Vitória (ES), edição de fim se semana
 
O conhecimento como essência
do desenvolvimento do mundo





Cristina Moura

"O novo não está no que é dito,
mas no acontecimento de sua volta."
(Michel Foucault)




Num universo de 2,5 mil empresas públicas e privadas brasileiras participantes de uma pesquisa realizada recentemente pelo Instituto ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e MKT do Brasil) de Responsabilidade Social (IRES), foi revelado um aumento de 61% do investimento em projetos sociais via organizações não governamentais - cerca de R$ 388.915,00 no ano de 2003.

Das empresas pesquisadas, 41% são grandes organizações, 50% de médio porte e 9% ainda em expansão. O questionário foi enviado a 7.180 empresas-alvo, que aderem cada vez mais às ações socialmente responsáveis. É a chamada "inteligência estratégica".

A Responsabilidade Social é uma das ferramentas mais utilizadas nas tomadas de decisões empresariais. Segundo a pesquisa, 97% delas a utilizam. Cerca de 96% das empresas entrevistadas possuem executivos da alta administração - especialistas envolvidos, inclusive com grupos de pesquisas e projetos de pós-graduação.

As empresas já entenderam, na verdade, que são capazes de investir na qualidade. Neste mesmo patamar de investimento, já provaram no mercado que vence quem está associado ao conhecimento. Como se comporta o complexo empresarial capixaba diante dessas exigências? E o trabalhador, em que nível está?

Nosso entrevistado deste final de semana fala sobre esse comportamento do mercado, que mostra ao trabalhador ainda repleto de controvérsias e com resquícios de uma sociedade que tenta "correr" para se recuperar de um processo capitalista ainda sem a própria identidade.

Arlindo Villaschi situa as grandes empresas do Espírito Santo - como a CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão), agora em fase de desnacionalização - dentro de uma perspectiva teórica, mas fundamentada em pesquisas desenvolvidas em torno do seu assunto de concentração, a "Inovação".

Numa das salas do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Ufes, Villaschi recebeu a equipe do Século Diário. Bem-humorado, de olhar claro e leve, sempre altivo e nunca pedante ao dissertar magistralmente sobre diversos assuntos em tão pouco tempo.

Atua como professor da graduação, especialmente das disciplinas Introdução à Economia e Economia da Inovação. Também é professor da Pós-graduação e do Mestrado na mesma área e coordenador do grupo de pesquisa Inovação e Desenvolvimento Capixaba.

Apesar de se orgulhar de um currículo acadêmico bem conceituado - com mestrado em Economia Regional na Universidade da Califórnia e doutorado em Economia da Inovação na Universidade de Londres - ele esbanja é simplicidade. Nascido em São Gabriel da Palha, Norte do Estado, já enveredou pela política estadual. Sim, ele tem um pé na vida pública. Mas... Aqui o assunto é outra política: a do conhecimento. Vamos conhecer, então, um pouco da alma inovadora do professor.

Século: - Qual a sua avaliação sobre o processo de desnacionalização da CST?

Foto: Apoena
  
- Adilson Villaschi: Na realidade, o processo de desnacionalização da CST faz parte do processo de desnacionalização do setor produtivo brasileiro que, obviamente, começou no início da década de oitenta, final da década de noventa, com o Programa Nacional de Desestatização, de onde o setor siderúrgico foi o primeiro a ser envolvido. Mas, posteriormente, ao longo da década de noventa - principalmente a partir de 1994 e 1995 - não só se aprofundou em termos de estatais, que saíram tanto dos setores tradicionais como o siderúrgico, depois mineração, depois telecomunicações, mas também acabou se alastrando por empresas privadas nacionais de reconhecida competência. Então, este não é um processo exclusivo da siderurgia e não é exclusivo das empresas estatais. Também abrangeu outros segmentos, inclusive segmentos muito competitivos na economia brasileira, como o varejo, a indústria de alimentos, a indústria de autopeças, etc. etc.

- O que essa avalanche da desnacionalização implica no processo ou nas relações de trabalho?

- Bem, com relação ao trabalho, pode naturalmente acelerar processos que já são estruturais de reorganização da economia mundial - o que está ocorrendo em absolutamente todos os segmentos em função das mudanças de base tecnológica da economia. Nós sabemos que hoje não estamos mais vivendo aquela fase de economia de escala. Na linha da produção, estamos vivendo à base da disseminação da difusão da micro-eletrônica e de todos os processos de base micro-eletrônica. Isto implica que o mundo do trabalho está completamente alterado, seja na siderurgia, seja na fotografia, no jornalismo, seja na pesquisa ou na forma de escrever. Então, isso não se restringe à Siderurgia. Obviamente, o que me preocupa enquanto estudioso de Inovação é como esse processo pode implicar num encurtamento das oportunidades para nós aprendermos mais ou pesquisarmos mais. Por exemplo: a nossa siderurgia - que partiu lá detrás - sem nenhuma competência, sem nenhuma autonomia brasileira, quando começou com a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), atingiu níveis muito interessantes com a implantação da CST, onde conseguimos determinar o que queríamos. Isto implicou em aprofundamento de áreas de pesquisa em universidades brasileiras, em associações com áreas de pesquisa em outros países... E eu não sei qual vai ser o efeito disso a partir da desnacionalização! Porque, uma coisa é ter um departamento de pesquisa local e que esteja atuando junto com universidades que você conhece e outra coisa é quando a matriz está fazendo pesquisa. Então, esta é uma questão que demandaria um estudo um pouquinho mais específico para saber qual vai ser o impacto nesta área de pesquisa. Isto implica, obviamente, num processo de competência em diversos segmentos. Então, eu não acho que a questão da desnacionalização vá acelerar, vá cair em mais desemprego do que se não fosse desnacionalizada. Eventualmente, pode acelerar esse processo, mas eu acho que este é um processo que está acontecendo em todos os segmentos, independentemente de onde se localiza a propriedade das ações.