"O papel da cultura (...) constitui, de forma mais ampla, o fundamento social das próprias finalidades. O desenvolvimento e a economia são, pois, aspectos da cultura de um povo." (UNESCO. Nossa Diversidade Criadora.1997, p. 21 e 22).
Foto: Apoena
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De uma forma bem à vontade, Reginaldo recebeu a equipe do Século Diário em sua casa para conversarmos sobre o assunto de que ele mais entende e que mais gosta de falar: o congo.
Aos 81 anos, mestre Reginaldo não se cansa de contar todas as suas histórias, desde a época em que seu pai era mestre da Banda de Congo Amores da Lua, em Santa Marta. E olha que tem história.
Mas hoje, com todas as polêmicas que estão acontecendo em torno do congo capixaba, ele quer mesmo é mostrar que os conhecedores tradicionais dessa cultura estão de olho naqueles que não valorizam essa sabedoria e acabam cedendo os benefícios a quem está chegando agora.
Tem espaço para todo mundo, mas mestre Reginaldo quer apenas que essa situação se organize. Por isso ele é o presidente da Federação das Bandas de Congo do Espírito Santo, que está aí para defender os direitos desse povo que há tantos anos defende a cultura capixaba com unhas e dentes.
Uma entrevista cheia de paixão pela cultura e entusiasmo é o que o leitor confere agora.
Século Diário: - São muitos os mestres espalhados pelo Espírito Santo. Como está a organização desses mestres nas associações?
Mestre Reginaldo: - Nós temos um número muito grande de mestres espalhados pelo interior do Estado, e até agora eles estavam quietos. Quando chega gente de fora, faz um grupinho, uma musiquinha, uma letrinha, coloca no ritmo de rock, pop, faz um projeto e apresenta às empresas e tira o apoio dos mestres. Eles conseguem patrocínio e vão trabalhar como banda de congo. Quer dizer, com isso nós ficamos pra trás. A verdadeira raiz do congo do Espírito Santo fica pra trás. Agora nós fizemos associações em quase todos os municípios e nós resolvemos criar a Federação das Bandas de Congo. Eles acharam por bem me colocar como presidente. E eu sou o presidente dessa Federação.
- Mas essa Federação já está oficialmente criada ou ainda está em andamento?
- Já está pronta, nós já temos a diretoria direitinho e nós vamos trabalhar nesse sentido, de evitar que o congo seja destruído por pessoas que vêm de fora e não conhecem nada do ritmo, mas sabem que tem muito valor no Espírito Santo. Eles vêm, fazem um grupo, gravam uma música e ganham a fama.
(Pausa). A casaca, que é um símbolo do congo, é um instrumento criado pelos índios no século XIX, em São Mateus. Os índios, segundo o saudoso doutor Renato Pacheco, deixaram para nós esse instrumento. E o povo de fora vem, faz uma musiquinha, vai na Vale, na CST, pegam apoio, ganham dinheiro, e o verdadeiro congo, filhos de congueiros, não têm direito a nada. Por isso nós criamos a Federação das Bandas de Congo do Espírito Santo.
- Em relação a essa questão dos grupos que conseguem o patrocínio no lugar dos verdadeiros congueiros, aqueles que têm tradição familiar, o problema é que eles tiram os patrocínios que poderiam ser direcionados a essas pessoas. Mas se houvesse espaço, mais patrocínios para ambas as partes, eles poderiam conviver, perfeitamente, não é isso?
- É, acontece que nós criamos a Federação para evitar esses abusos, porque todo mundo sabe que o congo é a maior atração do Espírito Santo, divulgado lá fora, é a raiz, a nossa identificação, eles vêm para apanhar isso. Ou mesmo as pessoas daqui. Mas a gente não quer exclui-los de uma vez. Já que nós temos a Federação, eles vão conversar conosco para organizar essa história, saber se aquela pessoa é filha de congueiro, tem a raiz no congo. Porque nós achamos que tem que ser do Espírito Santo, mas aqueles que têm a raiz no congo, aqueles que nasceram no congo. Nós queremos moralizar isso, botar uma ordem na parte das bandas de congo. Mas os outros podem fazer uma música de congo, mas nós temos que conversar primeiro. Com tudo acertado, a gente aceita tudo, mas os abusos não.
Foto: Apoena
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- Então, 'seu' Reginaldo, conte um pouco da tradição familiar do congo na sua história e seu trabalho como mestre da Banda Amores da Lua.
- Eu nasci em Goiabeiras Velha e sou filho de João Barbosa Sales, conhecido como João Sales, e Ana Maria da Penha Sales. Meus avós, meu avô que foi Leopoldo Gomes Sales, primeiro criou a banda de congo em Goiabeiras, Folia de Reis também em Goiabeiras, depois ele morreu e ficou meu pai tratando do congo e da Folia. Meu pai criava muita Folia de Reis em Goiabeiras, chamava ali de Camburi José Carpinteiro, que o nome dele era José Pinto da Vitória, pai de Arnaldo Pinto da Vitória, ex-vereador. Então, meu pai ia de Goiabeiras a Camburi, porque o 'seu' José Carpinteiro morava em Camburi. E tinha uma sanfona e gostava da Folia também. Meu pai ia lá, apanhava ele e formava a folia em Goiabeiras, e era ele quem tocava a sanfona. Mas o meu pai foi o criador, depois do meu avô, da Folia de Reis em Goiabeiras. Meu pai morreu e eu fiquei tomando conta da Folia e também da banda. Ali em Goiabeiras eu comecei com dez anos de idade, tocava pandeiro, chocalho, triângulo, tamborim, e depois na banda de congo eu tocava tambor, cuíca, chocalho, triângulo, casaca, reco-reco. Então eu aprendi o que sei hoje, e eu sei tocar todos os instrumentos de congo. E cantar na Folia de Reis também. Até hoje participo da folia de Goiabeiras Velha, que há dois anos nós resgatamos através da Lei Rubem Braga. A minha história vem daí. Por isso eu digo a você que eu conheço muito de congo e da Folia de Reis.
- E como é sua rotina como mestre de uma banda de congo?
- É, eu sou o mestre porque tem dez anos que estou à frente depois do meu pai, mas hoje tem também o meu filho, também se chama Reginaldo Sales, e ele é um mestre excelente e é ele quem apita aqui na nossa banda Amores da Lua, fundada em 1945 pelo meu sogro, Alarico Azevedo, aqui em Mulambá, hoje Santa Marta. Então, o Reginaldo Sales, meu filho, é que é o mestre aqui da banda de Congo Amores da Lua. E ele se sai muito bem, tem sido feliz, até gravou um CD. As toadas do congo têm que ser cantadas no compasso do congo e não como samba, e ele faz isso muito bem. E lá em Goiabeiras, eu aprendi ouvindo e eles cantam Folia de Reis e congo muito bem. O nosso ritmo eu acho que é diferente de todo o resto do Estado. É boa a nossa batida, o povo gosta.