Moedas de Voto nas Eleições Municipais




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

As eleições municipais já estão nas ruas. Saíram da fase de conchavos e alianças. Poderão ainda haver modificações e desistências. Mas a sorte está lançada.

Neste momento, os estrategistas discutem quais serão as principais moedas de voto. O que vai influenciar mais a decisão final do eleitor.
Vale entrar neste debate.

Na atual conjuntura, em algumas cidades, as maiores, parte do debate poderá ser "federalizado". Todo mundo sabe que o eleitor sabe que nas eleições municipais não estão em jogo assuntos federais, como a política econômica, e assuntos estaduais, como a segurança.

Mesmo assim, não será possível evitar, em alguns casos e em alguns momentos, a tentativa de "julgamento" do governo Lula. Principalmente em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Porto Alegre e em Recife, por exemplo. Assim, nestas cidades, pode ser que o julgamento do governo acabe se tornando moeda de voto. O que significará o debate de políticas concretas e, portanto, o debate de programas de governo.

Mesmo com todos os cuidados éticos já demonstrados, não se pode menosprezar o efeito das máquinas administrativas como moedas de voto.
O governo federal já está jogando o seu peso nas eleições dos principais candidatos da sua base parlamentar. Os ministros já disseram que, fora do horário de trabalho, vão entrar nas campanhas.

No plano municipal, principalmente depois da possibilidade de reeleição e da descentralização de ações como as de saúde, também não se pode menosprezar os efeitos da máquina. Inaugurações serão feitas. Apoios serão dados e conquistados. Tudo isto influencia o voto do eleitor. Ver a obra pronta. Ver o resultado de uma política pública. É moeda de voto, na certa.

Assim, deverão ter força aquelas candidaturas com programas consistentes e idéias convincentes. Como, também, terão força aquelas candidaturas apoiadas na capilaridade partidária e na presença da máquina.

Por sua vez, os apoios das elites políticas, tradicionais moedas de voto, poderão estar em baixa nestas eleições. Exceções vão existir. Mas, a meu ver, confirmarão a regra, desta vez. Com a queda - sazonal ou não - de popularidade do governo federal, as elites políticas, do ponto de vista do eleitorado, "nivelaram-se". Não há mais novidades. Não havendo novidades, estes apoios poderão ser importantes, mas não fundamentais.

O mesmo não se pode falar dos apoios de comunidades organizadas, sejam comunidades de bairros, sejam associações de interesses, sejam movimentos.

Quando o marketing e o espetáculo já não vão ajudar tanto; quando muita gente quer "dar o troco" aos políticos que prometem e não fazem
(como diz um samba recente de Zeca Pagodinho); aí a capilaridade organizada e enraizada torna-se forte.

O que nos leva a especular sobre a possibilidade da diminuição relativa do poder do marketing e dos efeitos da televisão. São poderosos? São. Mas arrisco-me a dizer que terão menor importância relativa nestas eleições. Na "hora do troco", a galera vai dizer que não quer "conversa fiada". É uma hipótese.

Neste momento, é o que parece ser possível enxergar no horizonte. A política como resultados poderá superar a política como espetáculo.