Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Um baluarte na trincheira do eucalipto
Meio século de resistência





Rogério Medeiros


Há 50 anos na trincheira de São Benedito, fazendo o Ticumbi para homenagear o santo. Chama-se Tertulino Balbino e está com 72 anos de idade. Costuma dizer que ainda agüenta mais um pouco à frente do grupo para passar o bastão de mestre para outro negro conduzir as homenagens da negritude ao santo.

O Ticumbi, que é uma das maiores manifestações folclóricas do Espírito Santo, quiçá do País, sobreviveu graças a ele, à sua fé no santo, ao compromisso com a negritude do Vale do Cricaré, que abrange, no norte do Estado, os municípios de São Mateus e Conceição da Barra. O Ticumbi de Mestre Terto, como ele é tratado pelos companheiros, é de Conceição da Barra.

Ele tem origem no quilombolo, o quilombo do Negro Rugério, assim como tiveram origem mais cinco ticumbis, mas que sucumbiram com a entrada do eucalipto no território quilombola. Uma diáspora retirou da área deles mais de 50 mil negros, deixando pouco mais de 3 mil, assim mesmo prisioneiros do eucalipto. Só sobreviveu este ticumbi de mestre Terto, que faz com que ele seja hoje venerado pelos negros da região, como responsável pelo resgate da principal manifestação da cultura negra do norte do Estado.

Com vocês, mestre Tertulino Balbino.



Século Diário -Nasceu no morro, ou seja, no Quilombo do Negro Rúgerio?

  Foto: Riokan
  
Tertulino - Na roça, no interior. E Santana não é só aqui, tem o córrego que vem de cima. Eu nasci no Córrego de Santana. Eu estou com 72 anos.

- E o que é ser mestre do Ticumbi?

- Tem muita forma de mestre. Eu até me sinto assim... não sei até se estou por fora dos outros, porque tem muito mestre que é mestre governado por outro. Eu acho que o mestre tem que tirar a brincadeira e passar para os outros. E ficar na frente para manobrar o grupo. Mas eu tenho visto muitos mestres que ficam atrás do contra-guia. No baile de congo tem o guia, o contra-guia e o primeiro congo. E ele fica para trás e eu acho isso diferente.

- Como é tirar a brincadeira (é como eles se referem ao folclore)?

- Rapaz, depende do tipo da brincadeira. Eu tiro tudo de cor, eu vou escrevendo, separando as partes para depois, nos ensaios, estar tudo decorado. Depois que eu faço a brincadeira, que está tudo certo, eu posso escrever para deixar como lembrança, mas eu tiro de cabeça.

- Mas são duas horas, dá para gravar tudo?

- Dá para gravar tudo. As partes já estão todas certas, desde a primeira marcha de rua, marcha de entrada, entrada, tem aquelas partes. Então, só mudam a letra e os versos.

- Quais são as partes?

- Tem a marcha de rua, a marcha de entrada, tem a entrada, a volta para a corrida de contra-guia, a entrada dos contra-guias, tem a guerra, aí a primeira entrada do secretário mais reis. Aí vem a guerra. Tem o impires, depois tem o verso de corpo de baile, a volta do corpo de baile, tem o verso de ticumbi, a volta do ticumbi e tem a marcha de retirada. Tudo isso. Só não coloco sobre a batalha dos reis porque não depende de mim, depende das figuras.

- A guerra é entre mouros e cristãos?

- É, a guerra entre mouros e cristãos mas têm reis congo e reis bamba.

- Mas o reis bamba é o mouro e o reis congo é o cristão?

- É como a gente entende. O cristão é o batizado, então é o reis congo. E o bamba é o mouro.

- Agora, voltando um pouco, como foi sua infância na roça?

  Foto: Riokan
  
- Foi difícil. Naquele tempo algumas coisas era fáceis, mas eu nasci na roça, meu pai sempre estava sempre doente, eu e minha mãe e minhas irmãs sempre trabalhamos na lavoura. No café mesmo, farinha. E levamos essa vida até me casar. Casei no distrito de São Mateus, que a gente já morava lá. Meu pai tinha uma roça onde morava, tinha muita frutas e no final da safra a gente colocava tudo no lombo do animal e vinha vender em Conceição da Barra e São Mateus.

- Naquele período, todo mundo tinha roça de farinha?

- Não, nós mesmos não tínhamos roça de farinha porque tínhamos uma propriedade pequena. E onde nós morávamos não tinha vizinhos, eram separados, mais distantes. Então não tinha farinha para fazer. O povo que fazia farinha morava um agarrado no outro. Raro eram os que não faziam farinha como nós. Quase todo mundo fazia.

- Nesse seu período de jovem, o que tinha de folclore por lá? Brincadeira, como vocês chamam?

- Meu pai era mestre do ticumbi aqui de Santana. Tinha, mais distante, o finado Florentino, tinha o ticumbi de Santo Antonio. Mais distante, no córrego de São Domingos, tinha o ticumbi de São Bartolomeu, e aqui tinha o ticumbi desse que eu sou mestre hoje.

- E esses ticumbis todos brincavam na data do santo ou na passagem de ano?

- Cada um brincava em seu tempo. Esse que eu estou hoje é do dia 1º de janeiro, que é aqui em Conceição da Barra. Os dos santos, brincavam nos dias dos santos.

- Vamos fazer o seguinte: feche os olhos com se estivesse no passado, quando todo mundo tinha sua propriedade ou era meeiro, era uma negritude só na região. Eram negros que tinham propriedades, a principal lavoura era de mandioca, todo mundo fazia farinha de mandioca para vender, e era fácil fazer o ticumbi.

- Muitos faziam farinha somente para o gasto. Para ter beiju no café e farinha na refeição. E apanhava café, sempre na beirada do rio do Cricaré, e socava no pilão para vender em São Mateus.

- Tinha igreja para todos esses santos?

- O Ticumbi não era apresentado na igreja, era nas casas mesmo. Quando não tinha igreja, fazia em casa. Todo mundo era meio parente. Tinha muitos parentes brincando.

  Foto: Riokan
  
- Já teve quem?

- Já teve Mário Florentino, que era filho de Florentino também, tinha Liberi, o Roxo...

- Agora tem Berto...

- Tem o Berto, o filho do Berto, e está para entrar o outro filho do Berto.

- Quando entra o eucalipto na região é que desaparecem os ticumbis todos?

- É, mas o ticumbi aqui na região só tem o meu, os outros acabaram todos.

- O pessoal que fazia foi embora?

- Foram embora com a entrada do eucalipto. Outros morreram.

- Não existem mais, só sobreviveu o seu . Por que veio para a cidade?

- Mas o povo dele mora ainda espalhado pela roça. Agora numas propriedades muito pequenas e dentro dos eucaliptos. Na cidade moro eu e mais um pouquinho deles. O eucalipto mudou tudo.

- Antigamente vocês ensaiavam pelas casas?

- Hoje em dia só tem mesmo o nosso local para ensaiar, os outros onde a gente ensaiava foram embora e no lugar de suas casas tem eucalipto.