"Existem atualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única exceção é um símio pelado que chama a si mesmo de Homo Sapiens"
(Desmond Morris, zoólogo inglês, em
"O macaco nu - um estudo do animal humano")
A classificação "criticamente em perigo" é do próprio Ibama e integra um projeto que estuda a situação atual dos primatas ameaçados de extinção na Mata Atlântica. Dentre eles, está o macaco muriqui, o maior primata das Américas, um dos mais ameaçados do mundo.
Foto: Apoena
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Recentemente foram localizados 130 exemplares da espécie nos fragmentos da Mata Atlântica em Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo. Uma curiosidade: os pesquisadores acreditam que a preservação desses primatas em Santa Maria de Jetibá deveu-se, em grande parte, aos descendentes de pomeranos que sempre condenaram a caça em suas matas.
O Projeto Muriqui vem sendo desenvolvido pelo Ipema - Instituto de Pesquisas da Mata Atlântica, uma Ong capixaba sem fins lucrativos, fundada em agosto de 1993 por um grupo de cientistas e conservacionistas que passou a implementar uma série de atividades voltadas à conservação da Mata Atlântica e seus ecossistemas. Atualmente, os fragmentos de Mata Atlântica - que, no passado, recobria totalmente o território do Espírito Santo - não ocupam mais que 8% do solo capixaba.
Nesses mais de 10 anos de atividade, o Ipema já concluiu seis projetos de Pesquisa e Conservação da Mata Atlântica e, no momento, dedica-se a outros nove que estão em andamento. Dentre eles, destaca-se o Projeto Muriqui, que integra o Programa para Conservação da Biodiversidade da Mata Atlântica, prevendo - quando da sua conclusão - o estabelecimento de uma linha de trabalho destinada à aplicação prática do conhecimento científico. É pretensão adotar-se, por exemplo, um Manejo para Conservação do Muriqui na região serrana do Espírito Santo, guardando-se a preocupação de harmonia plena com as tendências sócio-econômicas próprias da região. Na verdade, busca-se implementar propostas que representem uma nova alternativa para a geração de renda da população local.
O diretor-geral do Ipema, professor Sérgio Lucena Mendes, 43 anos, capixaba nascido em Vitória, biólogo formado pela Ufes, mestre em Ecologia pela UnB (Universidade de Brasília), doutor em Ecologia pela Unicamp (Universidade de Campinas) e professor de Zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo, fala a Século Diário sobre o desenvolvimento do Projeto Muriqui e as peculiaridades desse primata, além de enfatizar os projetos de educação ambiental que estão sendo desenvolvidos na região serrana e até mesmo, em futuro próximo, a adoção de um Plano Piloto de Turismo Científico.
Século: - O Ipema está voltado para quais tipos de projetos?
Sérgio Lucena: - Bem, na verdade, o Ipema é uma Ong voltada para a pesquisa e conservação da Mata Atlântica. Está sediada em Vitória e, em breve, estará completando 11 anos de atividade, período em que desenvolveu vários projetos de conservação ligados à fauna e flora no Estado, inclusive abrangendo também estados vizinhos como a Bahia e Minas Gerais. Esta Ong foi organizada em 1993 por um grupo de pesquisadores que estavam trabalhando com a Mata Atlântica no Espírito Santo. Assim, reunimos esse grupo de estudiosos e chegamos à conclusão que nós precisávamos de uma instituição um pouco mais ágil, uma instituição não governamental, que pudesse atender a certas demandas de pesquisas, captar recursos com mais facilidade e agilidade. Ocorreu-nos, então, a idéia de criar uma Ong com um perfil mais técnico e científico. Na época, contactamos colegas de outros estados, convidando-os a ser membros fundadores do Ipema. Desde então, vimos trabalhando com alguns projetos que foram financiados por instituições públicas e privadas. Como, por exemplo, a Fundação Boticário, a Conservação Internacional do Brasil e até o próprio Ministério do Meio Ambiente. No momento, estamos contando com recursos provenientes de um Fundo Internacional para Conservação da Mata Atlântica. Assim, a Ong tem essa finalidade de apresentar um pouco mais de agilidade e flexibilidade no que concerne à captação de recursos do que os originários de órgãos públicos e estatais.
- Parece-me que o senhor está trabalhando, no momento, na elaboração de uma listagem apontando espécimes da fauna e flora em risco de extinção. É isso?
- É verdade! O Ipema, justamente nesse projeto financiado pelo Fundo Internacional para os Ecossistemas Críticos, teve aprovado um projeto que objetiva três ações distintas: a primeira refere-se à elaboração de uma lista de fauna e flora ameaçadas de extinção no Espírito Santo; a segunda diz respeito a uma avaliação das unidades de conservação estaduais e federais no Estado; e, finalmente, a terceira, consiste na definição das áreas prioritárias para a conservação da Mata Atlântica no Espírito Santo. Projeto que está em desenvolvimento, sendo que a lista de fauna e flora que está sendo elaborada agora deverá ser apresentada no próximo mês de julho ou agosto, quando estaremos promovendo um workshop para fechar essa lista de fauna e flora ameaçadas de extinção.
- Essas áreas consideradas prioritárias já contam pelo menos com um esboço indicativo de onde se localizam?
- Sim, nós vamos partir das áreas prioritárias que já foram definidas em um workshop nacional para a Mata Atlântica, ocorrido em 1999, que contou com o patrocínio do Ministério do Meio Ambiente e que incluiu áreas localizadas aqui do Espírito Santo. Então, essas são as áreas preliminares. Caberá a nós detalharmos os limites dessas áreas em nível estadual e até propormos novas áreas que, eventualmente, possam ser importantes para a conservação da Mata Atlântica no Espírito Santo e que possam não estar incluídas nessa lista nacional.
- O macaco muriqui faz parte de qual projeto especificamente?
- Bem, uma das prioridades do Ipema é a pesquisa com fauna e flora ameaçadas de extinção. Não consiste só em elaborar uma lista não, mas também partir para o desenvolvimento de linhas de ação envolvendo trabalhos de pesquisa e conservação. E o Muriqui - conhecido como Brachyteles hypoxanthus para os cientistas - é um dos 25 primatas mais ameaçados de extinção em todo o mundo. Não só no Brasil. Trata-se de uma espécie típica da Mata Atlântica - ele só ocorre na região da Mata Atlântica - e que atualmente está restrita a pequenas populações nos estados de Minas e Espírito Santo. Então, em 2001 redescobrimos algumas populações dessa espécie no município de Santa Maria do Jetibá e propusemos um projeto ao Ministério do Meio Ambiente, especificamente no programa Pró-Bio, que visava a pesquisar a espécie objetivando até mesmo o seu manejo para a conservação. E, felizmente, conseguimos recursos para isso. Assim, trabalhamos nesse primeiro edital do Pró-Bio nos anos de 2002 e 2003 e agora conseguimos renovar o projeto por mais 18 meses. Estamos desenvolvendo não só ações de pesquisa, mas também de conservação da espécie na região serrana do Espírito Santo, com ênfase em Santa Maria do Jetibá.