Vitória (ES), edição de fim se semana
 
O incansável poder da pesquisa





Cristina Moura

"É mais negócio interpretar as interpretações do que as próprias coisas. Só fazemos entreglosar-nos" Montaigne (1533 -1592)


A realidade é traçada através de números e reações de vários personagens ao mesmo tempo. Depois, é fragmentada, para, então, virar objeto de análise. Eis o poder da pesquisa. Entrelaçada a figuras conhecidas, figuras mais do que públicas - quem sabe, míticas? - a peça recheada de dados aparentemente corriqueiros e matemáticos condensa-se às outras realidades. Seria o mundo do receptor da informação tão mesclada a outros mistérios. E assim a Ciência capta o social, enquanto se mantém observando alguns fatos, 'clicando' um júri no qual não haverá culpa, mas uma circunstância pronta às garras do destino capitalista. "A pesquisa não pode estar fora disso", diz ela, a entrevistada deste final de semana.

Foto: Carlito Medeiros
  
Viviane Vervloet Medeiros Chaia, como socióloga, aprendeu que os diversos personagens são participantes, na verdade, de um jogo de poder que poderá se transformar num belo esquema político ou num sórdido leque de manipulações. Tudo é separado por uma linha quase imperceptível, principalmente para as massas - as grandes receptoras do diálogo dos números e da interpretação dos fatos.

Proprietária da Acert - Empresa de Consultoria e Pesquisa, localizada na Enseada do Suá, em Vitória, a socióloga diz quem está com o poder na mão e como, até o momento, Nilton Baiano é o candidato 'do povão' na Capital capixaba. Nesta entrevista, Viviane faz um paralelo entre institutos 'saudáveis' e os que 'pulam', como de pára-quedas, no Espírito Santo, e oferecem um trabalho puramente marketeiro, por um preço camarada. Mas, o que é pesquisa sem um trabalho de Marketing?

Bem, a consultora - também ligada a outras áreas, Educação Ambiental e Urbanização - avalia que a pesquisa precisa, sim, da imprensa, desde que não force uma informação inútil ou puramente fraudulenta. O Brasil, por enquanto - segundo ela -, não entendeu ainda como se utiliza uma pesquisa. E os institutos brasileiros não têm um órgão normativo. Se quiserem reclamar, terão que fazê-lo "ao papa... ao bispo"... - no dizer bem-humorado de Viviane. Confira a nossa entrevista como um autêntico pesquisador.

Século Diário: - Fale-me um pouco da sua empresa de pesquisa. Quais são as conquistas e os desafios? Quais são os avanços?

Viviane: - Olha, eu atuo no campo de pesquisa tem, pelo menos, vinte e seis anos. Bastante tempo, né? É, porque eu fiz Sociologia e comecei a trabalhar com pesquisa quando eu ainda era estudante. Aqui, a empresa tem cinco anos. Há cinco anos, a gente trabalha com pesquisa. Temos feito pesquisa, direcionando mais para a área política. Fizemos uma direcionada à área de Transportes. Coordenamos a pesquisa nacional de Transportes, que foi feita para o governo federal. É uma pesquisa para estar definindo a política de transporte urbano no País. Nós fizemos isso no último ano de Fernando Henrique Cardoso. Foi uma pesquisa realizada em dez capitais brasileiras, foram seis mil entrevistas domiciliares, trabalhamos com cento e cinqüenta pesquisadores na rua, mais dez coordenadores, dez supervisores... Era uma equipe enorme! O resultado foi muito bom, foi muito positivo. O governo federal gostou muito do resultado. E, a partir da pesquisa, eles estavam elaborando e deixaram para o governo atual essa Política Nacional de Transporte Urbano. Isto foi, assim, a coisa mais importante que a gente fez na área de pesquisa. Por ser uma pesquisa nacional, de caráter nacional, e uma pesquisa que define, pela primeira vez, a política de transportes urbanos no Brasil. Define linhas gerais, não é?

- Virou referência, então...

