Vitória (ES), edição de fim se semana
 
Um revolucionário pesquisando
a cultura através das fronteiras





Fabíola Zardini


"A ciência controla a natureza. A cultura
é o controle que o homem exerce sobre si mesmo"
(F. Barth)





Ele tem muita história para contar. Mas muita mesmo! Jovem, com apenas 32 anos, Jefferson Gonçalves Correia pôs a mochila nas costas e saiu em busca de novas experiências culturais. Sem receio de cometer exageros, ele pode ser considerado um revolucionário. Um revolucionário que não usa armas, mas que pode ostentar o título pelo sentido que dá a seus estudos, a suas pesquisas, visando sempre à busca de profundas transformações sociais.

No roteiro da viagem de Jefferson, belíssimos pontos turísticos deste rico Brasil. Porém, ao chegar em Itaúnas, o encanto da comunidade que ali habita o atraiu de tal maneira que não o deixou seguir viagem. E foi aí que começou sua relação de amor com o norte do Espírito Santo.

Nascido em São Paulo, Jefferson mora no Estado desde 1996. Nesse tempo, viveu até 2002 com os quilombolas do norte e aprendeu a amar e a respeitar a riqueza da cultura da qual eles tanto se orgulham.

De uma forma bem descontraída, foram essas experiências do entrevistado que conduziram a conversa, fazendo com que a equipe de reportagem praticasse um exercício que ele mesmo cita durante a entrevista: ouvir, ouvir e ouvir.

As comunidades quilombolas são remanescentes dos negros que resistiram à escravidão. Através de várias estratégias, muitos escravos conseguiram ter acesso às terras e alcançar uma certa autonomia econômica. Esses agrupamentos de resistência ficaram conhecidos como quilombos ou mocambos, onde eram reunidos negros, índios, mestiços e até mesmo brancos.

Muitos quilombos continuaram existindo mesmo após a abolição da escravatura, e estes grupos foram mantidos como unidades sociais, ocupando suas terras até os dias de hoje. No Espírito Santo, ocorre uma verdadeira tragédia com os negros, que perdem suas terras para a Aracruz Celulose. E, lutando com eles, pode-se dizer que o entrevistado é um branco a serviço dos quilombolas do norte do Estado. Essa luta foi incorporada por Jefferson de tal maneira que ele pode ser considerado um agente da luta desse povo, e não apenas mais um pesquisador.

Século Diário - Como foi o seu primeiro contato com a comunidade dos quilombolas?

Foto: Bernardo Coutinho
  
Jefferson - Eu nada sabia a respeito do Espírito Santo. Eu sou nascido e criado em São Paulo, na cidade de São Paulo, em Guaianazes, um bairro muito distante, mas ainda dentro da cidade. Eu vim morar aqui no início de 96, e eu iria fazer algo que já tinha feito em anos anteriores, que era ir para o litoral sul da Bahia. Iria para Trancoso e essa viagem eu faria sozinho. Depois, iria para a Chapada Diamantina, caminhar por lá. Mas, enfim, alguém me falou sobre o Espírito Santo, sobre Itaúnas e eu tinha uma amiga lá. Aí pensei: 'Ah, vou passar por lá'. Então, no primeiro dia eu passei...No segundo dia da minha estada, eu estava indo para a praia e, quando cheguei na porta da igreja, estava um dia de sol, um alvoroço, e aí..'o que é aquilo? Eu já havia reparado que na porta da casa dessa minha amiga tinha um pau comprido, pintado, mas nunca havia associado às coisas. Quando eu cheguei lá, vi que aquele pau já estava fincado e que as pessoas estavam ali...(pausa)...fazendo um teatro de um jeito completamente inusitado, pelo menos pra mim, que fiz teatro em São Paulo. E aquilo foi encantador.

Eles cantavam, afinados, aí pensei: 'o que é isso?' Eu me lembro de Andrelino, que me chamou muito a atenção, um negro que mora hoje em Santana, ali depois do trevo de Itaúnas com Conceição da Barra. Ele cantava e eu ficava ouvindo aquele povo todo, falando de rei disso, rei daquilo...Nada caía muito bem na minha cabeça, mas, enfim, eles batiam espada, e cantavam, e tocavam pandeiro, viola... Depois que eu vim saber que esse era o tal baile de congo de São Benedito, lá do Ticumbi do Bongado... E a retirada só do reis de bois do mestre Juventino? E as mulheres cantando juntas? Então pensei: 'O que eles estão cantando? O que eles estão falando?' Aquilo já me chamou a atenção. Aí eu voltei para São Paulo e ficava vindo e ouvindo, ouvindo...Hoje eu ainda falo muito, mas eu comecei a perceber que era preciso ouvir mais. E, para entender aquilo tudo, eu tive, e até hoje tenho, que ouvir mais. E eles contam tudo, basta você ter paciência. Foi aí que começou. Um tempo depois, fui morar lá. Experimentei vários temperos, das casas todas, eles sempre me receberam bem. Então eu fui ouvindo, fui contando, fui contando, fui ouvindo... Até que eu comecei a ir aos ensaios, já que lá não tinha nada para eu ler.

