Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Por um jornalismo crítico, independente e democrático





Fabíola Zardini


"... uma boa reportagem é também um ato de amor, de ilusão, de crença no ser humano"
(José Hamilton Ribeiro)


Ele vem de uma geração de apaixonados. Apaixonados pela liberdade, pelas possibilidades de mudança, pela idéia de um país sem censura, pela união dos trabalhadores. Mas, acima de tudo, de uma geração de repórteres que lutaram pelo respeito ao cidadão. Essas características são, de certa forma, comuns àqueles que se tornaram jornalistas no período da ditadura.

Tinoco dos Anjos já trabalhou em diversos veículos de Comunicação pelo Estado e hoje dirige a TV Educativa. E sua atual batalha é justamente levar qualidade à população através de uma programação educativa e cultural na era da comercialização e da banalização da informação.

Não há dúvidas que ao ligar a televisão os programas oferecidos àqueles que não têm a possibilidade de pagar uma assinatura de canais extras é de baixa qualidade - e, por que não dizer claramente, de pura baixaria.

À frente da TV Educativa do Espírito Santo, Tinoco trabalha para que ao menos o telespectador da Grande Vitória tenha uma outra alternativa além de tanta violência e apelação na TV.

Porém, o que preocupa Tinoco não é somente a programação ruim que a televisão brasileira oferece, mas todas as informações que chegam à população de forma destorcida, guiadas pelos departamentos comerciais das grandes empresas.

Isenção jornalística, programação de TV, união e mobilização da classe são alguns dos assuntos tratados com Tinoco e que o leitor confere na entrevista deste fim-de-semana.

Século Diário: - Você é jornalista e tem uma grande experiência profissional na área, como diretor de TV e dirigente da classe dos jornalistas aqui no Estado. Baseado nessa experiência, como você vê a imprensa capixaba hoje?

  Foto: Apoena
  
- Tinoco: Eu sou jornalista desde meados de 68. Eu comecei no jornal "O Diário", que funcionava na Rua Sete e que hoje não existe mais. Depois eu fui para "A Tribuna" e fiquei lá um curto período, e depois para "A Gazeta", em 74. Lá eu fiquei 20 anos. Nesse tempo, eu também fui correspondente de "O Globo". Em 95, com a vitória do PT na eleição para o governo do Estado, o falecido Otaviano de Carvalho, que era secretário de Educação e meu amigo, me convidou para assumir a direção da RTV (uma autarquia do governo do Estado que administra a TVE e a Rádio Espírito Santo) e eu nunca tinha tido uma experiência em órgão público. Com exceção de um tempo em que eu fui assessor da bancada de vereadores do PT na Câmara de Vitória, eu nunca tinha tido uma experiência maior em administração pública. Então eu achei interessante ter essa experiência. Eu fiquei à frente da RTV no governo do Vítor (Buaiz) e meu plano era voltar para "A Gazeta". Quando mudou o governo e entrou o José Ignácio (Ferreira), o secretário me convidou a ficar e como eu ainda tinha planos para executar, resolvi continuar. Aí eu me desvinculei de "A Gazeta" e eu estou agora no terceiro governo. Eu deixei de ser presidente da autarquia e passei a ser diretor de TV. De RTV eu já estou fazendo dez anos de experiência e agora eu estou com esse acúmulo profissional, na área privada e na área pública. Fora da mídia privada eu sou um leitor bastante assíduo dos jornais locais e do rádio, e aí, falando das mudanças que a imprensa capixaba teve nesse período do final dos anos 60 para cá, eu acho que foram significativas, principalmente no campo técnico. Eu acho que jornalismo capixaba sempre teve uma qualidade boa, uma qualidade acima da média nacional. O exemplo disso é que vários jornalistas capixabas saíram daqui e tiveram uma ocupação de destaque em outros Estados. Em termos de qualidade, o jornalismo daqui se iguala aos grandes centros, eu não vejo diferença. Agora, a gente pode aprofundar um pouco essa análise e observar que hoje os departamentos comerciais passaram a exercer uma força muito grande dentro do jornalismo. Com essa formação de redes, especialmente - ter um jornal, uma emissora de televisão e rádios - a influência do departamento comercial ficou muito mais agressiva. Então às vezes a gente vê coberturas em que se detecta claramente que é comercial e não jornalística, porque a rede está associada ao evento. Então isso gera uma influência na cobertura, já que aquele evento tem que ser um sucesso, pois o interesse comercial está totalmente integrado com a cobertura. Hoje, as pessoas que estão envolvidas com grandes eventos no Espírito Santo, a primeira coisa que eles procuram é uma parceria com uma rede de comunicação. A Rede Gazeta em primeiro lugar, por causa da influência da TV Globo, e depois a Rede Tribuna. Feita a parceria, a tendência do evento ser um sucesso é muito grande porque tem uma cobertura intensa e isso influencia o público. Eu vejo isso com preocupação. Eu posso citar como exemplo recente o caso do Vital. É um evento polêmico que já está consolidado no calendário cultural da cidade, mas causa polêmica principalmente por causa da violência, que este ano se destacou por isso. É um evento que faz parte da Rede Gazeta. Obrigatoriamente a cobertura vai ser sempre um sucesso. Por mais problemas que isso possa causar, a repercussão positiva através desses veículos vai ser sempre maior do que os problemas que ele traz. Eu diria que essa influência do setor comercial sobre os veículos de comunicação é um dado que quando eu estava na mídia privada não existia com tanta força. Eu acho que a coisa foi se acirrando de tal maneira que isso influencia na isenção da notícia.

- De acordo com o seu acompanhamento, de quanto tempo pra cá essa influência do setor comercial sobre a informação vem acontecendo?

- Eu estou fora da iniciativa privada desde 95, quando eu vim para o governo. Na minha época isso acontecia em menor quantidade, não existia tanta pressão. Eu fui editor do Caderno Dois durante um bom tempo em que eu estive em "A Gazeta" e eu lembro que a gente tinha uma liberdade muito grande para dar espaço para todas as áreas artísticas locais. Não tinha restrição de nenhum tipo. Principalmente na área de teatro, que teve uma época que eu fui comentarista de teatro e dávamos uma cobertura ampla. E isso tudo foi reduzindo porque os jornais ficam, às vezes, com dificuldade de espaço e tem essa influência comercial grande. Eu acho que essa mudança deve ser pensada e discutida porque o importante é que o leitor tenha a possibilidade de ver todos os lados de uma questão, ter a informação o mais amplamente possível. Ele não pode ter uma informação dirigida. Ele compra o jornal, ele liga a televisão, liga o rádio e precisa ter a informação o mais ampla possível. Então é preciso discutir essa influência excessiva dos departamentos comerciais nas redes de comunicação porque isso gera prejuízo ao consumidor da informação.