A roda de bisca na casa do Tatão Margoso era famosa. Depois do trabalho, e nos finais de semana, a varanda da casa ficava entupida de gente, entre jogadores e os perus de roda, que, se dona menina e sue menino ainda não sabem, são aquelas pessoas especialistas e dar palpite em jogo dos outros.
Cabe também esclarecer que a bisca é um jogo em que não entram os 8, os 9 e os 10, permanecendo as cartas de ás a 7 e as figuras - reis, valetes e damas. O ideal é jogarem 4 pessoas, uma dupla contra outra. É um jogo muito popular no interior de Minas, onde se passa esta estória.
Então, a casa do Tatão era freqüentada por muita gente. Tudo homem, é claro, que naquela época não havia espaço para mulheres em rodas de jogo, exceto naquelas rodinhas familiares onde pais, filhos e outros familiares às vezes se distraem à mesa de jantar.
Maria Delícia, mulher de Margoso, já tinha desistido de reclamar, de ameaçar a qualquer dia arrumar os panos e "fazer u´a madrugada", que a casa parecia quartel, maçonaria, aquela catinga de cueca, nunca se viu tanto homem à toa, se soubesse que era assim não casava, ô arrependimento. Ia levando, como tantos vão levando. Às vezes, irritada demais, fazia greve de sexo, e então a roda de bisca fechava por uns dias. Depois tudo voltava ao batido de sempre.
Mas aí apareceu Soninha, acompanhando um namorado que logo a deixou. Era diferente, criada em cidade grande, um shortinho aparecendo a popa que fez o próprio Margoso comentar:
-Se espirrar, tá pelada.
Soninha gostou do jogo, deixou o namorado, virou freqüentadora da roda, a única mulher. Delícia, em suas idas e vindas pro quintal, não sentia qualquer dificuldade em demonstrar sua antipatia pela invasora. Disparava farpas:
-Boa bisca não é, essa sirigaita da bunda de fora.
E não perdia a ocasião de ameaçar os homens casados que iam ao jogo e pareciam fascinados com a novidade:
-Canário belga que bebe com joão-de-barro amanhece servente de pedreiro.
Soninha, impetuosa e arrogante, fingia que não percebia. E deu pra fazer graça logo pro Margoso. Aí não prestou.
A gota d´água foi um cravo que Soninha tinha nas costas. Margoso achou de espremer, a pedido da sirigaita. Delícia ia passando, viu, entrou em casa num pé e saiu no outro, um chicote na mão. A primeira lambada estourou no meio da cara de Margoso, fez um lanho. Merejou sangue. A segunda foi na orelha. Margoso, que tinha tomado umas pingas a mais do que de costume, falseou, caiu. As tiras de couro trançado procuraram de novo seu rosto. O jeito foi implorar:
-Socorro!
E a Delícia, que não gostava do jogo mas que já absorvera o jargão:
-Pede socorro não, cachorro. Quem tem bisca pede é trunfo.
A bisca, no caso a Soninha, abandonou o baralho e pegou o primeiro trem na direção do nunca mais. Depois de passar álcool canforado nos ferimentos do marido, a Delícia, toda decidida, escreveu de próprio punho o cartaz que virou uma espécie de estatuto da roda de bisca do Margoso:
"1-Bisca é trem de ome.
2-Proibido mulé."
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