Depois de 34 dias internado no Hospital das Clinicas, em Maruipe, o jornalista José Maria Batista recebeu alta. Ele foi submetido a um tratamento de desobstrução de uma artéria na perna esquerda e perdeu dois dedos e uma parte do pé. Acompanhando o caso Denadai à distância, ele revela que há muito dinheiro público envolvido na história dos assassinatos.
O jornalista, que se recupera da cirurgia em casa, na função de repórter especial de Seculo Diário e com o histórico de ser um dos melhores repórteres da área policial do Estado, acompanhou de perto todo o desenrolar do caso. Aqui ele faz uma análise de todo o processo e relembra os principais fatos desde a morte do advogado Marcelo Denadai, ocorrido em 15 de abril de 2002.
Para ele, se a polícia procurar bem vai encontrar relações entre a morte de Denadai e o desaparecimento do advogado Carlos Batista. Ambos estavam envolvidos com casos controvertidos e de uma certa forma ligados ao chamado crime organizado no Espírito Santo. Seja como defensores ou acusadores.
Um assassinato, numa versão
No caso de Denadai, existe mais de uma versão, mas a que predomina é do assassinato bancado pelo Pagotto. Esta dá conta dos documentos que ele possuía referentes ao pagamento, na prefeitura de Vitória, para a execução de um contrato no valor de R$ 4,9 milhões para a limpeza de fossas e galerias no município.
Entre os documentos fornecidos por Denadai ao irmão, o vereador Antonio José Denadai, que presidiu a CPI da Lama, que investigou o caso, existem grosseiras falsificações de assinaturas, reconhecidas a olho nu e dúvidas quanto à forma da contratação da empresa Hidrobrasil Saneamento Industrial Ltda.
Isto porque o dono da empresa, Sebastião Pagotto, era dono da empresa Desentupidora Líder, que executava os serviços de limpeza de fossas e galerias em Vitória e Cariacica. No caso de Cariacica, o Tribunal de Contas do Estado tem um documento que aponta dezenas de irregularidades praticadas pela desentupidora, incluindo emissão de cheques sem a correspondente nota fiscal e serviços inexistentes, que giram em torno de R$ 3 milhões.
Por causa das denúncias do Tribunal de Contas, a desentupidora Líder não poderia participar da licitação em Vitória. Daí porque a Líder, que executava obras durante a administração Paulo Hartung, não poderia participar de uma nova licitação, dessa vez na gestão de Luiz Paulo Vellozo Lucas.
Teria a empresa, então, mudado o nome para Hidrobrasil, mantendo porém o mesmo endereço comercial, veículos e todo o material móvel e imóvel da Líder.
O arranjo tinha tudo para dar certo, caso a empresa concorrente, a VA Saneamentos, de São Paulo, concordasse com o jogo, o que não aconteceu. A empresa paulista contratou o advogado Marcelo Denadai para cuidar judicialmente do caso.
Durante o andamento do processo, porém, um acordo foi firmado entre a Associação Capixaba dos Empreiteiros de Obras Públicas (Aceopes) e a VA, garantindo alguns trabalhos no Estado para a empresa paulista, desde que ela desistisse da luta judicial. Mas a VA ganhou uma licitação para realizar obras para a Central Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). Mas Denadai já sabia de toda a armação, tornando-se então um obstáculo para o acordo.
A próxima vítima
Levando em conta a sua vasta experiência sobre o caso, que acompanhou desde o início, José Maria alerta para a criação forçada de um crime perfeito. Ele acredita que se continuar a morosidade na investigação policial em torno do caso, ou se não houver ação mais dura dos ministérios públicos Estadual e Federal, o ciclo de mortes vai continuar.
As queimas de arquivo vão continuar contra qualquer um que possa representar perigo para Pagotto.
Não deve ser por acaso que o policial Dalberto Antunes Pereira continua preso. Ele é com certeza a pedra da vez nesse jogo, que visa a encobrir o envolvimento de Pagotto. Na verdade, ele não passa de testa de ferro de influentes políticos capixabas.
A própria Aparecida Denadai, apesar da proteção policial de que desfruta, não está imune a sofrer um "acidente", principalmente nos próximos meses em que estará se movimentando mais devido à candidatura à prefeitura de Cariacica. Outro risco: já sabe muito sobre os desmandos no município.
"Ou a Justiça funciona. E funciona para valer, de preferência com o reforço do Ministério Público, para talvez trazer uma nova missão especial para o Estado, ou vamos continuar a assistir assassinatos cuja apuração a polícia protela".
Todo mundo sabe quem matou o ex-tenente PM Paulo Jorge dos Santos Ferreira - que era segurança e amigo pessoal de Pagotto e foi assassinato em dezembro do ano passado, alguns dias após ter sua prisão preventiva suspensa também devido a um habeas-corpus. A polícia só não prende porque não quer.
|