Cenário





Eustáquio Palhares




Toda empolgação a propósito da inauguração do ciclo do petróleo, que todos queremos de fato virtuoso, parece embaçar a percepção de alguns mecanismos representados pelas possibilidades de investimentos da meia dúzia de fundos de pensão de instituições locais como CST, Vale, Aracruz, Cesan, Garoto, Banestes e Escelsa, além da Valia.

Reúnem um potencial de investimento de R$ 1,6 bilhão, aqui entendidos como somatório dos patrimônios líquidos. A observar apenas o valor residual destinado à participação em projetos, em torno de cinco por cento, apura-se R$ 80 milhões, o que não é lá essas coisas. Menor que os recursos que o Funres tem ociosos, à espera de demanda.

Meios

A questão é que em negócios, a "rationale" deve prevalecer porque com altruísmo e patriotismo apenas não se quita o passivo das pensões a serem pagas, senão seria o caso de se cobrar desses fundos melhor apropriação das oportunidades de investimento que o take off da economia capixaba parece oferecer.

Guilherme Lacerda, que pilota o alentado Funcef, tem nada menos que 17 bilhões para gerir e gerar renda que remunere os pensionistas e aposentados da CEF. E admite que hoje está comprando papel com vencimento em 2045 que remunera a inflação mais nove por cento ao ano.

Engessado

Lacerda concede que não há alternativa. Não há como não aproveitar o binômio que o Governo oferece e que no jogo livre do mercado é uma quimera: segurança e rentabilidade. Assim, projetos estruturantes e quetais somente captam esses recursos ante a certeza dos níveis de rentabilidade comprometidos e ainda assim atendido os pressupostos da segurança. Em condições normais de mercado a rentabilidade é inversamente proporcional à segurança da aplicação.

Assim, o negócio é comprar títulos da dívida pública, o que explica esses papéis representarem 90% das carteiras de aplicação. E, nessa modalidade, 70% são de renda fixa.

Possibilidade

As áreas potenciais para aplicação dos recursos é a de infra-estrutura (rodovias, portos, logística, energia, programas de privatização), onde existe uma disponibilidade de US$ 575 milhões.

No Espírito Santo, Guilherme Lacerda, que coordena o programa Brasil-Ferrovias identifica oportunidades mais concretas de investimentos na rodovia 427 que ligará as Brs 101 e 262 ao Porto de Capuaba, via rodovia Darly Santos; e na construção ou ampliação do contorno de Vitória.

Posição

E olhe que Guilherme Lacerda sempre foi ideologicamente contrário ao rentismo.

Quadro. Ou seja, há muita gente na contramão da produção festejando a escalada da Selic. Cuja variação é desproporcionalmente badalada por um setor produtivo que adere ao jogo de faz de conta. Qualquer empresário adoraria tomar dinheiro emprestado a 17%, com o que estaria pagando juros reais de 10%.

E por isso os bancos não precisam emprestar dinheiro, ou seja, não dependem de um setor produtivo carecendo de financiamento para suas atividades.

O Governo é um paizão para os rentistas, pensionistas, aposentados e banqueiros no meio.

E um padrasto perverso para o setor produtivo porque se apropria dos recursos disponíveis para o crédito e lhe confisca a renda através de uma carga tributária que toma o seu faturamento de quatro meses e meio.

Contrapeso

Enquanto isso a tal dívida social está espetada e embolorando. Um bolor que produz tremenda alergia na sociedade manifestada nas convulsões da segurança que experimentamos em níveis absolutamente inéditos.

A despeito dos paliativos e panacéias locais.

Campanha

Empresários se dispõem empreender campanha de reação à alta carga tributária.

Sensatamente cogitam cooptar como primeiros aliados exatamente os consumidores.

Para isso avaliam a idéia de aproveitar a imposição dos padrões de embalagem com informações obrigatórias dos rótulos para indicar também o valor dos impostos que incidem no produto.

Óbvia como o ovo de Colombo mas extremamente eficaz para o cidadão perceber quanto lhe custa o Governo.

