Dona Mariinha andava reflexiva. Mas não era por conta da fala do povo da beira do Rio Doce, que mudara seu nome de Maria para Mariinha, e que, muitos anos depois, também transformara seu primogênito de Sebastião da Beira do Rio em Bastchão Bedurri.
Não. Nada disso. Tampouco eram problemas de família o que angustiava Dona Mariinha. Conforme Deus era servido, criara seus três filhos na lei do respeito, da autoridade e do amor. Então, descontados os desencantos e as trombadas que cabem a todo mundo, até que a família ia bem.
Mas, naquela tarde, ao receber a visita do mais velho, Bastchão Bedurri, Dona Mariinha estava agoniada com notícias da tevê e dos jornais, principalmente coisas ligadas a assaltos, roubos e assassinatos.
-Sempre fui uma pessoa positiva - raciocinava Dona Mariinha, ante o olhar respeitoso de seu filho. -E nunca mandei recado nem deixei de cumprir o que era do meu cumprir. Sempre resolvi as minhas coisas assim, porque sei que a defesa da gente contra o inimigo é a presença de Deus na nossa vida. Por isso, nunca peguei nas ferramentas pra resolver meus problemas. Mas a gente não é filha de pai assustado, então, se precisar de pegar nas ferramentas pra resolver alguma coisa com algum malfazejo que não respeite a família da gente, a gente pega também.
O ribeirinho Bastchão Bedurri sorri, enternecido, ao relatar-me essa passagem, enquanto remendamos as tarrafas que devem garantir a moqueca de cascudos para o almoço. E sua memória retorna, por instantes, à juventude.
-Um dia, pela necessidade de livrar gente do meu sangue de um sujeito mal-intencionado e armado, precisei fazer um bonito no meio da praça da cidade, durante uma festa. Deixei o nome feito. E felizmente tudo acabou bem. Apesar do risco de morrer matado, penso que tomei a única atitude possível diante da situação, que estava fora de controle.
Depois de uns poucos segundos de reflexão, o pescador retoma sua narrativa:
-E muitas vezes, ao longo de todos esses anos, eu já me perguntei de onde foi que tirei disposição pra fazer aquilo e mais uma meia-dúzia de coisas parecidas que já precisei fazer. Agora, ouvindo Mamãe falar em pegar nas ferramentas, fico lembrando dela e do Papai, do jeito como foram criados, dos valores que ambos receberam de seus pais. E aí compreendo um pouco algumas atitudes minhas que já me surpreenderam muito.
Depois de um silêncio mais prolongado, me senti no direito de perguntar:
-Bedurri, mas o que foi que você respondeu pra Dona Mariinha, quando ela falou de pegar nas ferramentas, já com mais de 70 anos de idade?
Bedurri sorriu. Seu olhar ainda refletia a ternura pela coragem e pelo senso de proteção familiar demonstrado pela mãe:
-Não tive outro jeito, amigo. Olhei pra ela, sorri amorosamente e perguntei:
-Mas Mamãe, isso lá é conselho que uma mãezinha de quase 80 anos dê ao seu filhote de mais de 50?
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