Através dos tempos o Brasil, e os demais países do mundo, têm sido governados por pessoas sem escrúpulos. Evidentemente, existem nobres exceções, mas são exatamente exceções. A história, antiga e recente, mostra com clareza dezenas de exemplos, mas é melhor evitar nomeá-los.
Friedrich A. Hayek, agraciado com o prêmio nobel de economia de 1974, enumera algumas razões para tal fenômeno, afirmando, com total razão, que os princípios que presidem a seleção dos governantes são quase inteiramente negativos.
Primeiramente, aponta o referido estudioso que, "de um modo geral, quanto mais elevada a educação e inteligência dos indivíduos, tanto mais se diferenciam os seus gostos e opiniões e menor é a possibilidade de concordarem sobre determinada hierarquia de valores". Daí decorre que, para encontrar um maior grau de uniformidade e semelhança de pontos de vista, é necessário descer as camadas em que "os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevalecem os instintos mais prilitivos e comuns".
Isso quer dizer que o grupo mais amplo é constituído por indivíduos que possuem valores inferiores. Trocando miúdos: é mais fácil encontrar apreciadores de funk do que de música clássica, existem mais jogadores de futebol do que jogadores de xadrez, e assim por diante.
A simplicidade é a regra, a complexidade é a exceção. Isso é uma constante na natureza, e não só na sociedade humana. Existem mais micróbios do que insetos, mais insetos do que mamíferos, e assim por diante. Quanto mais complexo, mais raro.
Nas palavras de Hayek, "é, por assim dizer, o mínimo denominador comum que une o maior número de homens. Quando se deseja um grupo numeroso e bastante forte para impor aos demais suas idéias sobre os valores da vida, jamais serão aqueles que possuem gostos altamente diferenciados e desenvolvidos que sustentarão pela força do número os seus próprios ideais, mas os que formam a 'massa' no sentido pejorativo do termo, os menos originais e menos independentes".
Não bastasse essa regra, aquele que busca o poder sempre irá buscar primeiro o apoio dos fracos de espírito, sem convicções próprias e simplórios, que estão prontos para aderir a qualquer sistema de valor previamente elaborado. Ou, nas palavras de Hayek, "serão (...) aqueles cujas idéias vagas e imperfeitas se deixam influenciar com facilidade, cujas paixões e emoções não é difícil despertar, que engrossarão as fileiras".
O terceiro elemento negativo para a seleção dos líderes está no esforço do interessado em obter o poder. Como no processo de seleção natural descrito por Charles Darwin, somente os mais fortes sobrevivem. E quem é o mais forte? Hobbes, em O Leviatã, já demonstrou que, na vida social, o mais forte não é aquele com maior vigor físico, mas sim aquele que consegue se sobrepor aos demais por qualquer meio, lícito ou não.
Em uma disputa, não vence necessariamente o que detém maior vigor individual, mas sim aquele que reúne melhores condições, seja através do ardil ou não. Quero dizer: toda disputa começa em um impasse. Em uma disputa entre duas pessoas igualmente civilizadas, honradas e honestas uma delas (ou ambas) tende a ceder, em defesa de um valor maior, que é a honestidade. Na disputa entre uma pessoa honesta e um canalha, este último deverá vencer, porque jamais irá ceder. Para o crápula, não há outro valor senão a vitória. Não há limite para sua ação. O homem honesto, por outro lado, irá abandonar a disputa quando, para vencer, for necessário praticar algum ato que seja contrário aos seus valores superiores.
Um exemplo: suponhamos que um assassino discuta com uma pessoa honesta sobre a propriedade de um terreno. Chegando ao impasse, o assassino terá como último recurso a aniquilação física de seu inimigo, enquanto o cidadão honesto não contará com essa possibilidade. Fatalmente o marginal irá vencer.
Finalmente, embora com igual ou maior importância, surge um quarto elemento negativo que interfere na seleção do poder: parece ser mais fácil ao homem concordar sobre um fato negativo do que sobre um fato positivo. O ódio sempre traz mais adesão do que o amor. Esse fator aparece com absoluta clareza em algumas igrejas - que não ouso nominar - que pregam o ódio travestido de amor.
Legiões de desesperados correm para os "cultos" no qual o pregador promete que seu deus irá vingá-lo, irá derrotar seus inimigos e dar a vitória, em geral para conseguir bens materiais. Tal discurso atrai multidões, quem quiser abra os olhos e veja. O discurso do amor já não é tão atrativo, como percebem os bancos de sangue. Exceções existem, repito, mas isso não altera a regra.
O ódio e a discriminação unem os grupos sociais muito mais facilmente do que o amor. Creio eu que isso é natural do homem, pois praticamente todos os grupos sociais se formam pela exclusão.O homem não busca semelhanças para formar grupos sociais, mas sim diferenças para excluir os demais.
Exemplo clássico, mas felizmente distante da realidade brasileira, é a repulsa aos estrangeiros (xenofobia). O estrangeiro é repudiado pelo simples fato de ser estrangeiro, porque é "diferente". O discurso de ódio contra os negros, contra os judeus, contra amarelos, contra arianos e contra qualquer outra coisa é muito mais forte do que amor ao próximo. Qualquer pretexto serve para o ódio, mas não para o amor.
Vale destacar o patético exemplo do ódio europeu contra os estrangeiros: os estrangeiros são admitidos na Europa para exercer profissões tidas por repugnantes e depois são repudiados exatamente porque exercem profissões repugnantes. Note-se que na tradição ocidental qualquer trabalho braçal é vil, por influência grega.
Com todos esses fatores, percebe-se que a sociedade tende a ser guiada por cegos, por imorais que atuam em nome da moral. Quanto sangue é derramado para defender a vida? Quantas e quantas escolhas são contraditórias e mesmo assim aplaudidas pela massa ignorante? Atender o falso interesse da massa, também aqui no sentido pejorativo, ou agir no interesse do grupo - ou em nome das paixões do grupo - liberta o líder de suas restrições morais. Exemplos da história mostram que um covarde investido do poder acaba se transformando em um ditador sanguinário, que age supostamente em nome do povo que massacra.
Por tudo isso, não há como nutrir uma falsa ilusão de que um ou outro líder irá alterar a natureza das coisas. O processo de seleção não privilegia a inteligência, nem o amor, nem a vida; tal processo é resultado da burrice, do ódio e da crueldade. E o pior é que parece não haver outra maneira.
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