Impõe-se a correção: a visão dos dirigentes da Ong Transparência Capixaba não é míope, é caolha. A julgar pela correspondência que nos foi enviada pelo dirigente da entidade, Leonardo Barreto, a Ong vê os fatos políticos do dia-a-dia no Estado com um olhar enviesado. (Veja matéria a respeito nesta edição).
Para essa entidade, insinuações sem qualquer indício de veracidade, feitas por um desesperado deputado estadual do grupo detentor do poder no Estado e em sua capital, têm peso considerável e merecem rigorosa apuração do Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRCO), do Ministério Público Estadual (MPE). Esse tipo de acusação, sim, mobiliza a Ong e a leva a um grande esforço com vistas a repercutir o fato na mídia.
Já acusações partidas de cidadãos desvinculados do poder executivo, por mais graves que sejam, precisam ser formalizadas e bem fundamentadas. E não apenas isso: terão que, eles próprios, cidadãos, procurar o GRCO se quiserem obter algum resultado. A Ong não está nem aí para a dor de quem sofre na própria carne a cunha do crime organizado.
O dirigente Barreto diz que acionou o GRCO, no caso das insinuações de César Colnago sobre o patrimônio de João Coser, porque a sociedade precisa saber quem tem razão na história, se o tucano ou o petista. Mas, para ele, não deve ser de interesse da sociedade saber por que um indivíduo indiciado como mandante de um crime de morte - o empresário Sebastião Pagotto - está há anos recebendo milhões de reais do governo do Estado e da prefeitura de Vitória como detentor de contratos suspeitos de fraude.
Quais são, afinal, os critérios que mobilizam a Ong Transparência Capixaba na busca da verdade? Colnago não formalizou nenhuma denúncia. Suas insinuações foram publicadas e amplamente divulgadas na mídia sem qualquer prova ou indício de que tenham fundamento.
As acusações da família Denadai contra Pagotto também tiveram ampla divulgação e circulação na mídia. Igualmente foram divulgadas as investigações da CPI da Lama, da Câmara Municipal de Vitória, sobre os contratos fraudulentos da empresa de Pagotto com a prefeitura de Vitória. Tudo provado e comprovado.
A CPI foi trancada por uma liminar que o Tribunal de Justiça do Estado (TJES) concedeu à prefeitura de Vitória. Mas esta liminar caiu no Supremo Tribunal Federal (STF), que mandou a CPI prosseguir em seus trabalhos. O que só não aconteceu pelo fato de o acórdão do STF não ter sido ainda publicado.
Recentemente, o jornal "O Globo", na coluna de Ancelmo Góis, divulgou que Pagotto deve ter um padrinho forte no poder público estadual para merecer um contrato de R$ 2,9 milhões da Cesan. O colunista disse que Pagotto circula nas ruas com um habeas-corpus no bolso.
Não se sustenta, portanto, a argumentação do sr. Barreto de que a entidade que dirige age com independência e isenção na busca da verdade. Que isenção é essa, sr. Barreto? O senhor diz que a irmã de Marcelo Denadai, na condição de advogada, sabe como agir para punir os carrascos de seu irmão.
Se é assim, então para que serve essa sua Ong? Só para repercutir fatos que comprometam a honra de cidadãos desvinculados do poder público do Estado e de Vitória? Explique-se melhor, se puder, em sua próxima correspondência a este Século Diário.
A nosso ver, sua Ong está a serviço de alguém que não quer João Coser fortalecido ao assumir a prefeitura de Vitória. E que não é de seu interesse qualquer investigação que possa mostrar a presença do crime organizado nas entranhas do poder público em nosso Estado.
Sua gestão junto ao GRCO para investigar o patrimônio de Coser foi considerada impertinente pelo órgão, que vai encaminhar seu pedido à Receita Federal. Trata-se, como se vê, sr. Barreto, de bisbilhotice, de exploração política baixa e mesquinha, não de assunto sério que mereça investigação do Ministério Público. Agora, quem vai ter que se explicar à Receita é o senhor, que criou o facttóide.
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