Vitória (ES), edição de 22 de março de 2004
 
Conaq vai denunciar prisão de
quilombola ao governo federal



Manaíra Medeiros


A condenação do quilombola Berto Nascimento, 58 anos, de São Mateus, foi recebida pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas (Conaq) com revolta. A instituição vai denunciar o fato ao governo federal, em Brasília, e a entidades brasileiras e internacionais.

Promessa nesse sentido foi feita na última semana, em reunião da Conaq, em Olinda, Pernambuco, que esteve representando o Estado, a quilombola Domingas dos Santos Dealdina.

De acordo com a Conaq, faltam políticas públicas para as comunidades negras que hoje estão cercadas por plantios de eucalipto no norte do Espírito Santo. E que os quilombolas são descriminados pela polícia da Aracruz Celulose, a Visel, e principalmente pela empresa. A instituição destaca que esse quadro precisa mudar, do contrário casos como o de Betinho Feliciano, como é conhecido o quilombola, continuarão acontecendo, e sem nenhuma punição.

Betinho é do Córrego São Domingos, e foi preso pela Visel por retirar palmito para comer em área de proteção permanente. Sua condenação foi em tempo recorde e revoltou a comunidade do norte capixaba. Antes da chegada da Aracruz na região, Betinho, como os outros quilombolas, viviam em meio à fartura produzida pela mata, o que hoje não acontece; a vegetação está destruída.

A condenação do quilombola é tida como medida intimidatória, pois os negros já anunciaram que vão lutar para retomar suas terras.

Berto Nascimento terá que se apresentar mensalmente à Justiça, durante dois anos; terá que dormir em horário determinado, no máximo às 22h; não pode se ausentar da comarca, sem comunicar ao juiz.