Não enxerga com clareza quem vê a realidade sob um único ponto de vista. Para fazer jus ao nome que ostenta, essa organização chamada Transparência Capixaba teria que ver a realidade com imparcialidade, com independência. Teria, em última análise, que demonstrar interesse na apuração de todas as denúncias públicas e conhecidas envolvendo suspeitas de irregularidades.
Mas não é o que estamos vendo e lendo sobre suas ações. Somente agora, cobrados por Século Diário, seus dirigentes admitem que poderão pedir ao Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRC), do Ministério Público Estadual, que investigue os contratos milionários de Sebastião Pagotto com a prefeitura de Vitória e com o governo do Estado.
Mas condicionam o gesto a uma denúncia formal contra as autoridades que vêm apadrinhando o empresário suspeito de mandar matar o advogado Marcelo Denadai. Estranho condicionamento esse: o escândalo é de todos conhecido e já saiu até na imprensa nacional (coluna de Ancelmo Góis, em "O Globo).
Além disso, há uma CPI da Câmara Municipal - a CPI da Lama -, paralisada por manobra judicial da prefeitura, e que já apontou várias irregularidades nos contratos da empresa de Pagotto com a administração Luiz Paulo. Contratos que não são de hoje nem de ontem, mas que vêm de 12 anos atrás, quando se iniciou a gestão Paulo Hartung na administração municipal.
Com a prefeitura de Vitória, são quase R$ 5 milhões em contratos suspeitos para limpeza de fossas e galerias. Com o governo do Estado, Via Cesan, mais R$ 2,9 milhões. Sobre esses fatos jamais se leu ou ouviu uma única palavra de crítica ou suspeita da Transparência Capixaba.
Mas uma suspeita absurda, fruto do desespero de um derrotado nas últimas eleições, logo despertou o interesse da tal Transparência Capixaba, que encaminhou pedido ao GRCO para investigar se os bens do prefeito eleito João Coser são compatíveis com a sua renda.
Há uma total inversão de papeis nesta história dos bens de Coser. A acusação, sem provas ou mesmo indícios de veracidade, saiu da boca de um político em desespero. Não seria ele, o acusador, quem teria de provar a acusação, vez que o ônus da prova cabe a quem acusa? A Transparência acha que não. Coser é que tem de provar sua inocência.
Como essa organização não tem poder de apuração, encaminhou o pedido de investigação ao MP. Antes disso, pela lógica de todos os princípios de Direito, quem deveria ser investigado era Cesar Colnago, por ter feito a acusação sem conseguir prová-la.
Para limpar um pouco a sua barra, a Transparência diz que Colnago vai ser chamado a provar sua suspeita. Vai ser chamado por quem, cara pálida? A tal Transparência está tratando do caso como se ele ocultasse uma verdade, tanto que em seus pronunciamentos públicos ela nem menciona o fato de ter sido feita uma acusação sem provas.
Trata-se, como se pode ver, de uma organização pronta a prestar serviço a quem dela precisa para se perpetuar no poder. É de interesse do atual governador que João Coser assuma a prefeitura de Vitória com o terno da posse sujo de lama. Assim estará enfraquecido para influir na eleição de 2006, quando se elegerá o novo governador do Estado.
João Coser está demorando muito para agir preventivamente contra essa tentativa de enfraquecê-lo pela via da desmoralização. Deveria ter iniciado processo por calúnia, injúria e difamação contra Colnago já por ocasião da divulgação das acusações.
Mas ainda está em tempo. Colnago e seus inspiradores não podem continuar desfilando impunemente na vida pública como se tudo não passasse de um simples arroubo de campanha. Coser, hoje, encarna o novo PT. Venceu uma eleição com méritos e graças a um passado limpo. Enfrentou toda sorte de ataques e agressões covardes.
É preciso, agora, que os padrinhos de Sebastião Pagotto comecem a se explicar. "Quem tem um Pagotto nas costas não pode apontar o dedo para ninguém", ponderou o senador Magno Malta ao criticar a postura de paladino da moralidade do governador Paulo Hartung. E o vereador Antônio Denadai pôs o dedo ainda mais fundo na ferida: "Estão lavando dinheiro com o sangue do meu irmão".
O que a mais a Transparência Capixaba espera ouvir para exigir investigações sobre a presença do crime organizado nas estranhas do poder em nosso Estado?
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