Vitória (ES), edição de 23 de março de 2004
 
Revoltados, farmacêuticos optam
por demissão e complicam mercado



Cristina Moura


Os farmacêuticos não querem receber somente o piso salarial de R$ 820,00 defendido pelos proprietários de farmácias, já que serão obrigados a não somente "assinar" pelo estabelecimento. Terão que permanecer na farmácia, num plantão ainda negociado por ambas as partes. Por isso, acabam optando pelo pedido da demissão.

Até o final deste semestre, o mercado vai ficar complicado. O plantão obrigatório pelo Ministério da Saúde - desta vez encurralando ambos os lados, comerciantes e farmacêuticos - será decisivo. Na verdade, desde 1971 é exigido, mas astutamente desviado. É comum o consumidor não encontrar o farmacêutico, caso necessite, por exemplo, de uma explicação detalhada sobre o princípio ativo de um medicamento.

Com a nova resolução do MS, aprovada por todos os conselhos regionais, os comerciantes serão obrigados a pagar o que o sindicato quer: R$ 15,00 por hora de trabalho. Caso contrário, ficarão sem o profissional, que também vem inchando o mercado - devido à leva de universidades particulares desde o início de 2002.

O quadro se aproxima da chantagem. Os comerciantes reclamam da exigência dos farmacêuticos e negociam. Leonardo Nunes formou-se em dezembro de 2003. Para ingressar na roda trabalhista, ele tem de cumprir oito horas, recebendo abaixo do último piso da categoria, algo em torno de R$ 2 mil durante três meses. Depois, vai passar a receber o valor integral.

"A nova medida da obrigação do plantão é correta, mas não somente pelo mercado de trabalho para nós, os farmacêuticos. A atenção ao consumidor é que é o mais importante. Na realidade, tem muito farmacêutico, aí, pedindo demissão porque não quer dar plantão por somente o piso dos comerciantes, que é uma quantia insignificante", reforçou.

No Estado do Espírito Santo, são aproximadamente 2.100 farmacêuticos, a maioria sem direção definida. Os recém-formados, com medo do desemprego, são subordinados a acordos comerciais. Leonardo Nunes já chegou a receber - nos mesmos moldes - quatro ofertas por dia. Os que são veteranos, embora se "revoltem" com a obrigação do plantão e o desacordo com os comerciantes, terão que se habituar às novas exigências.

Enquanto isso, o mercado promete demitir outros funcionários, os balconistas. Serão, no mínimo, mil trabalhadores vivendo a expectativa. O presidente da Sincofaes (Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado), Henrique Ângelo Denicolli, "vai levar um tempo, ainda, para todo mundo se adaptar".