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Foto: Rogério Medeiros
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| Coxi com o que restou da sua família na região
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Manoel Floretino, de 84 anos de idade, o Coxi, é a figura padrão dos quilombolas do norte do Estado: viveu com os avós na ocupação da área, com os pais na consolidação das propriedades, tornando-se, na seqüência, um bem sucedido proprietário rural. Bonança que durou, entretanto, somente até a chegada dos eucaliptais da Aracruz Celulose, que despovoou o principal território dos negros no Estado - situado na confluência dos municípios de Conceição da Barra com São Mateus -, além de aprisionar nos eucaliptos os que, como ele, resistiram e não venderam suas terras à empresa.
Se for se somar o tempo de sua família, contando apenas a partir do seu avô, vai se chegar facilmente há 154 anos na região. O avô, Emanoel Florindo, nasceu ali, no ano de 1859, já o pai, Florentino Florindo, é de 1888, e o Coxi, de 1920. Não está incluída nessa conta a matriz da família Florindo que é um negro angolano. Um detalhe familiar: sua avó Natália é irmã de uma heroína negra, de nome Clara Maria do Rosário, que lutou contra os escravocratas e foi emboscada e assassinada por forças policiais da Província.
Atualmente, Coxi se encontra entre os seis mil negros que resistiram ao assédio da Aracruz Celulose e se mantiveram em suas pequenas propriedades no Sapê do Norte, nome pelo qual é conhecida a região dos quilombolas no norte do Espírito Santo. Escapou de pertencer a um contingente de 50 mil negros que deixou a região e foi parar nas periferias das cidades engrossando o cordão de pobreza.
Além de hoje marcar à presença dos quilombolas na região, Coxi é a figura simbólica dessa resistência à Aracruz Celulose, não só pela manutenção do seu sítio, como também pela preservação dos costumes dos quilombolas. No final de semana, ele realizou, em sua casa, com a presença de um pequeno núcleo de negros e de parentes, a ladainha de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
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Foto: Rogério Medeiros
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| Na casa que resiste em meio aos eucaliptais
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"A ladainha agora não é mais como era atingamente" - foi logo avisando ao repórter -"mais ainda tem um pinguinho de gente para ajudar na nossa devoção e na nossa tradição. Pois isto que você está vendo hoje aqui, era gente! era gente! Mas agora nem consigo botar minha família toda, que esse eucalipto espalhou por esse mundo de Deus. Mas vou fazer essa ladainha até enquanto estiver vivo, pois comecei na ladainha na casa do meu avô, passei depois para a casa do meu pai, e cheguei na minha há muito tempo. E tenho fé, quando eu faltar, que um filho meu vai continuar com ela. '
A ladainha, que o repórter presenciou, foi feita ainda à moda antiga. A imagem do santo fica sobre uma pequena mesa, coberta por uma toalha de mesa branca, e dentro de um arco de palha de coco, com as pontas dobradas. Como explicou o mestre Terto Balbino, do Ticumbi (que, ao lado de outra negra, Antônia do Rosário, puxou a ladainha na casa do Coxi), a palha de coco tem que ser de pindoba, um pequeno arbusto que dá nas capoeiras.
Hoje, já bastante alquebrado, ainda por cima cego, Coxi é, no entanto, o personagem mais venerado pelos demais negros da região. Sobretudo pelo seu comportamento em favor do resgate cultural. Ele foi, por 60 anos, integrante do Ticumbi e deixou no grupo folclórico um filho e um neto para contribuir com a sua continuidade. O mestre do Ticumbi, Terto Balbino, não poupa elogios ao papel de Coxi em favor da sobrevivência do Ticumbi. "Coxi - disse - foi o melhor secretário de reis de Bamba. Ninguém o igualou. Quando ele tirava sua embaixada a platéia vibrava. Era só garantir que ele estava na apresentação para nossa sociedade ir toda assistir".
Mas não foi só no Ticumbi que ele se destacou. O forró de Sapezeiro tinha nele também uma figura importante, sobretudo pelas suas belas trovas. E esse forró de Sapezeiro é uma manifestação única, só existiu nessa região capixaba dos quilombolas. Consiste num sanfoneiro e três ou quatro panderistas tocando e tirando versos de desafio, em cujos sons e versos, dançam o baile. Para ser apreciado hoje em dia, somente por ocasião dois ensaios do Ticumbi, que acontece entre outubro e dezembro.
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Foto: Rogério Medeiros
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| Coxi luta para a Ladainha não desaparecer
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O esforço do Coxi em benefício da cultura do seu povo, é feito, praticamente, em favor de uma causa perdida, se for comparar o que sobrou com o que tinha, quando a região contava com uma maciça população. O Ticumbi era realizado pelas igrejas, que não mais existem atualmente. Foram derrubadas pela Aracruz Celulose junto com as casas dos antigos proprietários. Não havia somente um Ticumbi, mas quatro Ticumbis, e não passava um fim de semana que não houvesse um forró de Sapezeiro. Fora a Marajuda que todo ano se apresentava pelo lado das Drogas (localidade que fica no município de São Mateus).
