Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Povo quilombola, verás que os
filhos teus não fogem à luta!





Jeanne Bilich


Domingos Firmino dos Santos - o Xapoca - é o entrevistado desta semana de Século Diário. Ele é um negro de boa estatura e corpulento como eram os seus antepassados, angolanos que fizeram um quilombo na região cujo território é hoje objeto de discórdia de negros como Xapoca com a Aracruz Celulose. A entidade que ele dirige faz parte de um conjunto de entidades que leva à luta dos negros da região pela retomada do antigo território do quilombo do Negro Rugério. Território este que está encravado entre os municípios de Conceição da Barra e São Mateus e que antes de ser ocupado pelos eucaliptais da Aracruz serviu aos escravos e gerações posteriores. Quando da evacuação da área para dar lugar à Aracruz, havia nela mais de 50 mil negros, sendo que hoje eles não passam de seis mil, assim mesmo dentro de nesgas de terra, como se fossem prisioneiros dos eucaliptais. Há quase 30 anos, segundo Xapoca, os negros vem procurando se organizar para ter suas terras de volta. Ele era menino quando um tenente do Exército, devidamente fardado, ao lado de um negro que atendia pelo nome de Pelé, foram à propriedade do pai para tomar parte dela. Pelé fazia a figura do negro amigo que aconselhava a saída para evitar uma prisão futura. Essa cena continuou pela vida afora na cabeça do Xapoca. E ele disse consigo mesmo que ia se preparar para levar a luta dos negros adiante. Estudou, encaminhou-se na política, é fundador do PT na região de Conceição da Barra e está convencido de que os negros unidos vão recuperar em breve o seu território. "Sonho em ver a negrada saindo das periferias das cidades, deixando os seus subempregos para voltar para a terra que é dela. Saíram 50 mil, não sei quantos somos hoje. Mas vai ser o dia mais feliz de minha vida quando estivermos todos juntos como verdadeiros e autênticos quilombolas na terra em que os nossos antepassados viveram em permanente luta com a elite branca da região para preservá-la para nós. Será também o dia de festejar líderes revolucionários daquela época como Benedito Meia Légua e o fundador do quilombo, Negro Rogério".


Rogério: - O que significou a perda do território quilombola para a Aracruz Celulose colocar seus eucaliptais no lugar da agricultura familiar de vocês? Afinal, calcula-se que há quase cerca de 150 mil hectares em poder da empresa na região e que pertenciam a vocês.

Foto: Riokan
  
Xapoca: - Imagine o que significou essa perda de nosso território. Nós negros tínhamos uma realidade própria. Uma maneira própria de viver e cultivar a terra. As propriedades eram pequenas e familiares. Saí porque nós éramos muitos negros. Nós - quando falo nós, falo de várias gerações - nos acostumamos a viver dos recursos naturais: a terra, como as matas, os peixes, os rios, os produtos naturais... Nós sempre comíamos, nos alimentávamos desses recursos, né? O que aconteceu quando pegaram essas terras?... Eucalipto em cima. Negro fora de sua terra. E os poucos que ficaram sobrevivendo, se é que isso é sobrevivência, do lixo do eucalipto, que a Aracruz chama de resíduo. Ou seja, as partes do eucalipto que não servem para a industrialização. Mas servem para o negro destruir a sua saúde na boca de um forno. Isto porque é impossível existir uma agricultura cercada de eucaliptos.

- Era uma região em que a negritude tinha como sobrevivência a farinha da mandioca. Todo mundo fazia farinha, Todo mundo tinha a sua casa de farinha. A hora em que o negro construía a sua casa, construía também a sua casa de farinha. Prática que vem do tempo do quilombo do Negro Rugério. Os escravos tinham suas farinheiras individuais no quilombo e assim também foi com as outras gerações. Quem diz isto é o historiador Maciel De Aguiar.

Foto: Riokan
  
- Na maior parte das comunidades em que ainda sobrevive uma ou outra casa de farinha ainda tem pelas pequenas propriedades, mesmo confinadas no eucalipto. Está na tradição do nosso povo. Precisamos preservar o nosso beiju, por exemplo. Aliás, nós negros fazemos pratos deliciosos da mandioca. Recentemente tivemos até aqui na região um festival de beiju. Vá no mercado de São Mateus que você vai encontrar nossa farta culinária. É uma tradição nossa, como dizem Maciel de Aguiar e nossos pais. Fizemos, desde o tempo do Quilombo do Negro Rugério, a melhor farinha da região. Imaginem nossa gente que fez essa extensa culinária da mandioca, vivendo sem ela e como autêntica sub-raça pendurada nas favelas de Vitória e vendo uma multinacional botando eucalipto onde tinha farinha em suas terras.

- Como está a organização dos quilombolas para recuperar o território em poder da Aracruz?

- Temos entidades em São Mateus e Conceição da Barra. A minha é dos quilombolas de Conceição da Barra. Mas todas elas se dispõem a negociar com a Aracruz para ter acesso ao resíduo do eucalipto. Numa reunião que teve recentemente com a Aracruz para negociar o resíduo, onde estavam negociando a questão do resíduo, eles falaram que vão criar uma outra associação para fazer o convênio com o resíduo, que ele não aceitava fazer um convênio com a Associação das Comunidades Rurais dos Quilombolas, que sou o presidente. Eles não nos reconhecem quilombolas. Imaginem a petulância da empresa! Na hora de negociar, ela escolher com quem negociar! Têm medo da história dos quilombolas. Sabem que a nossa existência ameaça de fato as terras que eles encheram aqui de eucaliptos. Que estão de fato em território quilombola. Querem negar que a nossa região foi um dos maiores centros de comércio de negros no Brasil. Que foi nessa região de São Mateus e Conceição da Barra, o Vale do Cricaré. Como dizem historiadores como Maciel de Aguiar e os arquivos nacionais, foi aqui uma das regiões em que mais se vendeu escravo. Então, nós não precisamos provar mais nada. Igualmente, o decreto Lula.
Foto: Riokan
  
Acho que quem tem que provar quem são os quilombolas somos nós mesmos. O nosso processo histórico, a nossa tradição. Outra coisa que acho que essa tomada de nossa terra tenha servido para acabar com a nossa religião, que foi a Cabula. Acabaram com parte da nossa culinária, da nossa cultura, da nossa agricultura. Praticamente das nossas tradições culturais sobrou apenas um Ticumbi, de cinco que existiam na região. E um Jongo aqui e outro lá e ainda alguns reis. A principal manifestação que veio ainda dos escravos, que foi a Marujada, não resistiu ao eucalipto. O que sobrou foi por conta de um contexto cultural, que não deixou morrer de todo. Imaginem que cultura invejável era essa nossa da raiz do quilombo do Negro Rugério. Foram todas, praticamente, destruídas por esses eucaliptos.