Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Nas ondas do rádio





Jeanne Bilich

"Notícias de rádio até que são suportáveis.
Principalmente porque, enquanto as notícias
estão sendo transmitidas, os DJ's ficam fora do a."
(Fran Lebowitz - jornalista)


Foto: Bernardo Coutinho
  
Sua trajetória de vida se confunde com a própria história do rádio no Espírito Santo. Ligação estreita, estabelecida ainda na infância, na sua própria terra natal: "meu pequeno Cachoeiro". Amálgama que veio a se consolidar aos 16 anos quando da assinatura do primeiro contrato de trabalho com a Rádio Cachoeiro, conforme consta na carteira profissional. Nascia, assim, o radialista José Roberto Mignone. A precocidade profissional acabou conduzindo-o, no decorrer de três décadas, à direção de quantas emissoras de rádio floresceram no Estado. De norte a sul, de leste a oeste.

Aos 55 anos de idade, José Roberto Mignone Cheibub, casado com Mônica Souza Lima Mignone Cheibub e pai de Ranuze, 26 anos, Zacharias, 23 e Zaira, de 17, relata a Século Diário até mesmo suas inúmeras tentativas de abandonar a carreira no rádio na busca de outros horizontes profissionais. Tentativas vãs! O 'casamento profissional' celebrado na adolescência resistiu e tornou-se um vínculo indissolúvel.

Há dois anos José Roberto Mignone aceitou convite formulado pelo jornalista Rogério Medeiros para assinar uma coluna em Século Diário - publicada às segundas e quintas-feiras - onde exercita um olho crítico sobre a mídia: rádio, jornal, tv e sites noticiosos da internet. Por vezes, revela-se implacável! Seu fiel público leitor tem perfil definido: colegas de profissão, jornalistas, professores e estudantes de Comunicação. Se você navega, mesmo que na condição de ouvinte, nas 'ondas do rádio' certamente terá a oportunidade de conhecer agora um pouco mais da história do rádio capixaba que acaba se fundindo com a trajetória profissional do radialista José Roberto Mignone.

Século: - Você é um profissional sobretudo de rádio. Como foi o seu encontro com esse veículo de comunicação?

Mignone: - Meu encontro com o rádio deu-se em Cachoeiro do Itapemirim. Eu era vizinho da única rádio de lá, a Rádio Cachoeiro. Morava na rua 7 de Setembro e no final da rua - que, aliás, dava para o rio Itapemirim - havia um lavador de carros. Ali ficava o prédio da emissora. E o meu tio, José Américo Mignone, era o diretor da rádio. Assim, eu aproveitava a proximidade física da emissora e 'escapava' para lá. Tinha nessa época uns 10, 11 anos, e ficava prestando atenção nos programas, aliás, muitos eram de auditório. Mais tarde, aos 12, 13 anos, é que passei a 'peruar' as pessoas trabalhando na mesa de som, na técnica, fazendo locução e até montando a programação diária. Aos 16 anos tive minha carteira de trabalho assinada pelo meu tio, José Américo, na Rádio Cachoeiro de Itapemirim. A função era 'operador de som'.

- E como você aprendeu essa função?

- Bem, para trabalhar como operador de som andei substituindo um operador de aúdio nas noites de domingo que, por sua vez, já 'quebrava o galho' do operador titular. Esse rapaz que 'quebrava o galho' do titular, na verdade trabalhava mesmo era na área da administração da emissora. Mas ele queria ir ao cinema à noite e assim me pedia para eu ficar operando a mesa de som. E para ser franco... eu até que gostava! Colocava 'no ar' as músicas da minha predileção. A rádio saía do ar às 10 da noite - rádio no interior era assim, encerrava suas atividades ainda cedo e era religada no dia seguinte. Às 22 horas, portanto, eu fechava tudo - e a essa altura, só eu ainda estava por lá - e então ia embora para casa.

- Da função de operador você passou para o microfone?