Com o passado mais vivo do que o presente na sua cabeça, começou a nominar os seus antigos vizinhos para o repórter, como se estivesse enxergando: "Morava ali o Roxo...". E disse o nome dos demais. Prosseguiu dizendo que ali, antes dos eucaliptos, "era tudo gente com sua casa, sua casa de farinha, seus animais de carga, a mata para a gente completar a nossa mesa, o rio para buscar o peixe. Fartura pura. Hoje o meu vizinho é o eucalipto, não preciso nem ver para dizer, sinto pelo cheiro e pelo silêncio. Também não preciso ver para dizer que a água do rio acabou, nem é mais rio, coitado, a água não presta para nada, a mata desapareceu, desaparecendo da nossa mesa muita carne boa. Nem farinha tem mais."
O quadro é realmente desolador. Além de algumas poucas árvores frutíferas em seu terreno, terreno esse que na verdade é uma nesga de terra, há um plantio de pimenta malagueta, uma saída idealizada por um programa da Secretaria de Agricultura do Estado, junto com a própria Aracruz, para prover a sobrevivência deles e de outros pequenos proprietários, já que ela é considerada uma planta que produz rápido e independe de grandes extensões de terra.
Mas o que Coxi gostaria realmente de ter em suas terras era mandioca. Mas não tem mais terreno para a mandioca e sua casa de farinha já está até desativada. "De pimenta eu não entendo e não tenho mais perna para sair de casa e vista para enxergar. São os meus meninos que cuidam dela. Eu sou do tempo da farinha. Com a farinha criei esses meninos tudo e vivi na fartura. Não sei se essa pimenta vai tirar a gente da pobreza. Ela não tem cara que vai tirar. O que vai tirar a gente da pobreza é terra para plantar o que a gente sabe plantar, como a mandioca."
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Foto: Rogério Medeiros
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| Cena da Ladainha
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A mandioca teve suma importância na economia da região. Não só por conta da alimentação dos quilombolas, como também como lavoura de subsistência. Era usada também em inúmeros pratos e quitutes, esses últimos conhecidos como beiju, que ainda fazem parte da mesa que se oferece aos devotos na ladainha. A mandioca não era só a sobrevivência financeira dos negros. A mandioca sustentou toda a região de Conceição da Barra e São Mateus e, em função dela, existiu um porto para exportá-la para os grandes centros no país e no exterior, principalmente para a África, onde veio a substituir o inhame na alimentação dos escravos, como conta Luiz Felipe de Alencastro, no livro "O Trato dos Viventes. "
A mandioca produziu um longo ciclo econômico na região e foi responsável pelo enriquecimento de uma elite escravocrata, que o historiador Maciel de Aguiar, achou por bem denominá-la dos barões da mandioca. O enriquecimento se deu pelo porto de São Mateus por onde entravam os navios trazendo os escravos e saiam levando a mandioca. Eram de pequenas cabotagens e vinham da Bahia e do Rio de Janeiro, onde pegavam os escravos vindos da África em embarcações maiores.
Toda essa mandioca foi feita, como comentou Maciel, por negros como os antepassados de Coxi e, em tempos diferentes, tendo o quilombo do Negro Rugério produzido os mais cobiçados beijus e a melhor farinha. Sobre o seu tempo de farinha, Coxi fala dos extensos plantios na região pela sua família:
"Aqui na Água Boa, onde o meu avô abriu a sua propriedade, era pura farinha. Ele tinha sua casa de farinha, meu pai tinha a dele e os irmãos dele também tinham as suas. Depois, quando eu me fiz de gente, também tinha a minha. Para saber o que era a minha família é só contar lá de traz: meu avô teve 15 filhos, meu pai 13 e eu também 13. Agora assunta: eu com os meus 13 filhos tenho hoje 86 netos e 42 bisnetos. Se cada irmão de papai tinha filho com eu tenho, aqui na Água Boa, era uma população e tanto. É capaz de ser uma população do tamanho da que sobrou por dentro dos eucaliptos".
Diáspora de negros à parte, a verdade é que a vida do Coxi decaiu realmente com a entrada do eucalipto no lugar da mandioca, os córregos secaram, o rio definhou, a mata acabou, ele ficou cego, os vizinhos que restaram, três irmão, também ficaram cegos, como se estivessem pagando um alto preço por conta do eucalipto, mas mesmo assim ao se despedir do repórter, o velho Coxi fez questão de convidar para a próxima ladainha: "venha o ano que vem que ainda vai encontrar um beijuzinho e devotos ainda rezando para a santa. Só quem pode faltar sou eu, que ando meio perrengue, mas há de estar outro Florindo para fazer a ladainha. "
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