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  Vitória (ES), edição de 08 de julho de 2004
 
Memórias das minorias



Vítor Lopes


  
Foto: Gustavo Ferri
  
Palestrantes discutem cultura das minorias

As minorias culturais são discutidas no mundo todo e causam preocupação nos envolvidos na área. O debate intitulado "Minorias e suas culturas - Direitos humanos e riquezas humanas" compartilhou diversas experiências pessoais e universais no Fórum Cultural Mundial.

Para Karen Worcman, brasileira, diretora do Museu da Pessoa.Net, o conceito de minorias passa por subgrupos que possuem culturas diferentes do que é mostrado o tempo todo. Karen mostrou aos participantes algumas atividades e idéias que fazem parte do Museu da Pessoa.Net. "Sem memória deixamos de ser nós mesmos, de entender nosso presente e deixamos de nos reconhecer como grupo. Existem diversas formas de registro de cultural, como a tradição oral, escrita, museus, arquivos, bibliotecas..."

"Não existem culturas sem espaços de memória, que são espaços sagrados e responsáveis pela transmissão daquilo que se considera essencial. A memória existe desde que ela seja transmitida e escutada por alguém", afirma Karen.

O Museu da Pessoa.Net foi fundado em 1991, para que qualquer pessoa conte sua história. O projeto já conta com quatro mil depoimentos de anônimos. "Valorizar o anônimo é ponto de partida para compor uma memória social mais ampla, democrática e multifacetada. O anônimo - parte da maioria - pode ser considerado, sob a ótica social, uma minoria.", disse. No pavilhão de eventos em que o Fórum Cultural Mundial foi realizado, a equipe do museu virtual gravava depoimentos de pessoas que circulavam pelo ambiente.

O historiador brasileiro Nicolau Sevcenko analisou bem. "Quem diz o que é minoria é quem tem o poder". Em seguida, fez um discurso a respeito das mudanças da posição social da minoria no mundo ao longo da história.

O antropólogo e escritor norte-americano Richard Price apresentou aos participantes suas experiências de campo com as comunidades quilombolas do Suriname e da Guiana-Francesa, que têm seus direitos ameaçados por guerras e pelas mineradoras multinacionais instaladas nesses países.

  
Foto: Gustavo Ferri
  
Worcman: "A memória existe desde que ela seja transmitida por alguém"
"São cerca de 120 mil indivíduos, independentes cultura, política e economicamente. Por isso, são os que sofreram os ataques mais brutais. Nas últimas quatro décadas, eles sofreram agressões terríveis. O governo do Suriname tem políticas militares contra os quilombolas. Houve uma guerra que matou centenas de pessoas e inúmeras aldeias foram queimadas", comentou.

Segundo Price, o Suriname não dá apoio para preservar a cultura dos quilombolas, atendendo a interesses privados. "Hoje, o Suriname é o único Estado ocidental que não reconhece legalmente os territórios dos quilombolas. Isso eqüivale a um etnocídio", disse. Para fugir das guerras, muitos quilombolas foram para as cidades e para o litoral, perdendo a sua identidade.

Logo após esse tenso relato, a representante da nação Kura Bakairi Darlene Taukane comentou as experiências pela qual sua tribo passou. Os Kura Bakairi são provenientes do Mato Grosso. De acordo com Taukane, o primeiro contato com o branco foi em 1723, com a entrada dos bandeirantes.

Em 1884, após estudos por parte dos brancos, os cidadãos civilizados passam a saber mais sobre os Kura Bakairi, aumentando os conflitos em forma de guerra e em forma de apropriação cultural.

"Nosso primeiro trabalho para resgatar nossa cultura foi a criação de um museu, algo que foi bastante discutido, pois os índios achavam que no museu, as coisas ficam paradas. A nossa preocupação foi revitalizar uma cultura adormecida", disse.

"Quem ajudou muito nossa tribo foi o vídeo. Os índios, ao se verem na televisão, passaram a não achar bonito se verem vestidos de calça jeans e com bonés como os brancos. E tudo mudou. Na culinária, deixamos de usar panelas de alumínio (...). Os jovens passaram a ter muito mais respeito pelos velhos", finalizou.

  
Foto: Gustavo Ferri
  
Ayerra: "O Cinema é memória"

A diretora de cinema Maria Helena Taberna Ayerra, dos países Bascos/ Espanha, disse que faz filmes atenta a esses temas de diversidade, respeito cultural, minorias e memória de um povo. "Não é um cinema político, mas militante. Cinema envolvido com o ser humano, envolvido com a cultura", disse. "O Cinema é memória. O cinema de Hollywood nos conta como é o mundo e acaba desvalorizando as culturas minoritárias", analisou.

"Pertenço a uma cultura minoritária na Europa e venho propor reflexões sobre a cultura Basca. O problema atual é que os bascos estão aliando sua cultura com os partidos políticos", comentou.

De acordo com a diretora, a língua deve ser respeitada e vista pelos jovens como um instrumento de poder, de grande importância. Além disso, "o cinema tem de ser visto como gerador de poder e com inúmeras responsabilidades".

"Os cineastas tem de se juntar para contar histórias que nos cercam, que nos constróem socialmente, sem os vícios do cinema hollywoodiano, considerando os telespectadores como seres inteligentes".

Durante a palestra, que teve como mesário o apresentador e jornalista Marcelo Tas, a diretora Maria Helena Taberna Ayerra mostrou trechos de "Extranjera", seu mais novo documentário, no qual relata a vida de inúmeras mulheres estrangeiras que tentam a vida na Espanha.

Leia mais:

  • Globalização e cultura em debate mundial (publicada em 07/07/2004)
  • Intercâmbio cultural em debate no FMC (publicada em 06/07/2004)

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