- Não. Comecei foi a produzir alguns programas. Especialmente um que ia ao ar aos sábados, no horário das 17 às 23 horas, e a cada ano esse programa ia mudando de nome. Quando começou, em 1966, chamava-se Rota 66, aproveitando o nome de uma música norte-americana orquestrada que fazia muito sucesso. Nos anos seguintes, o programa foi mudando de nome: Perspectiva, 67 e por aí afora. Neste programa havia a participação do Neocenáculo, que discutia filmes e lançamentos do cinema novo - afinal, estávamos vivendo em clima de plena Revolução de 64 - e, ao final do programa, eu passava a ocupar o microfone. Quer dizer, trabalhava como operador nesse programa que começava às 17 horas e, às 20 horas, passava a ocupar o microfone, fazendo um programa de bossa-nova que se estendia até às 21 horas. Das 21h às 23 horas, eu entrava com música internacional tocando todos os sucessos da parada musical. Nessa época, a Rádio Cachoeiro contava com uma excelente discoteca - recebia muitos discos! - pois contava com a mesma atenção que se dispensava às emissoras de rádio aqui da capital.

- E o que se segue?

- Bem, a partir daí deslanchei... Comecei a fazer parte da programação - mesmo trabalhando como operador -, ganhando assim meu primeiro salário de operador de áudio e, logo depois, passei a fazer também um noticiário na rádio. E, com o tempo, fui fazendo um pouco de tudo no veículo. É por isso que dizem que o pessoal que vem de rádio no interior quando chega na capital se dá bem... Porque, na verdade, ele congrega um monte de funções. Eu, por exemplo, só não mexi com o Departamento Comercial, mas com o tempo passei também a entender do comercial. Rádio para mim, hoje em dia, não possui nenhum segredo. Claro, no momento o rádio está diferente mas não há realmente segredo.

- Antes de falar sobre esse diferencial - que vamos deixar mais para o final dessa conversa - você dirigiu quase todas as emissoras de rádio na Grande Vitória. Por favor, fale um pouco sobre essa trajetória.

- Na verdade, se eu não dirigi atuei na maioria. Vim para a capital em 1969 e o Osvaldo Amorim estava na época no comando da Rádio Vitória. Osvaldo era de Cachoeiro e havia me visto trabalhar lá. Assim, convidou-me para vir ajudá-lo aqui na Rádio Vitória. Eu havia terminado de fazer o Tiro de Guerra, estava com 18 anos, portanto. Disse a ele que só viria para Vitória se tivesse aqui a possibilidade de estudar, fazer alguma faculdade. Ele concordou. Fui, então, trabalhar na Rádio Vitória com o Osvaldo e fazia cursinho no Colégio Americano. Cheguei e dei de cara com o Gerson Camata fazendo o programa dele, com o Castelo Mendonça - que também tinha seu próprio programa - e o Alfredo Mussi, que fazia o Madrugada Também é Mulher. Peguei todo esse pessoal trabalhando... E o Osvaldo Amorim me encarregou de cuidar da programação. Até me lembro de um episódio interessante: o Osvaldo Amorim alertou-me que o Castelo Mendonça estava passando todos os dias 10 minutos da hora aprazada para o término do programa, ou seja, ao invés de encerrar ao meio-dia pontualmente, não respeitava o horário. E o Gerson Camata, cujo programa vinha a seguir, começou a reclamar desses atrasos freqüentes. Aí o Osvaldo pediu-me para eu ir até o estúdio e mandar o Castelo encerrar o programa na hora certa. No primeiro dia, o Castelo obedeceu; no segundo, voltou a ultrapassar o seu horário. O que eu fiz então? Bom, tirei o programa dele do ar (risos). Deu a maior confusão! (risos) E o Camata gostava desse clima... Tanto que pedi ao Camata para gravar outras coisas da rádio como, por exemplo, as vinhetas: Super Rádio Vitória etc. E, claro, o Gerson Camata tinha o seu próprio programa policial. Era uma pequena equipe - Gerson, Mister X e Cramenha. Um time imbatível! E na verdade o Camata é o que é hoje graças a esse programa de polícia. Depois deixei o rádio por um tempo e fui trabalhar no comércio.