Impressões sobre as Eleições Municipais




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Contados os votos do segundo turno, o Brasil foi para o centro do espectro político. Centro com preponderância de centro-esquerda. Mas, ainda assim, centro.

Eleições cheias de significados. Com eleitores mais exigentes e menos emocionais. Eleições onde o pragmatismo superou as aproximações ideológicas. Opção do eleitor pela boa gestão e pelo equilíbrio de poder entre as diversas forças políticas. Aqui e acolá.

Abrindo um parênteses, vale ressaltar que os resultados nos fazem lembrar da famosa teoria da centralidade eleitoral, de Anthony Downs. Para ele, como se sabe, o pluripartidarismo incentiva os eleitores para o centro do espectro político, principalmente quando se espera resultados sócio-econômicos das ações dos governos.

Abrindo ainda outro parênteses, as eleições nos lembram, também, de aforismos de Antonio Gramsci. Lembram, primeiro, o aforismo de que, em algumas situações históricas, o novo está nascendo, mas o velho ainda não morreu. Este aforismo retrata bem a (contínua) caminhada, sem rupturas, da política brasileira. Embora tenham derrotado vários caciques tradicionais, as eleições não representaram uma ruptura, mas, sim, talvez, uma leve inflexão.

As eleições lembram, também, o outro aforismo de Gramsci, segundo o qual a luta pela hegemonia política resulta, quase sempre, em permanente equilíbrio instável entre as forças políticas em jogo.

No Espírito Santo, temos, agora, mais de outras forças políticas e, também, mais de outros atores políticos. Cresceram, por exemplo, as lideranças de Sérgio Vidigal e de João Coser. Cresceram, ainda, as forças do PPS, do PDT, do PSB e do PT.

Além disto, falando de forças políticas, não se deve subestimar a força da liderança do prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas. Tendo realizado uma gestão bem avaliada, e tendo vida partidária orgânica e contínua, Luiz Paulo é e será ator político importante para o xadrez de 2006, já iniciado.

Tudo somado, a política capixaba fortaleceu também a centro-esquerda e promoveu um re-equilíbrio de poder. Agora, o governador Paulo Hartung vai precisar articular-se a partir deste novo equilíbrio (instável) para continuar conduzindo o seu projeto de hegemonia regional. Provavelmente, a sua próxima escolha partidária já se dará neste contexto.

No país, também tivemos um novo equilíbrio de poder. O PT cresceu quantitativamente e ganhou capilaridade nacional, enraizando-se mais no norte e no nordeste, além do centro-sul. O PSDB cresceu qualitativamente, ganhando São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Cuiabá e mantendo Teresina - ao mesmo tempo em que ganhou em importantes cidades de São Paulo.

Além disto, partidos do espectro da centro-esquerda também cresceram. Vale mencionar o PDT e o PPS, que ensaiam uma provável fusão, e que poderão formar um terceiro pólo de poder, além do PT (com seu aliados) e do PSDB (com seus aliados).

A base aliada do governo federal ( PT, PL, PTB, PSB, PcdoB e PMDB ) ampliou o seu número de prefeituras, passando para 2.460 prefeituras, de um total geral de 5.561. Resta saber, entretanto, se o PMDB vai continuar na base aliada, pois ele, sozinho, ainda detém o maior número de prefeituras, ou seja, 1.057 prefeituras. Sem ele, portanto, o número de prefeituras da base aliada cai para 1.403.

Juntos, o PSDB e o PFL passam a ter 1.661 prefeituras, sendo que o PSDB governará 871 cidades que abrigam 25,617 milhões de eleitores, o equivalente a 21,4% do país - enquanto que o PT, sozinho, terá prefeitos em 411 municípios, com 17,055 milhões de eleitores, ou 14,2% do total. Já o terceiro pólo de poder, o do PDT e PPS, terá 611 prefeituras, sendo que o PPS teve um crescimento significativo.

Percebe-se um óbvio re-equilíbrio de forças. E constata-se que o PMDB, embora sem boa imagem nos grandes centros, continuará a ter um papel importante na política brasileira e nas eleições de 2006. Com ele na base aliada, o grupo no poder poderá ter mais chances da re-eleição do presidente Lula. Se ele, ao contrário, resolver lançar candidato próprio, o xadrez se complica.

Agora, é hora dos prefeitos eleitos começarem a sinalizar como e com quem vão governar as suas cidades.

Enquanto isto, é hora do presidente Lula recompor a base aliada e dialogar com a oposição, conforme já sinalizou.

O recado das urnas está dado: re-equilíbrio de poder e políticas de centro-esquerda. Ou seja, é o recado da moderação e da necessidade da boa gestão.