"Não é ter saúde que é bom; não a ter é que é ruim."
(Abgar Renault-1903)
Primogênito dos 15 da família. De semblante leve, risonho, mas compenetrado na construção das frases. Tranqüilo. Bom de conversa, foi logo promovendo uma explicação simples, direta, sem rodeios. Aliás, Aloísio Falqueto pode ser considerado um exemplo de personificação da simplicidade.
Não ostenta os vários títulos que carrega. Mas, sempre ao ser questionado, explica com parcimônia, costurando o diálogo, fundamentando com a ciência que aprendeu a ruminar desde menino. O contato com a terra - com a natureza na mais pura forma - ou com o artesanato do plantio confeririu-lhe a tolerância com as adversidades. De família nascida em Venda Nova do Imigrante, região serrana do Estado, surgiu o obstinado estudante de Medicina na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).
À vontade com a entrevista, mas um tanto sem graça com a fotografia, desculpou-se: falta de hábito. Talvez, timidez. É mais acostumado com a pesquisa, com as salas de aula ou com outro tipo de público. Situação compreensível. Seu simpático e legítimo sangue italiano é demonstrado, de imediato, com o sotaque misturando um pouco dos ritmos. "Aprendi, desde criança, a conviver com os dois idiomas: o originado na terra dos meus familiares, a Itália, e o outro, onde nasci", relata.
Numa espécie de 'teologia' da libertação para a saúde, revela como encara os desafios da área pública e o choque natural entre o saber cultuado pela academia e aquele que deve ser transferido para a comunidade. Ainda na graduação, apaixonou-se pela Infectologia - área que lhe daria plenas convicções para seguir sua carreira e dedicar-se fielmente aos estudos. É professor de Epidemiologia e Doenças Infecciosas. Foi fundador do Mestrado em Biologia Animal - há dois anos - e nele ministra as disciplinas Epidemiologia e Entomologia de Vetores, especialmente na linha de Atenção à Saúde Coletiva.
O 'coletivo', na verdade, não está fora de Aloísio: é pensado desde que relembra a sua infância na família numerosa. Por isso, incorporou a preocupação pelo social. É tão preocupado, que - só para citar este exemplo - encabeçou um objeto de estudo com a sua orientanda, a bioquímica e professora da Emescam Haydêe Fonseca, sabendo que pode modificar a campanha da dengue em todo o território nacional.
Do dengue ou da dengue? Bom, ele é tão pacato que entende a linguagem comum: "O dengue, se nos lembrarmos do vetor. A dengue, se nos referirmos à doença. O importante é que as pessoas saibam do que se trata". Mas a especialidade de Falqueto é na leishmaniose visceral - doença que ainda amedronta a região noroeste do Espírito Santo ou o Vale do Rio Doce, especialmente a cidade de Pancas, com 60% dos casos. O clima quente seco e o relevo acidentado facilitam a reprodução do inseto transmissor, o Luitzomya - que encontra no cão o seu principal vetor. A doença está "adormecida", mas ainda preocupa e levanta a suspeita de animais silvestres como outros vetores.
De modo claro e aberto, como numa conversa de pai para filha, o médico vai explicando as suas conquistas - sem qualquer envaidecimento. O que deixa transparecer a grandeza dos seus objetivos - nascidos como as sementes que observava na roça, na sua adolescência. Para dissipar as dúvidas sobre doenças endêmicas, vamos dar nosso vôo pela entrevista como bons vetores - aqueles, que só se deixam transportar pela informação.
Século: - Como foi que o senhor começou a vida estudantil, até o interesse pela Medicina e, especialmente, pela Infectologia?
