"De novo me pergunto:
Quem sou e o que faço?
....................................
Mas com certeza não sou
Tudo aquilo que não faço.
(Adilson Vilaça)
fantástico! Capturar esse caudal de idéias aprisionando-o em códigos gráficos. Letras, palavras, frases e parágrafos. Textos. Sucessão de páginas que se avolumam. Livros. Contos, novelas e romances. Poesia em prosa que se derrama em 19 obras ficcionais. O fluir da imaginação na arte literária de um escritor-mestre. Assim é a escrita de Adilson Vilaça. Riqueza de recursos estilísticos, só encontrável em um amante da língua. Ler para crer!
Adilson Vilaça nasceu em Cuparaque (MG) em 1º de agosto de 1956. Em meados dos anos 70, radicou-se em Vitória, passando a exercer os ofícios de jornalista e professor universitário. Na década seguinte, conquistou os primeiros lugares em três importantes concursos literários. É membro da Comissão Espírito-santense de Folclore. Aliás, o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo conferiu-lhe o Prêmio Almeida Cousin pelo conjunto da sua obra. Primorosamente contextualizada - histórica, antropológica e literariamente - no cenário capixaba.
Para conhecermos a trajetória de vida deste escritor-mestre fomos encontrá-lo em seu próprio ambiente privado. Recheado de pilhas de livros que, como trepadeiras, enroscam-se caprichosamente rente às paredes, alçando-se ao teto. Peças do artesanato capixaba, carrilhões, fotos antigas emolduradas e um mobiliário do século XIX dizem da sensibilidade dos donos. E aconchegam, de imediato, o visitante. Cristina Dadalto, mais que companheira, cúmplice de jornada de vida, faz-se solícita. Aqui o registro da conversa, pontuada de reminiscências que, por vezes, fez luzir os olhos do entrevistado de Século Diário deste final de semana.
Século: - O prazer da escrita. Quando ocorreu a descoberta?
Foto: Gustavo Louzada
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Vilaça: - Bem, eu acho que o prazer da escrita teve um nascimento muito antigo. Tive uma avó contadora de histórias. Da minha linha paterna, sou descendente de krenak, e essa minha avó índia vivia a contar histórias. Talvez até mesmo em função da oralidade natural de um povo que não tem escrita. Era comum a avó reunir os netos para contar histórias.... os outros foram crescendo e saindo de perto da avó. Quanto a mim, continuei ali rente e aí transpus, no período da escola, um pouco dessa oralidade para a leitura. Tornei-me um grande ouvidor de histórias e um grande leitor. Estava aí gestado o escritor. Mas só fui efetivamente escrever quando cursava jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo. O motivo foi um concurso literário em 1980. Ocorreu-me a idéia de participar: 'Ah... vou me inscrever nesse concurso'. Até então nunca havia escrito. Nem prosa, nem poema ou coisa alguma. Assim, só escrevi efetivamente para esse concurso. Três contos. E me descobri como escritor. Porque até então eu me considerava apenas um grande leitor e ouvidor de histórias. Foi uma revelação essa descoberta! Mas... acho que até hoje continuo sendo melhor leitor (risos).
- Qual o cenário geográfico onde você desenvolveu a arte da observação e do bem ouvir?
- Nós morávamos em Ecoporanga. Toda a família, tanto da parte de pai como de mãe, havia se mudado para o noroeste capixaba e para a vizinhança mineira. O território era contestado. Em Ecoporanga havia cartórios dos dois estados, Minas e Espírito Santo. A população podia escolher em qual desejava fazer os registros. Havia também as polícias de ambos os estados, uma 'amolando' a outra, o que sempre dava confusão. E tudo isso se desenrolava ali, naquele cenário de Ecoporanga, que nessa época possuía muitas matarias. E em uma região, no Cotaxé, situava-se o enclave amazônico - aliás, só muitos anos depois é que vim a saber disso, lendo o livro do Ruschi - com uma mata toda especial e que, infelizmente, hoje nada mais restou. Só tem capim e boi... Então, era esse o cenário: a chegada de muitos posseiros formando uma frente de colonização mineira, enquanto o Espírito Santo, mais 'esperto', dominava as instituições... mandou padre, tabelião e até juiz de direito itinerante. A cidade nascia naquele mata, eu ia ouvindo as histórias fantásticas contadas pela minha avó, enquanto observava o turbilhão de acontecimentos ao meu redor, que se desenrolava no dia-a-dia. As histórias que circulavam sobre a tentativa de se criar o Estado de União de Jeová - fato que ocorreu dois anos antes da minha chegada - e, quando eu tinha 4 anos, estourou a revolta camponesa, que iria durar de 1959 a 1962. Por um desses acasos da vida, eu morava bem em frente à igreja, à casa de saúde e ao Fórum. Assim, tinha a oportunidade de presenciar mortes, julgamentos, batizados e cerimônias de extrema-unção. Tudo acontecia ali naquele pequeno pedaço. Quando havia júri sempre se recorria a uma criança para sortear os jurados. Lá estava eu. Assistia aos julgamentos - a despeito de não compreender muito bem - observando no banco dos réus vários líderes dos posseiros. Também compunha o meu cotidiano a brutalidade das cenas em que as vítimas assassinadas ficavam à porta da igreja ou na casa de saúde, trazidas do interior. E houve um período, em 1962, em que ocorreram muitas batalhas, com registro de mortes de ambos os lados: soldados e posseiros. E, muitas vezes, tratava-se de pessoas do círculo de relações de minha família, até mesmo compadres. Criança - você sabe - não consegue entender tudo direito... Um compadre do meu pai matou o outro compadre.
Foto: Gustavo Louzada
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Hoje morria o compadre posseiro, amanhã aparecia morto o compadre soldado. Meu pai era um pequeno comerciante da vila e todo esse mundo girava à minha volta. Eu era uma criança que pouco dormia, às 4 da manhã já estava com meu pai na venda para servir o café. Às 10 da noite - e então isso era um horário muito avançado - eu ficava acordado com ele para 'assistir' pelo rádio (risos) "A Volta ao Mundo em 80 Dias", do Júlio Verne, "Os Irmãos Karamazov"... Enfim, era uma outra época, não é? (risos). Observe: a minha avó de um lado, a guerra do outro, as referências do lugar em que nasci, as novelas e seriados da Rádio Mayrink Veiga... Todo esse 'caldo' compôs o nascimento do Adilson Vilaça. Que procurou ter uma percepção do mundo, intuindo tratar-se de algo muito complexo inserido em um contexto ainda mais amplo. E eu, menino, buscando acompanhar tudo. Quando não estava presenciando ou ouvindo isto ou aquilo, punha-me a ler...
- A leitura ocupou parte importante na sua infância?
- Bem, devido a uma série de problemas de saúde na infância, eu passei a ser considerado assim como uma espécie de 'morto ambulante'. Então, diziam eles, 'não morreu neste mês, sobreviveu para o outro'. E todo o ciclo se repetia. Padeci uma sucessão de doenças na infância. A conseqüência disso é que me tornei uma criança bem solitária. No meio daquilo tudo, eu não tinha a companhia de outras crianças. E criança precisa de amigos, da companhia de outras crianças. Com a saúde debilitada, minhas 'companhias' foram os acontecimentos.