em Vila Velha, ele já tinha um palco, todo de bambu, com telhado de palha de coqueiro... E aqui é dessa forma: mais moderno, mas com esse ar rústico.
- Está mais próximo à natureza...
- Sim, o próprio lugar onde está, próximo à Gruta da Onça, ao lado da mata da Gruta da Onça, é uma dádiva porque a gente só tem o sol da manhã. A partir do meio-dia, o sol nasce atrás da mata e o ar é fresco o tempo todo. E é muito legal... Esse contato com a natureza é imprescindível para a pessoa ter saúde!...
- Você pode fazer uma avaliação sobre a atual vida cultural no Espírito Santo?
- Hoje, a vida cultural está abandonada. Tanto o poder municipal, que não faz absolutamente nada, quanto o estadual. As leis de incentivo tiveram um papel importante, mas, na maioria das vezes, foi uma atitude política para a escolha dos projetos. Os editais, há mais de 15 anos, não são feitos pelo governo estadual, muito menos pelo municipal. Eles fazem 'eventos' culturais. A cultura deveria ser uma constante, não um processo esporádico. Infelizmente, estamos sujeitos a isso. Os artistas não têm como sobreviver da arte, têm que ter outras atividades. São raros os artistas que sobrevivem, no Espírito Santo, somente de arte. A maioria tem outras funções. O Estado faz uma cooptação desses artistas para trabalharem em funções administrativas. E, geralmente, não dá certo.