Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Lentes que revelam sensibilidade por trás das grades





Fabíola Zardini


"Há presos à engrenagem de todos os ofícios.
A prisão está onde o trabalho não tem sentido,
não liga quem o faz à comunidade"
(Saint-Exupery)


Tudo começou de uma forma até meio previsível: Edson, que é repórter fotográfico do jornal "A Gazeta", foi fazer uma matéria sobre o Dia das Mães na Penitenciária Estadual Feminina, a maior cadeia de mulheres aqui no Estado. Pronto. Foi o suficiente para que o profissional se sentisse, como ele mesmo afirma, 'seduzido' ao ver aquelas presas.

Sentiu vontade de fazer um trabalho de imagens com elas. É claro que uma produção como essa não é fácil e deixaria qualquer um intimidado. Afinal, era um presídio. Mas o medo maior talvez chegasse junto com tantos empecilhos e ameaças das próprias detentas no início do trajeto.

O certo é que Edson não se deixou abater e foi em frente. Agora, o resultado está aí: "Mulheres de Tucum", lançado há cerca de um ano e que é um trabalho de grande significado social. Em um livro que traz pouco texto e muita imagem (apenas 14 páginas de texto), pode-se dizer que Chagas conseguiu captar a alma das meninas, como são chamadas na prisão.

Todos os seus hábitos, seus valores e seus comportamentos foram registrados pelas lentes do fotógrafo para fazer o leitor (já que se pode fazer uma grande leitura através das imagens) refletir sobre esse grupo excluído do círculo social.

É verdade que Edson, com sua sensibilidade, perceberia isso em suas visitas. E o trabalho está aí, também para ser apreciado, não apenas refletido, já que, além da idéia que se pode ter de outra realidade com as fotos, a qualidade do trabalho é excelente, o que não poderia ser diferente, pelo ótimo profissional que é. Na entrevista, ele conta seus passos para produzir "Mulheres de Tucum" e fala sobre a visão do atual fotojornalismo capixaba.

Século Diário: - Como surgiu a idéia e como foi sua experiência ao produzir "Mulheres de Tucum"?

