Por falar nisso, e o Natal?





Tavares Dias


Não importa que dentre cada cinco habitantes do mundo apenas um seja cristão. Tampouco é relevante, para efeito deste papo aqui, que as seitas cristãs mais sérias consigam envolver tão poucas pessoas, em relação ao conjunto da Humanidade, apesar de terem o melhor garoto propaganda do mundo, Jesus, a mais conhecida logomarca, a cruz, o melhor livro de poesias, o Eclesiastes, e a mais linda crônica de todos os tempos, o Sermão da Montanha.

Jesus não criou religião alguma, a despeito do que tantos insistem em afirmar. Jesus veio ensinar um bom jeito de viver e de deixar viver. Veio substituir o olho por olho e dente por dente pelo dar a outra face. Veio espalhar o sentimento de fraternidade. Em nenhum momento, ensinou que seus pretensos seguidores devessem dividir-se em facções, feito torcedores de futebol.

Religiões são criadas por pessoas, e pessoas têm defeitos. Logo, há defeitos em todas as religiões, cada uma com sua capacidade (e, às vezes, conveniência), de interpretar os ensinamentos do Mestre. Mas também há, em religiões, pessoas de bem, e isso é o que conta, no final das contas.

Ninguém até hoje conseguiu ser reverenciado em todas as religiões do mundo, seja como profeta, como iluminado, ou avatar, ou Mestre. Só Jesus. Ainda que não se conheça uma única prova concreta de sua existência.

Enquanto batuco no teclado essas pequenas reflexões, penso em alguns queridos amigos que são ateus, que são agnósticos, que seguem religiões não-cristãs. Admiro sua capacidade de fazer o bem sem olhar a quem e reverencio o Amor Universal, criador da liga que nos une. E me lembro das palavras de um quantum dessa mesma Luz, que, em sua passagem pela Terra, atendia pelo nome de Mahatma Gandhi: "Por que vou amar menos o meu irmão só porque ele chama Deus por outro nome e lhe presta culto de maneira diferente da minha?"

Estou aprendendo a trabalhar para estabelecer a paz dentro de mim. Por isso, "entrei pra escola do perdão", para citar um memorável verso de Vinicius de Moraes. Nessa escola, que acesso através do meu coração, estou aprendendo a perdoar e a ser perdoado também.

E, neste mês de dezembro, quando sinto mais forte a energia do Amor de Jesus e procuro me recolher para longe do ruído dos festejos e das libações, enxergo com mais clareza as minhas limitações e o quanto me falta caminhar para ser uma pessoa mais benfazeja para mim mesmo, principalmente, e para os que me cercam. Mas estou lutando, me perdoando por todos os meus erros e buscando perdoar a quem já me ofendeu e me negou a mão. Também já ofendi e já neguei a mão a muitos. E às vezes ainda o faço, em minha condição de ser ainda em construção.

Para mim, hoje, esta é a única revolução possível, o caminho para a paz no mundo. O que não significa, é claro, abrir mão do meu dever de indignar-me com as injustiças sociais nem com a brutalidade impiedosa do capitalismo.

Jesus, Oxalá, Tupã, Krishna, Nhanderu, Zâmbi, Iavé, quantos mais são o mesmo Um. Quanta sonoridade, quanta fraternidade, quanta eternidade, quanto Amor.

Feliz Natal. Feliz perdão.