Em um certo sentido achei até bom não ter nada para ler, porque tive que ouvi-los. Isso é o que eles adoram fazer, contar, contar te olhando nos olhos ou para qualquer canto, mas principalmente cantar, contar cantando. E ali eles contam diversas coisas que eles sentem durante anos. E naquele ano especificamente... (pausa novamente)...porque o baile de congo, a cada ano, tem uma pessoa que escreve e muda a história, não é o mesmo do ano anterior...Então, naquele ano que ele vai brincar o baile de congo, pode esperar que ali vem coisa. E isso vale para o reis de boi, para o samba de São Benedito, né? 'Ah, os foliões estão vindo de Nova Viçosa' (recita um dos versos)...e quando eles chegam, estão ali, batendo aquele pandeiro e você fala: 'não é nada daquele samba que a gente está acostumado, como o da zona leste de São Paulo'. Quando você vai apurando o ouvido, você começa a entender que eles estão falando ou denunciando alguma coisa grave que aconteceu contra eles, ou estão simplesmente caçoando um do outro...Por exemplo: tem uma história que fala que o Joviano, que era um tocador de sanfona, na Itaúna Velha, que foi onde começaram as dunas... Aí, fala muito de Joviano, e quando ele chega, 'ah o samba chegou, os foliões estão vindo do norte'. Daí eles vêm de lá, passando de casa em casa, como eles mesmos gostam de falar 'era uma casa encarreada na outra'. Tinha muito morador naquele sertão, porque todo mundo tinha sua roça e todo mundo produzia sua farinha, seu beiju. Então aquele povo que morava na beira da praia produzia a sua farinha e levava para Itaúnas, assim como o Maciel (de Aguiar) fala também que o pessoal que produzia farinha na região mais para dentro do rio Cricaré. Aí eles chegavam, o samba dormia na casa de um e na casa de outro, enfim o samba chega em Itaúnas.

E diz que Joviano foi acompanhando, andando...Já que nessas festas o santo dorme, tira o samba, eles caminham até outra casa, então vai contando o que aconteceu...E Joviano foi tomar banho no mar. Aí, quando entrou no mar, o mar levou sua dentadura e ele ficou 'cadê minha chapa?', e quando pensa que não, na hora do samba, eles cantam: 'Agua do mar não é sopa/ água do mar não é sopa/ veio a onda de fora/ e tirou a chapa da boca./ Ô meu Deus, como é que eu vou ficar?/ Quem mandou abrir a boca pro mar?' E aí eles vão caçoando um do outro. Maciel recolheu uma coisa de Zoroastro que é maravilhosa. Zoroastro Valeriano Rodrigues, não sei, tem que confirmar no caderno de anotações do Maciel, caderno 16 da história dos vencidos, antes de virar "Os Últimos Zumbis". Zoroastro era mestre da marujada, também brincava no baile de congo que tinha em São Mateus e hoje não tem mais. Zoroastro morava na cabeceira do Santaninha, onde nasce o São Domingos. Aí, diz que Zoroastro... olha o negócio de não ter as escritas... De repente chega lá um cara, segundo o Maciel conta nas anotações dele, que foi na interventoria, na época que Punaro Bley era governador, interventor de Getúlio Vargas.

Já naquela época - para a gente ver que o Estado vem apertando esse povo não é de hoje - a Aracruz, com a intervenção do Estado, lhe tomaram as terras. Aí chega o tal do delegado: 'quem é o senhor?' caçoando dele, como um analfabeto e coisa e tal, como se não tivesse nada a dizer. 'Diga que o senhor é o soberano imperador da Mauritânia', e Zoroastro fala: 'é, assim o povo diz'. Porque por exemplo: se você chegar hoje lá, e for lá na casa de Quino, e perguntar 'você é o embaixador do rei do congo?' Quino tomou um tiro na perna que um guarda do Ibama foi lá tirar a rede dele e deu um tiro na perna dele. Ele podia ter chegado para ele e dito: 'Você é o embaixador do rei de congo? Que negócio é esse de embaixador?' O povo assim diz, que ele é o embaixador do rei congo. O pai dele era rei congo, a primeira vez que ele brincou como embaixador de rei de congo, o pai dele era rei de congo... Então, voltando lá no Zoroastro, também foi caçoado, de não prestar assunto no que eles estão dizendo, de não entender o que eles estão querendo dizer. 'O senhor é o soberano imperador da Mauritânia? O que é a Mauritânia, hein?' Aí, Zoroastro: 'Mauritânia fica na África, de onde veio o povo negro para fazer a fortuna dos brancos. Apanhar sem dever, trabalhar sem receber e agora perder as terras sem vender'. Porque o homem já estava dizendo que as terras eram dele, um território ancestral, com a qual toda a família tinha uma relação. Ontem eu ouvi seu Jeová, que conheci lá na Roda D'água, e ele falou que houve um tempo que era a mesma coisa. O Estado chega e diz: 'Você não tem documento?' (das terras). Então, pra muita gente o que vale é o tal do documento, papel. Então o Zoroastro, depois, quando entra a Aracruz também, ele vai falando, assim como eu já ouvi essas histórias, como outros já ouviram. Eu costumo dizer o seguinte: tem muita gente que fala assim: 'Ah, mas eles não têm como comprovar que isso é verdade, cadê os documentos?' Então, eu falo assim: os documentos estão todos certos e eles, que são muitos ainda, resistindo, espalhados no meio dos eucaliptos...Você vai ficar numa casa, anda quilômetros, entra em outra. Então, se o sr. Miúdo mora aqui, na beirada da estrada de Boa Esperança, o sr. Jeová mora lá a três quilômetros para lá, também estão ilhados pelo eucalipto.

Mas eles têm as alianças deles e se mantêm lá. Esse povo todo...Você vai no Miúdo e ele conta uma história, você vai no Jeová e ele conta a mesma história, você atravessa o córrego de Santana e as pessoas contam a mesma história, que o povo foi saindo da terra, agüentando as caçoadas que vinham. 'Vê um homem vistoso com dinheiro e com razão/, isso se nós não vendêssemos nossa terra, o Brasil não ia para frente não/. Vendemos nossa terrinha e vendia muito mais/, hoje o Brasil vai pra frente e nós só dá pra trás'. Quer dizer, ele está se sentindo parte do Brasil? Isso Zoroastro, já estava denunciando e você ouve essas denúncias até hoje.