Vitória (ES), edição de 28 de dezembro de 2004


Poluição do ar na GV aumenta riscos
de doenças respiratórias em idosos



Flávia Bernardes



Poluentes como monóxido de carbono, ozônio, além de materiais particulados produzidos por minérios de ferro, podem aumentar o risco de morte entre idosos com mais de 60 anos na Grande Vitória (GV). Em São Paulo, o fato foi comprovado pela Universidade Estadual de São Paulo (USP) que mostrou que o aumento de 10 microgramas por metro cúbico do poluente foi responsável por 1,1% de aumento das mortes de idosos registrados na capital.

Entre os três contaminantes avaliados, o material particulado apareceu como o principal vilão. Na Grande Vitória os materiais particulados são os principais poluentes lançados. Ao todo são lançados 2.500 quilogramas por hora de pó de minério, e 4.600 quilogramas/hora de óxido de enxofre, entre outros poluentes. Isso, multiplicado por 24 horas, são 60 mil quilos dia, vezes 30 dias são praticamente 1.800.000 quilos por mês de material particulado numa área de influencia de 100 milhões de metros quadrados.

São responsáveis pela poluição as Companhias Vale do Rio Doce (CVRD) e Siderúrgica de Tubarão (CST) e Belgo-Mineira, principalmente. Os automóveis também poluem o ar, em menor escala.

Diante deste fato, os particulados que representam ao todo 11 milhões de quilogramas/mês intoxicam até mesmo os capixabas, moradores da Grande Vitória, que estiverem deitado na cama o dia inteiro. Esta pessoa respira sem fazer nada 0,6 gramas de ácido sulfúrico e óxidos metálicos, e conforme a condição atmosférica (umidade, ventos e temperatura) essa concentração inalada pode aumentar até 30 vezes, o que pode gerar o aumento de mortes principalmente em idosos, como apontou o estudo em São Paulo, ou mesmo o aumento de internações entre menores de 15 anos.

No Estado, as crianças estão entre as principais vítimas da poluição, mas gestantes expostas a taxas maiores de poluição do ar durante o primeiro trimestre de gravidez acabam gerando bebês com peso menor que o normal, já que a variação de peso é associada entre outras, à baixa oxigenação sanguínea provocada pelos poluentes nos primeiros meses de gestação.

Visando um trabalho de prevenção as doenças respiratórias e um maior conhecimento na área de doenças geradas pela poluição, mesmo que tardio, um Programa de Vigilância de Qualidade de Ar deverá estudar as doenças respiratórias relacionadas com a atmosfera no município de Vitória. Mesmo que tardio, o programa já começou a estudar problemas enfrentados há anos por milhares de capixabas e praticamente ignorado pelo Governo do Estado, avaliando o aumento de atendimentos em ambulatórios do município de Vitória no período em que a poluição se torna mais densa no Estado.

O programa é de âmbito nacional, como um programa piloto que será realizado simultaneamente em Araucária, no Paraná, Canoas no Rio Grande do Sul, no município de São Paulo, Vitória, no Espírito Santo e, ainda, em Camaçari, na Bahia.

Segundo Maria de Fátima de Bertollo Dettone, engenheira civil e sanitarista é responsável pela programa na Secretaria de Saúde de Vitória junto a equipe técnica composta por médicos e técnicos da Secretaria de Meio Ambiente, serão estudados os casos em crianças de 0 a 6 anos e em idosos com mais de 65 anos, consideradas as faixas mais atingidas pela poluição no Estado.

Com isso será possível definir o grau de comprometimento da saúde do capixaba devido a poluição no Estado. "Estudaremos até que ponto a poluição pode intervir na saúde humana, mas para isso passaremos ainda por um processo de aprendizagem, de integração com os técnicos de Meio Ambiente e de pesquisa sobre os dados históricos, para ter acesso as pesquisas que já foram feitas nesta área aqui no Estado", ressaltou.

Pela Secretaria de Saúde, as doenças respiratórias não são registradas nas notificações obrigatórias de doenças como a febre amarela por exemplo. Apenas a tuberculose está entre as doenças respiratórias que devem ser obrigatoriamente registradas. "O Estado possui um boletim de produtividade que é entregue ao Sistema Único de Saúde (SUS) e que deverá apontar dados como o número de nebulizações no mês além dos casos de sinusite e bronquite".

Mesmo assim, o diagnóstico ainda é considerado um fator muito pequeno dentro do problema já existente. Segundo ambientalistas, é necessário mais rigor na fiscalização das empresas causadoras desta poluição para que os índices de poluição fiquem abaixo do limite aceitável e ainda para que as condicionantes impostas a estas, sejam cumpridas de fato para compensar a poluição causada.

Muitas das doenças respiratórias registradas em capixabas são causadas pela poluição gerada pelas grandes empresas. Estas geram além das partículas com metal pesado, o dióxido de enxofre, monóxido de carbono, entre outros inúmeros gases, podem causar o infarto em doente coronariano, além de espasmos nos brônquios, alteração a pressão sanguínea e circulação periferia, e a alteração da capacidade de audição.