Foto: Bernardo Coutinho
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Aloísio Falqueto: - Eu nasci no interior, em Venda Nova do Imigrante. Naquela época, em 1960, fazíamos só escola primária, e aí não tínhamos parentes fora, nas cidades maiores, em Vitória. Então, a opção era ir para colégio interno. Estudei em colégio interno, durante vários anos. Passei por três colégios. Fiquei um ano em Santa Isabel, no município de Domingos Martins. Depois, fui para o município de Antônio Carlos, próximo à cidade de Barbacena, Minas Gerais. Em seguida, Belo Horizonte. Era uma seqüência. Todos os colégios eram internos. Daí, quando terminei o colegial da época, o segundo grau, foi que eu saí. Depois, fiquei um ano e meio trabalhando com o meu pai, na lavoura, em Venda Nova. Situação financeira um pouco difícil, então fiquei lá um ano e meio. Fiz seis meses de cursinho no Colégio Salesiano e - pronto! -, já decidido para Medicina mesmo. Passei da primeira vez. Fiz o curso na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e me formei em 1977. Então, estou indo já para vinte e sete anos de formado. E fiz cursos de pós-graduação. A residência médica, eu fiz aqui mesmo no Hospital das Clínicas. São dois anos... E foi a primeira turma! Na época, era em Clínica Médica. Não tínhamos ainda Infectologia. A partir da residência, o mestrado foi direcionado, então, para Infectologia: 'Doenças infecciosas e parasitárias', na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ali, no primeiro ano, o básico era feito junto com o pessoal do Instituto Oswaldo Cruz. Eram turmas juntas. Fazíamos o básico e neste 'básico' foi que eu comecei a me empolgar pela pesquisa científica. O movimento de pesquisa ou de envolvimento com o conhecimento foi tanto assim que eu decidi fazer o doutorado em Medicina Tropical, pelo mesmo instituto. Terminei em 1995. Daí, 'doenças infecciosas e parasitárias' e 'medicina tropical' praticamente são sinônimos.
- Fale, primeiro, por favor, do seu objeto de estudo do mestrado. Como surgiu e como se desenvolveu?
- Na época do mestrado, eu já tinha intenção de retornar ao Espírito Santo. Eu já era ligado à universidade, na parte mais externa. Então, a minha intenção era voltar e formar um grupo de pesquisa aqui. Escolhi um assunto ou uma endemia que depois pudesse dar continuidade às pesquisas. E foi, justamente, a Leishmaniose, o nosso carro-chefe. Até hoje, estudamos mais a Leishmaniose em colaboração com o Instituto Oswaldo Cruz. Aqui, já havia um pequeno grupo de pesquisa no Instituto de Patologia, especificamente da disciplina de Parasitologia, ao qual eu me juntei. Eles me deram apoio no início para eu desenvolver a tese de mestrado. Inclusive, um dos professores foi co-orientador da minha tese, o conhecido professor Coura, da UFRJ. Assim iniciei a carreira de pesquisa na área de Leishmaniose. Continuamos, até hoje, com diversos projetos.
- O senhor pode detalhar, então, o avanço das pesquisas?
- Sim, claro. No início, era um tema muito interessante porque comecei o mestrado em 1980. Então, era uma época em que havia uma dúvida muito grande sobre a questão da Leishmaniose. Ela é considerada uma doença típica das áreas de floresta. Só que havia... assim... observações estranhas no Estado porque havia sido proibida a caça, proibido o desmatamento... E, paradoxalmente, a Leishmaniose estava aumentando. O número de casos aumentava, cada vez mais, no Espírito Santo. As pessoas não caçavam mais por causa da proibição. O desmatamento também já estava proibido. A doença atingia mulheres, crianças 'de baixa idade', pessoas que não freqüentavam a mata durante a noite, quando se dá a transmissão. Então, nós achamos muito estranho isso, esse efeito paradoxal do aumento de casos, na década de oitenta. Levantamos a hipótese de que a doença teria modificado suas características por causa da modificação ambiental promovida pelo homem. Então, o que aconteceu - e foi exatamente o que nós provamos na tese - foi que a Leishmania, o parasita, havia se adaptado aos cães domésticos, e algumas espécies de insetos que viviam na mata passaram a procriar em volta das casas. Então, ali, se fechou um ciclo domiciliar de transmissão. Quer dizer, os insetos se criavam em volta das casas, os cães com a doença. Então, mantinham o parasita circulando por aí e as pessoas se infectavam dentro da própria casa.