Fazia anos que Jeremias Coisa Pouca não retornava à terrinha natal. Trabalho, família, tantas coisas a funcionar como freio de mão. Até que, num feriado desses, lá se vai o Coisa Pouca, com a mulher e os filhos, para o interior de Minas, em busca de rever familiares, botar as pernas pra cima por um par de dias, mostrar a cidadezinha para os filhos mais novos, vindos ao mundo depois que o pai já passara dos 50.
É um reencontro feliz. Festa junina, a bela pracinha tão caprichosamente mantida, os velhos amigos, os filhos dos velhos amigos, os netos dos velhos amigos. E Coisa Pouca se delicia ao rever o seu rio querido, sua cachoeira, seus antigos pesqueiros preferidos, o cantar das lavadeiras, o aboio dos vaqueiros, o ritmo dos canoeiros, aquele universo sonoro tão gostoso de se ouvir e que vaza da fala de sua gente. Está feliz. Sente-se, de novo, índio daquela tribo, animal daquele ecossistema.
As crianças se esbaldam. Andar de bicicleta, correr pela rua sem o risco de atropelamento, o contato com animais de montaria, com a criação que vive pelos quintais e pelas chácaras vizinhas. Tudo é um universo novo de pêlos e cheiros e onomatopéias de toda feitura. Passear a cavalo, ver um vaqueiro ordenhando a vacada, tudo é novidade, tudo é festa.
Coisa Pouca tem especial afeto por um velho amigo na cidade. Já é homem de seus 70 anos e foi amigo de seu pai, já falecido, durante mais de 40 anos. Já viúvo, um tanto deprimido, o velho Rouxinol fica sentido, se os amigos não o visitam, em suas aparições lá pela cidadezinha. Então, Coisa Pouca já chega à sua terra com um compromisso determinado: visitar seu caro e velho amigo.
Pois era então uma fria manhã de outono quando Coisa Pouca chegou à casa de Rouxinol, que já ia saindo, de bicicleta. Preferiram então se sentar na pracinha, ao sol, pra tirar o mofo. Pois, cinco minutos depois, Jeremias já rachava ao bico, de rir, esquecido que estava de que todo mineiro é um humorista, conforme quem conhece o interior mineiro já sabe. Sinceramente contente com a visita, Rouxinol foi logo dizendo:
-Eu já sabia que cê tava aí, bobo.
-Uai. Quem te contou?
-Meu filho. Passou lá em casa, ontem de noite, e falou:
-Coisa Pouca ta lá na pracinha com dois mininim lourim, falano que é dele.
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