Vitória (ES), edição de fim se semana
 
O palco e a tela como expressão máxima de vida





Jeanne Bilich

"Que recebam bom tratamento os atores,
pois são os epítomes e as breves
crônicas do tempo" ("Hamlet", Shakespeare, 1564-1616)


Foto: Bernardo Coutinho
  
Do menino interpretando filmes de 'mocinho e bandido' refletido no grande espelho da barbearia do pai, em São Torquato, às telas de cinema e televisão - conjugadas com vitoriosas atuações nos palcos nacionais e europeus -, Eliezer de Almeida conta neste final de semana a Século Diário sua meteórica carreira de ator. Trajetória bruscamente interrompida em 1994, às vésperas do lançamento do filme "Lamarca", conseqüência do gravíssimo acidente que lhe roubou temporariamente a memória.

A consagração nacional veio com dois filmes do cineasta Sérgio Resende: "Lamarca", onde interpreta o companheiro do capitão, Zequinha, que lhe rendeu o Prêmio Chico Botelho, categoria Melhor Ator Coadjuvante em 1995, e mais tarde, com Guerra de Canudos. Seguiram-se expressivas interpretações em filmes de Tizuka Yamazaki e Paulo Thiago, além de papéis de destaque nas novelas Pantanal, Explode Coração, O Rei do Gado e Mandacaru.

Sua experiência européia com o Teatro Antropológico permitiu-lhe tempos depois atuar como professor de Artes Cênicas em segmentos sociais distintos como escolas, igrejas e comunidades. Desde o ano 2000, Eliezer de Almeida vem se dedicando à Arte Cênica Terapêutica, trabalho que desenvolve com os portadores de deficiências mentais que freqüentam o Caps - Centro de Atenção Psicossocial da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória, na Ilha de Santa Maria.

Nesta conversa, o ator capixaba de teatro, cinema e televisão revela também sua nova 'visão-de-mundo', adquirida após a traumática experiência do acidente de moto que o levou ao coma por dois meses, seguido de um longo período de internação no Hospital Sara Kubistchek, em Brasília. Submeteu-se, então, a um longo reaprendizado: andar, falar e até mesmo reconhecer-se a si próprio com a lenta e gradual recuperação da memória.

Século: - Onde você nasceu e como foi sua infância?

Eliezer de Almeida: - Bem, meu nome completo é Eliezer de Almeida Santos. Eliezer de Almeida surgiu no próprio percurso do meu envolvimento com a arte. Nasci no dia 6 de janeiro - Dia de Reis, não é? - de 1960, em São Torquato. Sou filho de um barbeiro, o seu Aviz, e de dona Penha, uma família grande com 10 filhos. Considero uma felicidade ter sido filho do seu Aviz, visto ter ele uma vivência social muito rica. Meu pai era dono de uma visão sociopolítica ampla; na verdade, foi fiel seguidor do ideário de Luis Carlos Prestes. E quando ele veio para Vitória procedente de Aracuí, Castelo - enquanto minha mãe veio de Baunilha, Colatina -, aqui se encontraram e casaram-se. Inicialmente, meu pai fixou residência em Jucutuquara e mais tarde transferiu-se para São Torquato, bairro onde podia melhor difundir o pensamento marxista.

- E a barbearia era um bom ponto para esse trabalho doutrinário?

- Bastante! Meu pai havia sido funcionário da Cesan mas quando a direção da empresa governamental constatou ser ele comunista, achou por bem desligar aquele empregado. Então ele montou a barbearia. Cresci observando a trajetória do meu pai e convivia com essa militância de maneira muito natural. Fui uma criança aficionada por cinema. Aliás, São Torquato nessa época contava com o Cine Capixaba, considerado uma das melhores telas do Espírito Santo - como o próprio crítico de cinema Amylton de Almeida chegou certa vez a afirmar. Finais de semana para mim significavam matinês no Cine Capixaba. Ora, essa formação minha foi muito boa porque estabeleci contato com a arte cinematográfica muito cedo. Aliás, também comecei a cantar e a interpretar em comunidades ainda bem criança. Minha vivência sociocultural foi muito rica! O fato de hoje estar fazendo personagens históricos - sempre me pergunto isso - seria na verdade uma coincidência ou não?

- Você afirmou que em São Torquato, no decorrer da sua infância e adolescência - anos 70, portanto - havia uma grande efervescência cultural. Por favor, fale sobre isso.