Foto: Bernardo Coutinho
  
Edson Chagas - Ele não nasceu livro, não; nasceu com a idéia de se fazer um portfólio. Eu construí um portfólio sobre aquele tema. Eu achei interessante o lugar e comecei a fotografar lá. Só que, com o passar do tempo, eu fui vendo que era interessante o trabalho, porque eu estava produzindo boas fotos e a essa conclusão eu cheguei por ver o trabalho dos outros na internet, por ter tido a oportunidade de ter lido muitos livros, ter ido a muitas exposições. Então, pensei: 'Esse trabalho é interessante, o tema é bom, as fotos estão dando um bom resultado...' Aí eu comecei a mostrar a pessoas que eu considerava de boa opinião, que tinham boa visão crítica, e mostrei para alguns colegas e eles me deram força: 'Edson, faz um livro, cara, esse trabalho é interessante'. E eu fiz em originais e fiz em slides. Aí fazia sessões de projeção de slides na minha casa para poucas pessoas. Acabou que eu cheguei à conclusão que em determinados trabalhos não vale a pena mostrar para todo mundo, porque muitas pessoas não entendem. Como um tema desses, que eu tinha vontade de mostrar para algumas pessoas mas elas não entendem. 'Você vai fotografar mulher presidiária? Você tá louco?' Eu fiz as fotografias com um relativo baixo custo, porque eu usei filmes vencidos que eu ganhei. Então é interessante uma característica desse livro, o fator gráfico é interessante porque ele foi produzido com filmes vencidos, com mais de um ano vencidos, mas que estavam bem conservados, guardados na geladeira. Mas se altera com o tempo, muda um pouco de cor e tal. E eu ganhei uma quantidade, havia feito uns testes e vi que dava para utilizar esses filmes. Vi que não dava para usar no trabalho assim, fazendo fotos para outras pessoas, mas dava para eu produzir ensaio fotográfico, até porque eu fiz a opção de trabalhar lá no presídio sem flash e usando luz ambiente. Então, no que acarretava isso? Como o ambiente é bem escuro, pouca luz, eu tinha que trabalhar com longa exposição, diafragma todo aberto. Eu usei lentes claras, diafragma 2, 1.4 e algumas 2.8, mas entre 2.8 e 1.4, lentes bem claras, bastante abertas. Trabalhando nessa condição, diafragma bastante aberto e tempo de exposição longo, um filme sem ser vencido já tende a dar alteração. Com o filme vencido e em movimento e tudo mais, criou um efeito, vamos dizer assim, mas é pouco perceptível, é bem pouco perceptível o efeito do filme vencido. Eu, que experimentei, percebo alguma coisa, mas foi positivo ter usado esse filme vencido, até porque saiu de graça, mas eu paguei o custo de revelação e todo o empenho, o custo do empenho. Para fazer um trabalho desses, eu fiquei oito meses fotografando. Para você ficar oito meses envolvido tem um custo, um custo de vida. Eu tenho o meu emprego à noite, já tinha o emprego à noite e ia durante o dia lá no presídio. Ficava lá até umas duas, três, quatro horas, dependia dos meus sentimentos e de como era recebido, do que estava acontecendo e do que estava para acontecer. Era um trabalho bem livre, sem pauta, sem ninguém me dirigindo. Então eu ia de coração aberto, com todos os meus poros livres, meus sentidos livres para sentir, para perceber, de não entrar em nenhum julgamento, para não julgar ninguém com o meu trabalho nem com o meu contato com elas. E isso requer uma dedicação. Não foi um trabalho de poucas horas porque o nível de envolvimento que eu tive com elas foi grande. Imagina um homem dentro de um presídio de mulher? É uma coisa estranha porque já é um ambiente hostil, um ambiente de prisão, a maioria são pessoas de classe baixa, que não têm emprego, a escolaridade é zero ou mal sabem escrever. Gente que já está massacrada pela sociedade. Aí cai na prisão, seja lá pelo que for. Então ali todo mundo é inimigo, todo mundo é estranho. E um homem com uma máquina fotográfica, freqüentando o presídio... Eu passei algumas dificuldades nessas minhas visitas. Algumas presas me recebiam bem, conversavam, me davam atenção, mas mesmo as que conversavam comigo, algumas se deixavam fotografar, outras não. E eu procurei sempre ouvir. Com as oportunidades que eu tive na época da faculdade, de ler alguns textos de Antropologia, de alguns grupos que eu participei em estudos de Antropologia, eu tentei usar um pouco isso, de ouvir, de tentar da melhor forma não interferir no ambiente, no que eu estava fotografando. Deixar que elas posassem, que elas fizessem o que elas queriam. Então, na imensa maioria das fotos não tem pose. Quando elas posavam é porque elas queriam posar, por pura espontânea vontade. Igual em uma das fotos, que eu relato bem a história da calcinha. Não fui eu que pedi para ela posar, é uma foto posada, mas foi ela que veio a mim. A história da relação dela com o visitante, com o homem, com o fotógrafo, com a fotografia, com o meio exterior, com o querer ser vista. Eu acho que o livro tem muitas formas de interpretação. Ele oferece isso para quem faz uma leitura atenta, é uma interpretação de como é o comportamento dessas mulheres. Lógico que eu não entro em profundidade, que eu sou um fotógrafo e não um cientista social. Não entro em profundidade, analisando as questões psicológicas de cada uma. Não, não tem isso. Mas quem olha e lê com atenção vai conhecer um pouco mais da mulher nesse tipo de ambiente. E pelo menos criar interrogações na sua cabeça. Eu acho que o livro abre dúvidas na cabeça das pessoas. Eu não entrevisto muito, não é um livro de entrevista, de fotografar e perguntar como é a vida delas. É um livro de imagens e com um relato em primeira pessoa sobre essa minha experiência.