Vanguarda florestal




Geraldo Hasse


A campanha contra a monocultura do eucalipto está fazendo uma confusão que precisa ser esclarecida. Antes de mais nada não se pode confundir a árvore com a floresta. O eucalipto não é um mal em si. O pinus também não. Muito menos o cafeeiro ou a cana-de-açúcar ou a soja. Toda essas plantas têm qualidades extraordinárias. Aliás, nenhum vegetal pode ser objeto de condenação ou declarado "inimigo" da humanidade, da fauna ou da flora. O que se pode questionar é o plantio abusivo de uma única espécie vegetal. Sem esquecer que a Natureza tem mecanismos de defesa contra as monoculturas.

A grande vantagem do eucalipto é o crescimento rápido. Essa árvore também vale bastante por sua versatilidade: é usável como escora, lenha, poste, dormente, matéria-prima para celulose ou para móveis. Isso sem falar de outras qualidades. Por exemplo, suas flores atraem as abelhas. Suas folhas contêm uma substância medicinal, o eucaliptol. E todo mundo sabe que o eucalipto também dá um bom carvão.

Se plantado sozinho, o eucalipto transforma-se numa bela árvore, com a copa tendendo para a forma redonda. Dá portanto uma boa sombra. Mas sua maior qualidade é a capacidade de produzir um volume de madeira que não pode ser igualado por uma mata nativa que ocupe a mesma área. Em outras palavras, se alguém quiser preservar as florestas naturais, o lógico é que plante eucalipto. No Brasil, aliás, essa árvore ocupa mais de três milhões de hectares. No Espírito Santo, cerca de 200 mil hectares, o que representa menos de 5% do território estadual. O café, com 500 mil hectares, ocupa pouco mais de 11%, mas ninguém condena a cafeicultura. Pelo contrário, os cafeicultores são até invejados. E felizes são aqueles que têm um cantinho de terra para plantar um eucaliptal. A experiência mostra que as árvores madeireiras como o eucalipto funcionam como uma espécie de poupança. E a ociosidade de terras no Brasil indica que não haveria problema em intensificar o plantio de florestas homogêneas. É claro que não estou propondo erradicar matas nativas para plantar eucalipto, pinus ou o que quer que seja. A utilidade do eucalipto ou do pinus não significa que se deva recair na monocultura.

Na realidade, por mais antiga que seja a campanha contra as árvores exóticas - o eucalipto é alvo de ataques desde os anos 50, quando ele começou a ser usado na indústria de celulose e papel --, não há parâmetros indicando qual o nível de saturação por área ou região. Em algumas regiões como a confluência ES-BA-MG tem-se a impressão de que a coisa passou dos limites, mas faltam dados. Na realidade, 30/40 anos é um tempo curto para conclusões sobre silvicultura, uma atividade de longuíssimo prazo. Os silvicultores sabem que nenhuma área pode ser totalmente ocupada por uma única espécie. É preciso deixar espaço para a vegetação natural. No Espírito Santo a Aracruz teria chegado a 65% como o máximo ideal, mas quem mediu para conferir se é isso mesmo? De qualquer forma, a palavra final não pode ser dada por uma empresa isolada, ainda que ela seja a maior referência técnica sobre o assunto. Como em outros setores, é desejável que se estabeleça um consenso baseado em critérios ambientais, sociais e econômicos.

Se a iniciativa privada não demontrar bom senso na diversificação do plantio de espécies vegetais econômicas, caberá às autoridades governamentais tomar as providências para manter o equilíbrio ambiental. Mas é preciso criar parâmetros técnicos confiáveis. Num país que há cinco séculos faz da devastação florestal uma prática regular, o plantio de árvores deve ser incentivado, não punido.

A exploração da madeira é desde 1500 um dos denominadores comuns do desenvolvimento econômico brasileiro. O Espírito Santo tem grande experiência nesse assunto, chegando a exportar mão-de-obra para a Amazônia, onde o termo "capixaba" serve para qualificar pessoas com habilidade na derrubada de florestas. Mas enquanto na Amazônia prossegue a devastação de um patrimônio florestal aparentemente inesgotável, no Sudeste e no Sul já se pratica há algumas décadas a reposição dos estoques de madeira mediante o plantio de espécies vegetais de crescimento rápido.

E a verdade é que o reflorestamento não tem sido suficiente para suprir as necessidades nacionais. A manutenção do dinamismo da indústria brasileira de base florestal exige o plantio anual de 600 mil hectares, segundo a Sociedade Brasileira de Silvicultura. Nos últimos cinco anos, os plantios não ultrapassaram 200 mil hectares/ano, 90% realizados por grandes empresas temerosas da própria vulnerabilidade. São representantes dessas empresas que falam de um certo "apagão florestal". Pode haver algum exagero aí, mas um dado real é que os preços da madeira estão subindo muito acima da inflação. Plantios mais intensos agora podem estabilizar os preços lá adiante. No momento em que a indústria de móveis de Santa Catarina já importa pinho da Argentina, tornou-se urgente discutir a sustentabilidade dos negócios dependentes da silvicultura. A cadeia do agronegócio florestal ocupa um milhão de pessoas diretamente, gera 8% da receita cambial e representa 3,5% do PIB brasileiro. Em alguns estados como o Espírito Santo, a madeira pesa relativamente mais do que no país.

O Brasil possui espaço territorial, clima e tecnologia para ser líder mundial em silvicultura.

O sucesso entre nós de árvores exóticas como o eucalipto e o pinheiro americano prova o potencial brasileiro para o aumento das exportações de derivados da madeira como celulose, papel, móveis e materiais para a construção civil. Falta estabelecer políticas públicas capazes de viabilizar o ordenamento da cadeia produtiva que começa nas propriedades rurais e termina nos portos. O Espírito Santo tem tudo para ser a vanguarda desse processo, mas para chegar lá precisa aprender a distinguir a árvore da floresta e esta da monocultura.

Buscapé

Se quiser criar uma política pública para o setor florestal, o Espírito Santo tem excelentes fontes de referências e altos recursos humanos. Eis alguns nomes: Renato Moraes de Jesus, engenheiro florestal que há 26 anos cuida da reserva florestal de Linhares; Arlindo Vilaschi, economista que lecionou na Finlândia, a maior potência florestal do planeta; Edgar Campinhos Jr., cientista que liderou a clonagem do eucalipto brasileiro; Camilo Cola, empresário que há mais de 30 anos planta pinheiros na montanha capixaba; José Anthero Bragatto, presidente da Associação Brasileira de Preservadores de Madeira.


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