- Bem, pelo fato de ser um bairro próximo a Vitória era passagem obrigatória para quantos viessem à Capital. São Torquato recebia os trens e também a chegada dos que vinham do Rio de Janeiro, passando pelas Cinco Pontes. Ora, muitos daqueles que chegavam acabavam ficando por ali mesmo. São Torquato também ficou conhecido como bairro de prostituição - tinha o beco da Laura -, na verdade era um bairro eclético. E havia ainda o bar 'sem porta', ou seja, não fechava nunca. Darlene Glória, a grande atriz, que nasceu em São José do Calçado, chegou a morar lá. Não só o Altemar Dutra, não é? (risos) Dos anos 70 em diante, eu percebia claramente isso... Os bares tocavam Altemar Dutra direto e quando o Altemar Dutra visitava o bairro, com aquele carro maravilhoso, eu e outras crianças corríamos atrás do veículo para ter o privilégio de tocar com as mãos no carro do grande artista. Essa coisa de criança... Cresci lendo, vendo e ouvindo cultura! E entre o que lia havia muitos jornais esquerdistas, à época clandestinos - afinal, estávamos vivendo na ditadura - e, muitas vezes, lia e não entendia nada... Aliás, sequer entendia o que era ditadura! Para mim, representava só um nome que achava feio. Quando eu ouvia a referência 'ele é filho de comunista', eu acredita que era o equivalente a "ele é filho da p...." Hoje, considero essa referência um privilégio. Que felicidade ser chamado de filho de comunista!

- E como foi a sua estréia no mundo das artes?

- Minha estréia, na verdade, deu-se quando eu tinha 10 anos. Foi no Programa Boris Castro, na TV Vitória, que então funcionava no Edifício Moisés, no Centro de Vitória. Eu cantava sempre na escola e no bairro. Devido a minha ousadia, inscrevi-me no Programa Boris Castro e cantei uma música do Tim Maia. Repeti a música umas três vezes. E tive a felicidade de ser premiado. Ganhei um saquinho de leite com sabor (risos)... Para mim, na época, era um prêmio e tanto! (risos) E as pessoas que me viram na televisão saíram a dizer que eu era um menino prodígio. Eu? Superempolgado porque, na minha conceituação infantil, ser menino prodígio equivalia a ser um Batman ou um Robin... (risos)

- E essa premiação foi um estímulo, uma alavanca para vôos maiores?

- É... Foi um estímulo mas meu maior estímulo era mesmo em casa. Pela vivência e convivência com meu pai, pelo que eu via e lia e ainda pelo fato de estar circulando sempre pelos meios culturais daquela época. O que eu via nas salas de cinema tentava reproduzir no grande espelho da barbearia do meu pai ou mesmo no quintal da minha casa e até pelas ruas do bairro.

- Como era esse representar para o espelho da barbearia?

- O espelho, na verdade, era o meu público. Já explico: os clientes da barbearia ficavam a me observar pelo espelho da barbearia.... (risos). Os clientes ficavam me assistindo, me acompanhando pelo espelho e, para mim, o espelho representava a tela do cinema. A barbearia do meu pai tinha um espelho enorme - que tomava a parede toda - e que depois que ele morreu foi vendido. Sabe? Eu adoraria localizar esse espelho. Certamente ele deve estar em algum lugar... E para mim ele é muito, muito especial! A minha primeira tela foi realmente esse espelho da barbearia. E foi muito legal, porque eu fazia, criava e inventava coisas... E sequer sabia, não tinha consciência da importância desse aprendizado. Mas ele foi tão essencial para mim que até hoje aqueles jogos de interpretação infantil se refletem no meu trabalho profissional. Só depois de adulto é que a gente consegue enxergar com clareza a importância e o peso da infância na trajetória de nossa vida. Mas a minha primeira aparição mesmo, mais formal, dentro do contexto do teatro, deu-se no Teatro da SCAV - Sociedade de Cultura Artística de Vitória entre 1979 e 1980. Tinha, então, 19 anos. Luiz Tadeu Teixeira estava convidando pessoas interessadas em participar de um grupo para fazer teatro e, então, candidatei-me. Claro que eu já fazia teatro antes, teatro de rua, trabalhava nas comunidades. Nessa ocasião, veio o Lauro Góes para ser o diretor da montagem "Don Juan", de Molière. Os ensaios eram abertos.... E o interessante é que havia sempre público para acompanhar esses ensaios.

- E onde eram realizadas essas oficinas?

- No próprio teatro da SCAV. E o teatro estava até em condições ruins, deteriorado, já havia inclusive sido palco para "Antígona", do próprio Luiz Tadeu Teixeira que eu havia assistido. Na SCAV, além do contato com o Luiz Tadeu e o Lauro Góes, estabeleci também conhecimento com a Sylvia Ortoff e outros mais... No entanto, o maior prazer para mim nesse 'workshop' foi haver conhecido o Paulo Autran. Ele foi fazer uma dissertação para nós - na ocasião, estava em Vitória encenando "Pato com Laranja" - e dele recebi um incentivo muito grande! Sempre me interessei muito pela figura do Paulo Autran e ele me passou importantes referências para a arte de bem interpretar. Até hoje eu o considero 'padrinho' da minha carreira artística. Autran, com suas palavras de estímulo, foi de fundamental importância para eu seguir em frente, prosseguir perseguindo uma carreira artística.