- Virou uma referência. Tanto é que nós tentamos a licitação junto com uma empresa especializada em projetos de transporte. E nós ganhamos juntas essa licitação. E nós entramos em outras concorrências e, então, nós ganhamos. Ganhamos com uma pesquisa para ser realizada na Região Metropolitana de Salvador-BA e outra para a Região Metropolitana de Goiânia-GO. Só estamos esperando a ordem de serviço. Para mim, virou uma referência. E, para fazer essa pesquisa, eu tive que, realmente, fazer alguns cursos, atuar nessa área de transportes. Eu já venho atuando na área desde quando foi criada a concessionária da Rodovia do Sol. É na Rodosol que eu venho atuando. Já tinha feito pesquisa para a rodovia, trechos da rodovia... Participei de todo o trabalho de duplicação da rodovia. Nós fizemos todos os trabalhos, todas as pesquisas junto à população, vamos dizer... lindeira. Chamamos de lindeira a que mora no entorno da rodovia, e estivemos até definindo, realocando passarelas, passagens de níveis. Porque quem define a localização de passarelas é a área de Engenharia, mas tem todo um componente social. Na verdade, quem utiliza é a população. Então, há várias passarelas e nós as realocamos, em função dos levantamentos que nós fizemos, de estudos que nós fizemos e das pesquisas que foram realizadas, o levantamento de acidentes, do índice de atropelamentos com morte... E eu acho que ficou bem legal o trabalho. Então, eu venho atuando. Já fiz vários trabalhos para a Ceturb (Companhia de Transportes Urbanos) também. Inclusive, esse trabalho que eu recebi para participar da licitação foi a partir de uma pesquisa que eu fiz para a Ceturb, que o próprio governo federal usou na bibliografia da licitação. Foi assim que essa empresa, de São Paulo, 'me achou' e me chamou para a parceria. Eu nem sabia. Então, tinha sido considerada pelo governo federal uma pesquisa muito bem feita na Região Metropolitana de Médio Porte, que eles chamam, que é o nosso caso, a Região Metropolitana. Então, foi assim que eu participei da licitação nacional, ganhei e hoje sou considerada uma profissional da área de Transportes, da área de pesquisa em Transportes, que é uma especialização no Brasil.

- E as outras áreas? Vamos falar um pouco da área política, já que está fervendo neste ano eleitoral...

- Bom, na área de política eu atuo em pesquisa já há bastante tempo. Acho que há uns dezoito anos. Eu coordenei muitas pesquisas para candidatos a prefeito, candidatos a governador, candidatos a deputado estadual, deputado federal... Política, eu já venho trabalhando, já trabalhei em vários pleitos. Na pesquisa política, você tem duas ferramentas: a pesquisa de opinião, de intenção de voto, que é a pesquisa quantitativa. Você pode entrevistar em forma domiciliar ou em fluxo, na rua, que é normalmente a que se faz. Ou você pode fazer uma qualitativa. Então, qual a diferença das pesquisas? Acho que seria bom até colocar... A pesquisa quantitativa, que é de opinião, de intenção de voto, é uma pesquisa de opinião! Só existem questões objetivas. "Vota? Não vota? Vota por quê? Por que não vota?" Mede índice de rejeição, mede o índice de voto do candidato. Você pode fazer uma série de perguntas. Pode fazer uma avaliação objetiva da administração atual, quais são as áreas que saiu melhor, quais são áreas que se saiu pior, qual a área mais importante... Essas coisas bem objetivas na pesquisa 'quanti' você pega porque ela mede intenção de voto, ela mede o clima do eleitor. Você pega muito o clima do eleitor na quantitativa. Agora, qual o papel da qualitativa e qual a diferença? Por que se tem que fazer uma 'quali'? Porque a pesquisa qualitativa vai trabalhar para você as questões que a gente chama de subjetivas. Então, 'por que eu não voto em determinado candidato?' Vou pegar um exemplo... Por que é que Nilton Baiano tem uma penetração muito grande nas classes C, D e E? Na qualitativa, você pode descobrir o porquê.