Vitória (ES), edição de 01 de julho de 2004
 
Há muito dinheiro público por
trás dos assassinatos, diz repórter



Renata Oliveira



Depois de 34 dias internado no Hospital das Clinicas, em Maruipe, o jornalista José Maria Batista recebeu alta. Ele foi submetido a um tratamento de desobstrução de uma artéria na perna esquerda e perdeu dois dedos e uma parte do pé. Acompanhando o caso Denadai à distância, ele revela que há muito dinheiro público envolvido na história dos assassinatos.

O jornalista, que se recupera da cirurgia em casa, na função de repórter especial de Seculo Diário e com o histórico de ser um dos melhores repórteres da área policial do Estado, acompanhou de perto todo o desenrolar do caso. Aqui ele faz uma análise de todo o processo e relembra os principais fatos desde a morte do advogado Marcelo Denadai, ocorrido em 15 de abril de 2002.

Para ele, se a polícia procurar bem vai encontrar relações entre a morte de Denadai e o desaparecimento do advogado Carlos Batista. Ambos estavam envolvidos com casos controvertidos e de uma certa forma ligados ao chamado crime organizado no Espírito Santo. Seja como defensores ou acusadores.

Um assassinato, numa versão

No caso de Denadai, existe mais de uma versão, mas a que predomina é do assassinato bancado pelo Pagotto. Esta dá conta dos documentos que ele possuía referentes ao pagamento, na prefeitura de Vitória, para a execução de um contrato no valor de R$ 4,9 milhões para a limpeza de fossas e galerias no município.

Entre os documentos fornecidos por Denadai ao irmão, o vereador Antonio José Denadai, que presidiu a CPI da Lama, que investigou o caso, existem grosseiras falsificações de assinaturas, reconhecidas a olho nu e dúvidas quanto à forma da contratação da empresa Hidrobrasil Saneamento Industrial Ltda.

Isto porque o dono da empresa, Sebastião Pagotto, era dono da empresa Desentupidora Líder, que executava os serviços de limpeza de fossas e galerias em Vitória e Cariacica. No caso de Cariacica, o Tribunal de Contas do Estado tem um documento que aponta dezenas de irregularidades praticadas pela desentupidora, incluindo emissão de cheques sem a correspondente nota fiscal e serviços inexistentes, que giram em torno de R$ 3 milhões.

Por causa das denúncias do Tribunal de Contas, a desentupidora Líder não poderia participar da licitação em Vitória. Daí porque a Líder, que executava obras durante a administração Paulo Hartung, não poderia participar de uma nova licitação, dessa vez na gestão de Luiz Paulo Vellozo Lucas.

Teria a empresa, então, mudado o nome para Hidrobrasil, mantendo porém o mesmo endereço comercial, veículos e todo o material móvel e imóvel da Líder.

O arranjo tinha tudo para dar certo, caso a empresa concorrente, a VA Saneamentos, de São Paulo, concordasse com o jogo, o que não aconteceu. A empresa paulista contratou o advogado Marcelo Denadai para cuidar judicialmente do caso.

Durante o andamento do processo, porém, um acordo foi firmado entre a Associação Capixaba dos Empreiteiros de Obras Públicas (Aceopes) e a VA, garantindo alguns trabalhos no Estado para a empresa paulista, desde que ela desistisse da luta judicial. Mas a VA ganhou uma licitação para realizar obras para a Central Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). Mas Denadai já sabia de toda a armação, tornando-se então um obstáculo para o acordo.

A próxima vítima

Levando em conta a sua vasta experiência sobre o caso, que acompanhou desde o início, José Maria alerta para a criação forçada de um crime perfeito. Ele acredita que se continuar a morosidade na investigação policial em torno do caso, ou se não houver ação mais dura dos ministérios públicos Estadual e Federal, o ciclo de mortes vai continuar.

As queimas de arquivo vão continuar contra qualquer um que possa representar perigo para Pagotto.

Não deve ser por acaso que o policial Dalberto Antunes Pereira continua preso. Ele é com certeza a pedra da vez nesse jogo, que visa a encobrir o envolvimento de Pagotto. Na verdade, ele não passa de testa de ferro de influentes políticos capixabas.

A própria Aparecida Denadai, apesar da proteção policial de que desfruta, não está imune a sofrer um "acidente", principalmente nos próximos meses em que estará se movimentando mais devido à candidatura à prefeitura de Cariacica. Outro risco: já sabe muito sobre os desmandos no município.

"Ou a Justiça funciona. E funciona para valer, de preferência com o reforço do Ministério Público, para talvez trazer uma nova missão especial para o Estado, ou vamos continuar a assistir assassinatos cuja apuração a polícia protela".

Todo mundo sabe quem matou o ex-tenente PM Paulo Jorge dos Santos Ferreira - que era segurança e amigo pessoal de Pagotto e foi assassinato em dezembro do ano passado, alguns dias após ter sua prisão preventiva suspensa também devido a um habeas-corpus. A polícia só não prende porque não quer.