Vitória (ES), edição de 07 de julho de 2004
 
Rastreamento telefônico é o
caminho para elucidar os crimes



José Maria Batista e Renata Oliveira



Enquanto o inquérito do assassinato do advogado Marcelo Denadai, executado a tiros no dia 15 de abril de 2002, dorme na delegacia há sete meses, a decisão de pronunciar ou não judicialmente o empresário Sebastião Pagotto, acusado de ser o mandante do crime, para ser levado a júri popular repousa nos escaninhos judiciais. É evidente que os hábeis advogados de Pagotto têm muitos motivos para alegar a produção de novas provas e com isso postergar a decisão judicial. Mas já são passados mais de seis meses e nada se sabe sobre uma medida que se impunha desde o assassinato de Pejota, o matador de Denadai: o rastreamento dos telefonemas para o seu celular.

Foi rastreando telefonemas que o delegado federal José Luna Pinto identificou os criminosos e apontou Sebastião Pagotto como mandante da morte de Denadai. Outro segundo passo do delegado federal foi o manifesto assinado por 13 vereadores de Vitória, em 2001, que continha indícios suficientes de ilegalidades praticadas pelas firmas do empresário.

O documento foi entregue ao Ministério Público Estadual (MPE) pelos vereadores Ademar Rocha (presidente da Câmara), Antônio Denadai (presidente da CPI da Lama, que investigou irregularidades na concorrência para a limpeza de galerias públicas praticadas pela empresa Hidrobrasil), Sebastião Pelaes (presidente da CPI das Merendeiras) e Dermival Galvão (presidente da Comissão de Finanças da Câmara e também participante da CPI do Lixo).

As investigações de Demirval provocaram uma redução de R$ 3 milhões nos custos de recolhimento de lixo na Capital. No caso da CPI da Lama, a questão era criminal mesmo, pois envolvia indícios de falsidade ideológica, falsidade de documentos e tentativa de lesar os cofres municipais.

Bastou o delegado federal José Luna Pinto juntar os dados contidos no relatório com as informações divulgadas na imprensa sobre a CPI da Lama, além de rastrear os telefonemas dados e recebidos por Pagotto, para reunir pistas para a elucidação do crime.

Nas conversas telefônicas com o soldado-PM Dalberto Antunes Pereira (segurança pessoal de Pagotto), teria ficado claro, mais de uma vez, a necessidade de silenciar o advogado Marcelo Denadai, que investigava as irregularidades no contrato da Hidrobrasil com prefeituras capixabas.

Pagotto também teria a intenção de calar o vereador Antônio Denadai, irmão do advogado. Mas foi desaconselhado pelo ex-tenente PM Paulo Jorge dos Santos Ferreira, o Pejota. O ex-tenente teria alertado para a facilidade de se ligar a morte dos dois irmãos às investigações da CPI em andamento.

Foram esses os principais indícios que levaram o delgado a pedir a prisão preventiva de Pagotto. Elementos suficientemente fortes para que fosse decretada de imediato a prisão, embora ele só tenha sido preso dois meses depois.

É também utilizando o rastreamento telefônico que a polícia poderá elucidar a morte de Pejota, e até mesmo, juntando tudo isso, montar o quadro final do assassinato de Denadai, com o papel de cada um ator envolvido, devidamente esclarecido, justificado e provado.