Um (des)conto de Natal





Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA

Dora anda sozinha pelas lojas lotadas, ouvindo músicas suaves falando de amor e confraternização, tropeçando nas pessoas sorridentes sobrecarregadas de embrulhos e sacolas coloridas. É dando que se recebe! parece gritar o mundo. Dora escuta fiapos de conversa - Só falta um presente pra tia Lola… Já comprei tudo que precisava… Não sei o que vou dar pro Lauro…

Dora não tem a quem presentear, ou quem a presenteie. Tanta coisa bonita, tantas promoções tentadoras, Dora ê a única de mão vazias porque não tem um amor, um amigo ou amiga, nem mesmo um parente próximo ou distante. Até festa no trabalho, com direito a amigo secreto, já seria uma forma de se envolver no clima natalino…

Dora trabalha numa empresa de indianos, onde falar no natal é proibido. Todo dezembro Dora promete a si mesma que no ano seguinte muda de emprego, vai trabalhar em algum lugar onde todas as escrivanínhas se enfeitem com árvores de natal, guirlandas coloridas e gordos papai-noels. Onde haja fartas festas e pródigos presentes.

Mas chega janeiro e a vida volta ao normal, Dora esquece. Talvez nos doze meses â frente um milagre aconteça - um amor ou uma amiga, outra alma também solitária que se mude para o mesmo prédio ou o mesmo emprego.

Dora compra um perfume, manda embrulhar para presente. Vai pôr na pequena árvore que armou na sala, um presente para si mesma. Compra também uma linda gravata e manda embrulhar para presente. Não vai usar, claro, mas estava com um desconto tentador. Quem sabe lhe traz sorte, e no ano seguinte…

Já é tarde quando Dora chega em casa, e o vigia dorme na portaria. Ele trabalha ali há vinte anos e Dora nunca lhe dirigiu a palavra, mas é natal e não custa lhe desejar boas festas. Ele agradece risonho e diz que vai ter um natal feliz sim, porque é o dia do casamento da filha. Dora lhe dá a gravata de presente.