Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Um pomerano amante de suas raízes e tradições





Jeanne Bilich

"A pátria é nos lugares onde a alma está acorrentada" (Voltaire - 1694/1778)

Foto: Bernardo Coutinho
  
Neste ano de 2004, o trabalho de resgate e valorização da cultura pomerana capixaba completa 20 anos. Tudo começou no dia 25 de outubro de 1984, em Domingos Martins, com a fundação do grupo de danças alemãs Bergfreund, com Joel Velten, que desencadeou uma série de grupos em todo o Estado.

Esta informação consta de um artigo publicado recentemente na imprensa capixaba assinado pelo professor Jorge Küster Jacob, o qual recebeu o título de "Tradição no isolamento". Aliás, quem acordou cedo no último dia 10, vencendo a tradicional preguiça das segundas-feiras, e ligou a televisão, deliciou-se com as belas imagens deste grupo de dança pomerano exibidas em uma caprichada reportagem, veiculada em rede nacional, que marcou o encerramento do Jornal do Campo, da Rede Globo. A matéria encheu a tela de beleza, cores e música. O telespectador do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul deste país de dimensão continental certamente ficou convicto de que um pedaço da Pomerânia mantém-se vivo e pulsante no enclave montanhoso do Espírito Santo.

Esse árduo trabalho de resgate e valorização da cultura pomerana no Espírito Santo possui na liderança um pequeno e seleto grupo de descendentes dos primeiros imigrantes pomeranos que aqui chegaram em 1859. O grupo destaca-se não só pela apaixonada atuação como possui uma sólida formação acadêmica, conjugada com a atividade incessante de pesquisa voltada para o resgate e valorização das raízes históricas e tradições. Sua mais expressiva liderança é o sociólogo e professor Jorge Küster Jacob, atualmente secretário de Educação e Cultura de Vila Pavão. Küster é também o responsável pela publicação bimestral do "Jornal Pommerblad", editado em seu próprio município, e detentor de uma peculiaridade: circula em todas as comunidades germânicas espalhadas pelo Brasil, de Rondônia ao Rio Grande do Sul. Interessante, também, é observar-se que a língua pomerana, de tradição oral, passou a contar não só com este jornal, mas já é possuidora de uma bibliografia gráfica específica: livros, revistas, cartilhas, filmes, documentários e até um dicionário que se encontra em fase de elaboração. Mais: a partir de 2005 - segundo o antropólogo e lingüista Ismael Tressmann, responsável pela elaboração do dicionário e também um ativista do grupo -, a língua pomerana passará a ser ensinada nas escolas dos municípios onde a etnia é marcante, como, por exemplo, em Pancas, Vila Pavão, Santa Maria de Jetibá, Santa Leopoldina e Domingos Martins.

Para sabermos um pouco mais sobre a cultura pomerana, Século Diário conversou com o sociólogo e professor Jorge Küster Jacob:

Século: - O senhor poderia nos fornecer seus dados biográficos e um breve histórico da sua infância e adolescência?

Jorge Küster Jacob: - Nasci em Vila Pavão (ES) no dia 17 de março de 1958. Sou filho dos descendentes pomeranos Amália Küster e Sefridt Jacob. Iniciei o ensino fundamental em Vila Pavão, concluindo parte no Rio Grande do Sul (Panambi e Ivoti) e, mais tarde, cursei a faculdade da Umisinos - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, também no Rio Grande do Sul. Fiz também pós-graduação em Planejamento de Ensino. Já ministrei aulas de sociologia na antiga Ceunes - Centro Universitário do Norte do Espírito Santo (uma extensão da Ufes em Nova Venécia) e na Univen - Universidade Nova Venécia. Publiquei dois livros sobre a questão pomerana no Espírito Santo e alguns artigos que estão inseridos em outros livros e publicações diversas. Atualmente ocupo o cargo de secretário municipal de Educação e Cultura de Vila Pavão, além de ser o editor do "Jornal Pommerblad".

- O senhor é, portanto, um sociólogo por formação acadêmica e conseqüentemente um estudioso de grupamentos humanos. Essa vocação para a sociologia despontou na sua juventude ou, ao contrário, trata-se de uma decorrência natural de suas raízes ancestrais plantadas no grupo étnico pomerano?

- Interessante é que fui para o Rio Grande do Sul como descendente de alemães e voltei como pomerano. Eu estava cursando sociologia na Unisinos, que tem um viés muito político, quando o professor e antropólogo Pedro Ignácio Schmitz, no dia da apresentação, ficou surpreso ao deparar-se com um descendente germânico capixaba em sua aula. Quando afirmei que era descendente de alemães, ele disse: 'Você é muito mais, você é pomerano'. Desde esse dia, comecei a me interessar pela história e cultura do meu povo, que aqui no Espírito Santo praticamente nada tinha de pesquisa. Foi quando comecei a fotografar, registrar, entrevistar pessoas mais idosas de Vila Pavão e do Estado sobre a história e os costumes pomeranos.

- Quais os motivos determinantes que levaram os pomeranos a imigrar para o Espírito Santo? Quando eles aqui chegaram?

- Os pomeranos chegaram aqui em 1859, muito embora já tivéssemos alemães (os hunrucker de Domingos Martins) instalados no Espírito Santo desde 1847. O governo brasileiro criou aqui colônias para receber imigrantes europeus quando deveria ter concentrado, por questões culturais e climáticas, essa imigração no Sul do País. Os fatores que determinaram essa escolha foram mais políticos do que de fato a colonização. Os espaços dos índios e depois dos negros com a sua libertação deveriam ter sido ocupados para formar uma classe média. E havia também objetivos racistas, isto é, o de embranquecer a nossa população. As nossas terras férteis também motivaram a vinda de outros europeus para o Estado, posteriormente.

- O senhor poderia nos explicar quais fatores contribuíram de forma decisiva para a preservação da identidade cultural do povo pomerano em solo capixaba?

- Dos povos germânicos que imigraram para o Espírito Santo, os pomeranos vieram em grande maioria. Como os povos germânicos inicialmente não se misturavam com os outros grupos étnicos como os portugueses, negros, índios e italianos, houve uma aculturação interna onde os pomeranos impuseram a sua identidade cultural. Tudo isso somado ao isolamento imposto pelo governo brasileiro, que os localizou entre serras, montanhas e distantes dos grandes centros comerciais. E assim os imigrantes conseguiram manter por mais de um século a sua identidade cultural ainda muito nativa. Quando vieram para o Espírito Santo, em 1859, a Prússia (atual Alemanha) tinha 36 províncias e cada uma tinha a sua língua, e com ela, e só através dela, suas manifestações culturais. A cultura é a alma do povo e a religião, o coração da cultura. Um povo sem cultura é um povo sem alma. Com a unificação da Alemanha em 1871, o imperador alemão impôs uma só língua e com ela toda uma identidade cultural. A língua, as culturas dos outros povos étnicos desapareceram, dando lugar à atual cultura alemã unificada. Como na época da unificação, os pomeranos capixabas estavam aqui isolados, mantiveram sua identidade cultural até os dias presentes, como a língua, e com ela uma série de manifestações típicas da antiga Província da Pomerânia da Prússia. O isolamento proporcionado pelo Estado e também pelo próprio pomerano veio de encontro a toda uma história de perseguição, humilhação e desapropriação sofrida pelo povo pomerano desde a sua pré-história ao longo do mar Báltico, que sempre foi um campo de guerras entre as grandes nações européias. Por isso o pomerano ainda hoje é tímido, quieto, mas muito determinado nas suas buscas e alegre nas suas manifestações culturais.