Day after

Bem, menos pela mítica prodigalidade orçamentária que pelo fato de encontrar a casa arrumada, João Coser não terá dificuldades de administrar Vitória.

Pelo menos não tanto quanto terá em administrar o petismo.

Idéia

Viável, delirante, megalomaníaco ou não, é certo que a região metropolitana necessita de soluções ousadas como o metrô de superfície. Assim como precisa de uma agenda metropolitana que dispense o impossível parto - ou pacto - político da institucionalização de uma desejada região metropolitana.

Ante a inviabilidade política de um super-prefeito ou de um razoável conselhão, que as municipalidades disponham-se a discutir abordagens convergentes ou interativas das demandas metropolitanas como transporte, saneamento, segurança, lixo, saúde e mesmo educação. No caso do transporte, não há como descartar a idéia do metrô, um projeto que dentro da maturação adequada deve se financiar pela própria demanda.

É projeto para horizonte além de um mandato e fonte de recursos que não se limite ao erário municipal. Mas isso não são restrições, são meras características.

Alternativa

Na última greve dos motoristas de ônibus, o governador Peagá reafirmou a noção exata de sua autoridade acionando as instâncias legais e enquadrando o movimento.

Nem se trata mais da cantilena de que Vitória não pode ficar a mercê dos confrontos corporativos que repetem a odiosa prática de fazer o povo refém e golpeá-lo para sensibilizar a outra parte ou forçar a intervenção coatora do Governo.

Muito governador com pruridos de tisnar sua biografia de democrata e sintonizado com os movimentos populares deixou-se manietar por estes. Complexo de origem política, talvez.

Como dizem os meninos, Peagá mandou bem nessa....

Mais

Se o cidadão se dispõe a cruzar os braços e não trabalhar até que o seu ofício seja remunerado à altura de sua pretensão, isso é seu legítimo direito.

Mas quando ele, ao se dar conta que isso não é suficiente para evitar o desconforto da clientela, busca de qualquer modo impingir-lhe um embargo, frustrar o seu atendimento, aí já invade o direito alheio. Isso se aplica a motoristas, bancários, policiais com as odiosas operações-padrões, fiscais e outros.

Cabe a qualquer simulacro de Estado - aqui entendido como ente mediador de conflito - reparar essa distorção. Na imposição da autoridade pela firmeza do mandatário ou pela rigidez do também democrático cassetete.

Risco

Aliás, a exemplo do que ocorreu no setor público durante anos, o grande risco de paralisação de algumas categorias é que elas precipitam o surgimento de outras soluções.

Com o que elas se tornam, senão dispensáveis, ao menos substituíveis.

Isso é bem mais suscetível nas atividades onde a inovação tecnológica gradualmente libera a mão de obra.

Campanhazinha

Enquanto não chegamos às soluções ousadas, a coluna insiste em repisar a tese de que dois eixos perpendiculares de ciclovias projetadas para grande fluxo não apenas ofereceriam solução prática de mobilidade da população como implantaria uma cultura de prática saudável que se afina com a necessidade da urbe cada vez mais encurralar , confinar ou restringir o carro.

Sem romantismo, mas uma máquina de 700 quilos a uma tonelada movendo-se no espaço urbano, poluindo-o e o ocupando para o deslocamento de uma pessoa é uma contradição que se aguça na razão direta da disfunção da cidade.

Campanhazinha II

Mudar paradigmas exige de fato um momento de força. Para usar a metáfora adequada, por isso a primeira marcha do carro é forte. Para romper a inércia. Depois o movimento se realimenta com pouca força , daí as marchas fracas.

Para além de solução instintiva do trabalhador da periferia ou do ludismo da classe média, a bicicleta necessita urgentemente ser afirmada como meio de transporte.

Se o ranço do complexo de subdesenvolvido é o que trava o sonho, veja-se a Europa, onde nos grandes centros o "camelo" responde por até 50% do transporte urbano.