Não é a praia da coluna, mas certas reflexões se impõem em respeito ao bom senso. Elas são inevitáveis no acompanhamento da questão sucessória em Vitória com o impasse entre o prefeito Luiz Paulo e o governador Paulo Hartung a respeito de um candidato comum à sucessão em Vitória.
Uma avaliação isenta não sonega reconhecimento aos atributos dos nomes colocados, César Colnago, Luciano Rezende, Anselmo Tose e mesmo Lelo Coimbra. Todos eles parecem legítimos representantes de uma promissora estirpe. Por isso, todos estão aparentemente credenciados a assegurar a hegemonia de uma mentalidade administrativa que há 16 anos brinda a capital capixaba com uma gestão moderna.
Laços
Aí entra em cena o imponderável da emoção. A economia há muito rendeu-se à contingência humana , perdeu a presunção de ciência exata - amparada no primado da racionalidade - e assumiu sua condição de ciência social ou humana. Não apenas porque existem variáveis incontroláveis no fato econômico, como o homem não é um ser integralmente racional, com o que a lógica cartesiana presidiria todas suas decisões.
Na política vê-se essa condição exacerbada. Alguns princípios lógicos são preteridos por emoções demolidoras ou afetos que sobrepairam a objetividade dos fatos.
Só assim para entender porque César Colnago serve para ser o líder do Governo na Assembléia, mas não se apresta a ser também o seu candidato à sucessão de Luiz Paulo. Peagá se rende à solidariedade a Lelo, apenas. É refém de sua lealdade cultivada dos tempos do diretório acadêmico até aqui, o momento político mais expressivo de suas vidas.
Pirro
Luciano Rezende não é o candidato de Lelo ou Peagá. É aquele que circunstancialmente serve para ser oposto a César Colnago. Qualquer um, no caso, calharia desde que apresentasse um mínimo de biografia que não comprometesse Lelo e Hartung. Está claro, mas não suficientemente explicitado, que o imbróglio todo decorre de uma mera birra de Lelo. Sua suscetibilidade arranhada poderá fazer ruir a hegemonia de um grupo que vem se legitimando pelos seus resultados gerenciais. Pode até ter suas humanas razões. Elas se apequenam, porém, à vista do todo que se compromete.
Lelo condena-se a bisar Pirro. Aquele general que para ganhar uma guerra destruiu todos os seus exércitos.
Números
A coluna segue na expectativa de voltar a saber quanto o Estado tem arrecadado mensalmente, quanto lhe sobra líquido, deduzidos os repasses para os municípios e os financiamentos do Fundap; em quanto importa a folha de pessoal, os gastos de custeios. Os investimentos e o serviço da dívida, além da transferência para os outros poderes.
É apenas uma sucinta radiografia das finanças estaduais. A Secretaria da Fazenda alega dificuldade de conciliar as cifras geradas setorialmente, inviabilizando a consolidação de números apenas essenciais. A coluna é paciente...
Pitagórico
A palestra de Antônio Lavareda, marqueteiro festejado e guru de FHC, em Vitória impressionou pela demonstração da capacidade de séries estatísticas embutirem tantas interpretações.
Desde o rebatimento da agenda nacional nas eleições municipais às inflexões das trajetórias eleitorais de partidos e candidatos. Remete ao sábio de Samos, para quem tudo são números na existência. Inclusive as inspirações e expirações, do primeiro ao ultimo alento.
Efeitos
Grandes atores políticos habitualmente se notabilizam pelo raro senso de instrumentalização da mídia. Principalmente quando esta cochila com o espírito crítico. O festejado e miraculoso lucro de R$ 34 milhões apurados pelo Banestes no exercício passado ainda vai render...
Até porque, sem qualquer fato econômico que o explicasse, consistiu na prosaica reversão de provisões para créditos duvidosos. Ou seja, sem entrar ou sair, apenas permanecendo onde estava, o dinheiro foi transferido de rubrica. E tome foguetório...
Influência
Sérgio Rogério de Castro quica com nota da coluna sobre o pouco efeito da doação de terrenos na atração de empreendimentos. Fundador da Associação dos Empresários da Serra, em 1977 e ex-presidente da Findes, Sérgio diz que incentivos fiscais e cessão de espaços são coadjuvantes expressivos à oferta da infra-estrutura, disponibilidade de insumos e matérias primas e proximidade do mercado consumidor na viabilização dos empreendimentos.
Se dois estados ostentam os mesmos atributos, os incentivos e a oferta de áreas podem fazer a diferença. O que o atraiu de Minas para o Espírito Santo, nos anos 70, levando-o depois para Pernambuco.
Óbvio
É evidente, talvez por isso tão imperceptível. FHC diz que a grande pauta da agenda nacional é a questão da violência. Tanto quanto foi a estabilização da moeda com a sustentação do real. Parece óbvio. Mas a ficha está custando a cair. O exemplo da guarda municipal de Vitória, uma reação quase fisiológica à questão, denota claramente isso.
Desenho
Está em curso o debate sobre o PDU que alguns queriam reformulado e outros integralmente refeitos. Vitória tem dado show com sua cultura de planejamento. Mas o assunto está suscitando alguns questionamentos. O novo PDU introduz o conceito de "outorga onerosa", que representa a possibilidade das limitações de construção nas Zonas de Ocupação Controlada serem flexibilizadas mediante pagamento adicional à municipalidade. Ou seja, por uma taxação adicional as construções poderão extrapolar os índices permitidos para a área.
O consistente trabalho do PDU inclui a difícil acomodação dos interesses urbanos na questão das limitações e uso do solo. De um lado os empreendedores buscam se desvencilharem das restrições que cerceiam as oportunidades de investimento. De outro, as forças comunitárias, vigilantes, advertem para a degradação inevitável da cidade com o adensamento urbano.
Mas essa questão de outorga onerosa cheira à meia gravidez. Se a ocupação deve ser restringida visando a aeração, luminosidade, e a redução do impacto urbano, gravames financeiros serão meros expedientes fortuitos de receita. Nada mais.
Desenho II
O PDU prevê também entre as nove áreas do zoneamento urbano a Zona de Ocupação Restrita que reserva alguns bairros para função estritamente residencial. Nada contra, mesmo considerando-se uma forma de privilégio dos seus moradores que os querem assim. Não por coincidência, aliás, são bairros de alta renda, como Mata da Praia, Ilha do Frade e Ilha do Boi.
Não que devessem ser devassados pelo comércio. Mas a possibilidade da população desfrutar de alguns equipamentos urbanos de suas paragens é meramente uma democratização de acesso.
O critério define um estamento populacional. Até porque, como observou um arquiteto e professor da Ufes, os moradores desses locais dispõem de carro próprio para buscar nos outros bairros os serviços que não permitem em seus espaço. Nos outros pode, né?
Tentativa
As ressalvas não pretendem, mesmo, empanar o mérito do PDU que está sendo gestado como um esforço de pensar Vitória e as tendências da urbe. Mas a coluna admite o ceticismo arraigado para o qual todo esse trabalho é um digno esforço de não omissão ante o futuro que se desenha.
Porque cidades, a partir de determinado tamanho, são intrinsecamente disfuncionais. Engendram-se paliativos, compensações, mas não há como evitar a degradação da polis saturada.
Daí a expectativa da instauração de novos padrões como a proliferação dos condomínios horizontais e a ocupação natural dos espaços entre as cidades. Além da ruptura do padrão de mobilidade erigida sobre o automóvel.
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