Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Trinta anos de vida monástica na
contradição dos trópicos devastados



Riokan



Ele dirige o mais antigo mosteiro zen da América Latina. É um dos poucos capixabas que passaram das fronteiras do seu Estado, para se transformar em personagem nacional e internacional. Nascido de uma família tradicional capixaba (o pai foi um destacado político, cinco vezes prefeito de Aracruz), ele seguiu, no entanto, caminho diametralmente oposto ao do pai, inclusive aos próprios padrões religiosas do Brasil, ao tomar a vida monástica. Além de ter tido, mais tarde, a suprema ousadia de fundar, em cima de um morro capixaba, no município de Ibiraçu, um mosteiro zen.

Nascido Cristiano Bitti, filho de Maridéia e Primo Bitti, ele é hoje o monge Daiju Bitti, responsável em terras capixabas pelo enorme crescimento nacional do zen budismo no Brasil. Pertence à linha Soto Zen, que tem maior presença no Japão. E lá no Japão ele passou 13 anos aprimorando os seus conhecimentos zen. Quando retornou ao Brasil, fez do mosteiro um dos maiores centros de educação ambiental. Por lá, passam, todos os anos, mais de 15 mil jovens aprendendo a lidar com a natureza.

Talvez a grande façanha desse destacado monge zen, que vive ainda o esplendor dos seus 40 anos, tenha sido o de ter adaptado o zen aos trópicos. Combinou, e muito bem, o zen com meio ambiente, num país de natureza totalmente devastada. Neste campo, deu exemplo, no seu próprio mosteiro, reflorestando todas as suas áreas. O seu trabalho, nesse campo, inclusive, rendeu ao mosteiro um dos mais importantes prêmios na área ambiental, o Prêmio Muriqui.

Na segunda-feira (30), o mosteiro vai estar comemorando os 30 anos de sua existência, com a inauguração de um portal idêntico ao dos mosteiros japoneses. Século Diário conversou com Daiju, tirando muita coisa dele sobre o mosteiro. Contudo, sobre a sua vida, praticamente nada. Ele se recusa, como um bom monge, que vive voltado para o seu interior, a falar de si próprio.

Veja, agora o que esse capixaba, conhecido e respeitado além das fronteiras do Espírito Santo, fala do seu mosteiro.

Século Diário - Como é que nasce a idéia do mosteiro?

Foto: Riokan
  
Daiju - Foi quando começaram a surgir os primeiros monges brasileiros. Trinta anos passados. Mas naquela época era uma dificuldade imensa ir ao Japão e tem que se passar por lá para se tornar monge. Uma passagem para lá custava um bom dinheiro. Surgiu então a necessidade de se criar um centro onde pudesse treinar e formar novos monges. Com esse objetivo inicial, surgiu o Mosteiro Zen do Morro da Vargem.

- E o senhor se encontrava onde antes do surgimento do mosteiro?

- Em São Paulo, o estado onde fica a Superintendência do Zen para a América do Sul. Era ali que os ocidentais tinham acesso ao zen, desde a década de 50. Era um local restrito, pois foi fundado basicamente para atender à colônia japonesa.

- E como é que foi feito isso aqui?

- O mosteiro, em seus primeiros anos, passou por uma fase muito difícil, devido ao impacto, que, de certa forma, causou dentro de uma região conservadora e predominantemente cristã. E com pouca ou nenhuma informação sobre o zen.

- Como era essa área? Por que escolheram esse local?

- Na época, havia alguns critérios a serem obedecidos, que hoje não são tão importantes. Tinha que ter um morro, um lugar alto, um clima ameno, sem ser fim de linha, ou seja, um lugar de passagem. Também tinha que ter nascente e que desse para plantar arroz. E aí é que era o mais difícil, porque morro com nascente, clima ameno e fim de linha, tinha vários, mas uma coisa importantíssima, mas que hoje não conta tanto, era ter terra favorável a plantar arroz, que é uma tradição do budismo.

- Agora, no Brasil, o arroz só dá na baixada?

- Mas foi por isso que nos fixamos no Morro da Vargem. Por causa dessa vargem que tem aqui em cima. Um detalhe raro para um morro. Ainda mais com esse clima úmido.

- E como era o morro? Ele era arborizado?

- Não, o sistema de ocupação aqui de dentro era todo voltado para a pecuária. Então era tudo pasto. Daqui. onde hoje é o mosteiro, você via tudo. Quando uma vaca paria, você tinha o controle total. Não havia uma área arborizada. Eram só três jaqueiras. E a área preservada era numa área íngreme. Só se conservou, pois os antigos donos não tinham como cortar suas árvores. Então, logo de início, mantivemos o sistema deles. No lugar que eles plantavam milho, nós plantamos milho. No lugar que plantavam mandioca, nós plantamos mandioca, e onde tinha o pasto, contínhamos mantendo o gado, só que com a finalidade de leite e não de corte. Mas depois tivemos esse tipo de conflito. Porque a gente não comia a carne e tinha que vender o boi, que aumentava no pasto. Então fomos diminuindo essa área da pecuária. Esse sistema de ocupação foi feito mais ou menos no espírito de compaixão, mas não sabíamos nada de meio ambiente assim. Não tínhamos ainda a visão de que precisava preservar e recuperar as bacias. Naturalmente fomos fazendo isso. Por isso, eu acho que essa questão da educação ambiental está muito voltada para a compaixão. Tudo que vem para o próximo de dentro de você de amor. Essa relação, com o seu entorno, tornou, com o tempo, indicou ao mosteiro a necessidade de ocupar a área ambiental. Mas dentro desse sentimento de compaixão, que disse há pouco.