" A imaginação governa o mundo"
Napoleão (1769 -1821)
Trabalhar a imagem transformando-a em arte. Que se concretiza em escultura e tela. Pinturas e telas de cinema. As ferramentas? Imaginação, criatividade e talento. Neste caso, multiplicidade de talentos! Assim é Sebastião Pereira da Fonseca, ou simplesmente Tião Fonseca. Mestre de artes várias, nascido no município da Serra, às vésperas dos anos 50. "Batizado por São Benedito, na Igreja da Conceição", revela com orgulho. Os olhos azuis contrastam com a pele morena, crestada pelo sol. O rosto forte, como se esculpido a cinzel, apresenta como moldura natural bastos cabelos e barba revolta. O azul dos olhos? Legado do caldeirão de etnias que o gerou: negros, portugueses e alemães. 'Prefiro ser considerado negro mesmo!' E sublinha a afirmação com sonora gargalhada. As mãos grandes, sempre irrequietas, dão vida a esculturas reproduzindo espécimes que povoam a fauna e flora - inclusive, delicado beija-flor, gentilmente presenteado à repórter - entalhados na madeira. Ou feitos com bronze, aço, cimento, resina. Ou, ainda, confeccionados com material que a sua criatividade põe-se a ditar: a inovação última aponta para a pita, vegetal nativo e comum em solo capixaba. Cuja peculiaridade é conferir extraordinária leveza, alvura e graça à peça esculpida. Uma linda embarcação branca - cor natural da polpa da planta - prova a viabilidade técnica da matéria-prima recém-descoberta, alvo das pesquisas atuais do artista. Dos muitos filmes e documentários já realizados, destaca "Se essa terra fosse minha", rodado integralmente na Amazônia.
Conversar com Tião Fonseca é como entrevistar três pessoas. A um só tempo! Três vidas - escultor, pintor e cineasta - que se revelam independentes entre si. Abstraindo-se uma quarta: a do 'aventureiro'. Cuja missão consiste em alinhavar e ir tecendo a tapeçaria da vida dos demais. "Vivem em nós, inúmeros", asseverou Fernando Pessoa. Quem duvida? O cronista Tavares Dias, amigo antigo e admirador - colega, inclusive, dos tempos de internato na Escola Técnica Federal de Vitória - define: "Tião Fonseca é um dos últimos românticos do Brasil. Uma pessoa com trânsito e grande conceito no cinema nacional, um dos artistas de maior talento do Espírito Santo. Seus trabalhos apresentam nível para freqüentar espaços de arte em qualquer lugar do mundo".
Século: - Fale, por favor, um pouco da sua infância e adolescência.
Foto: Gustavo Louzada
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Tião Fonseca: - Bem, saí da Serra com dois anos de idade e fui morar em Guarapari. Aos doze, vim para Vitória para estudar na Escola Técnica Federal. Naquele momento, o Brasil passava por convulsões políticas a que se seguiu um golpe militar. O clima ficou complicado por aqui e aí decidi sair andando... Fui conhecer o Brasil. Tinha 16 anos e, um ano depois, aos 17, cruzei o Pantanal do Mato Grosso. A pé!
- Era o espírito aventureiro manifestando-se, Tião?
- Acho que, naquela época, o que havia mesmo era uma vontade enorme de ser feliz e de viver no lugar certo, não é? Mas não havia esse clima para nós. A Escola Técnica era uma referência de conscientização política. O Grêmio Rui Barbosa daquela época era muito mais politicamente conscientizado do que o próprio Diretório Acadêmico. Assim, para muitos alunos da Escola Técnica, inclusive eu, a situação ficou difícil... Era difícil permanecer aqui na Escola Técnica, bem como em qualquer outra no Brasil.
- E a partir daí... 'escola nunca mais'?
- A partir daí, passei a procurar uma maneira de sobreviver, buscando em mim mesmo essas condições. E o que eu tinha era a arte. Mas, naquele momento, arte não valia nada! Exceção feita, naturalmente, aos artistas que já tinham renome. Assim, saí andando em direção à Bolívia.
- Por que a Bolívia? Che Guevara já andava por lá?
- Porque, naquela época, todo jovem sonhava em conhecer os Andes. Queríamos mesmo era fazer a revolução. E a Bolívia era a 'bola da vez'. Quanto ao Guevara, bem... ele realmente já estava se movimentando por lá. Quando cheguei a Cuiabá, o único emprego que consegui foi no aeroporto da cidade que, aliás, tinha uma única pista de barro. E a minha atividade consistia em resgatar aviões que caíam no pantanal. Fiquei nessa atividade até os anos 70. Bem verdade que continuei desenhando e escrevendo, mas nada que frutificasse. De lá fui para Brasília, onde conheci o cinema. Esse encontro se deu em um filme, totalmente subversivo, que estava sendo rodado lá... com o relacionamento estabelecido com os cineastas, parti para o Rio de Janeiro e, assim, abre-se uma nova etapa em minha vida.
- Foi nessa época que você estabeleceu contato com Glauber Rocha e Mário Carneiro?
- No Rio, realmente conheci todo o pessoal do 'cinema novo'. O 'cinema novo' nesse momento já era um cinema feito na base do improviso mesmo, ou seja, estava valendo aquela idéia de 'uma câmera na mão e uma idéia na cabeça'. Verdade mesmo! Havia cineastas cujo roteiro consistia em um única frase, que ele trazia no bolso. De quando em vez, tirava o papel com a frase, lia e falava: "Bota a câmera ali..." (risos) E foi legal essa fase quando estabeleci contato com a arte contemporânea que estava acontecendo.
- Que funções você exerceu no mundo do cinema?
- Bem, comecei carregando cabos. E aí, como tinha talento para desenhar, fui me destacando daquela turma chamada 'da pesada'. Primeiro fui promovido a assistente de câmera. Depois, assistente de cenografia. Nesse ponto, trabalhei com grandes cenógrafos, grandes fotógrafos. Como Mário Carneiro, que eu considero meu mestre em fotografia, Rui Santos, grande fotógrafo brasileiro já falecido... Em cenário, trabalhei com Campelo Neto, diretor de arte, e houve um cineasta que foi marcante na minha vida que, inclusive, estava alijado do 'cinema novo'. Nem o 'cinema novo' o queria! Sabe quem? Iberê Cavalcanti. E curiosamente ele é um cineasta que sobreviveu, está aí até hoje fazendo seus trabalhos... O pessoal preso à política não o aprecia muito, talvez porque seus trabalhos abordem o lado mais humano. Ele tenta romper a tela do cinema para falar mais do ser humano e foi justamente com ele que eu pude avançar: fiz direção de arte em um dos seus filmes, depois atuei como diretor de fotografia em vários filmes produzidos por ele. Inclusive ele também produziu três filmes documentários que eu dirigi e fotografei e agora, mais recentemente, fizemos o "Terra de Deus", um longa-metragem que ainda está inédito, prestes a sair.