"Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu
poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a
alguém" (trecho do juramento de Hipócrates).
Na época em que os mais abastados viajam para o Rio de Janeiro para fazer tratamentos médicos porque Vitória não apresentava condições, ele começou o seu sacerdócio. Porque a medicina é isso, um sacerdócio, tem que ter o dom e a disposição para abrir mão dos interesses pessoais em prol da saúde dos outros.
Formado pela Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, João Luiz Carneiro teve que se deslocar para estudar, pois nem a universidade ainda existia por aqui.
Mas quando isso aconteceu, ele participou desse crescimento, que de lá para cá permitiu que os moradores da cidade não precisassem enfrentar uma longa viagem para curar suas enfermidades.
João Luiz é um profundo conhecedor da história da medicina no Espírito Santo, até porque ele vem acompanhando essa evolução há anos.
E ele compartilha um pouco dessa experiência com o leitor nesta entrevista, além de alertar sobre a melhor qualidade de vida em sua especialidade, a angiologia. Confira.
Século Diário: - O senhor tem muita história para contar sobre a medicina capixaba, não é? Comece falando um pouco dessa sua experiência.
Foto: Apoena
|
|
|
|
João Luiz: - Eu acho que sou testemunha ocular da história capixaba (risos). Eu sou daqui de Vitória mesmo, mas naquela época, para estudar nós tínhamos que fazer dois vestibulares: um para entrar na universidade e outro para ver se o pai da gente podia pagar para ficarmos fora. Eu estudei na Faculdade Nacional de Medicina, e na verdade para mim foi uma volta meio inesperada porque eu nunca pensei em voltar depois de concluir o curso de Medicina. Eu achava que aqui não havia futuro, mas com a abertura da Universidade Federal eu tive essa oportunidade, então, voltei. Eu dei a segunda aula na faculdade. Desde 1º de janeiro de 1961.
- Nesse tempo todo de vida acadêmica e atuante no ramo, o que senhor observa de maiores avanços na medicina capixaba?
- A coisa virou totalmente para o outro lado. Nós, quando chegamos aqui, Vitória era uma cidade mais pobre e as pessoas que tinham mais recursos se tratavam no Rio de Janeiro, porque era chique fazer tratamento médico lá, mas nós tínhamos poucos hospitais, o grande hospital da cidade era a Santa Casa. A coisa de laboratório, raio X, era praticamente nada, e hoje você pensa em tomografia computadorizada, ressonância magnética, enfim, essas coisas não se fazia. Eu acho que o grande avanço vem daí.
- O senhor é angiologista, não é isso?
- Na verdade, eu sou cirurgião que por acaso de meteu com a angiologia (risos).
- Como assim? (risos)
- A minha formação é de Cirurgia Geral, e nesse época de formação no Rio nós convivíamos com um professor que trabalhou no Rio e foi secretário de Saúde, Antônio Luiz Medina. Ele operava os doentes dele na nossa enfermaria, que era do Darcy Monteiro, na Jerônimo Monteiro, e ele precisava de alguém que ajudasse nas cirurgias dele. E nessa época a angiologia como especialidade estava se implantando no Brasil. E ele me convidou para operar umas varizes, umas artérias aqui, ali. Nessa época não havia residência. E eu vim pra Vitória e por coincidência o doutor Pedro V. da Silva, que também fazia cirurgia geral, e tinha convivido na América com a cirurgia vascular, de forma que ele e eu fomos úteis numa cidade que não tinha profissionais na área. Amputavam-se as pernas dos pobres coitados na Santa Casa como se trata uma doença benigna, porque não tinha quem operasse uma artéria e o mandasse embora para casa. Então, essa é a minha história com a angiologia. Hoje eu digo que eu sou um 'angionossauro' (risos). De tão velho, porque depois da gente foram se formando novos colegas, desde o começo da faculdade, e alguns começaram a trabalhar comigo e muitos foram para fora, cresceram e hoje há muitos angiologistas na cidade, gente do maior padrão. Mas naquela época nós fomos úteis.
- O senhor disse que naquela época era chique ir tratar-se no Rio.
- Ah, era muito. Eu não vou dizer o nome, mas tem uns dois ou três médicos no Rio que quem não se tratava com eles não era chique, não era bacana (risos).
- Mas ao mesmo tempo que era chique era muito complicado, não? Fazer uma viagem doente...
- Eles iam para doenças crônicas, mas todo mundo ia ao Rio, que era a capital do País, todo mundo tinha um parente no Rio. E iam muitas vezes de trem e tinham que fazer um capotão para pôr em cima da roupa por causa da fuligem do trem. E essa viagem que devia durar 24 horas às vezes durava 30, 35. Um dia chegava no Rio. E as pessoas aproveitavam para renovar o guarda-roupa e ir ao médico.
- E a partir de quando Vitória passou a atender também a essas pessoas de maior poder aquisitivo?
Foto: Apoena
|
|
|
|
- Eu acho que a universidade foi um fator de explosão, porque nada acontece por separado. A cidade veio junto com o crescimento da Vale do Rio Doce, CST, Aracruz, enfim, a Jerônimo Monteiro era uma rua de paralelepípedos. Isso em 60 e poucos. E toda a cidade cresceu e a medicina cresceu junto. Hoje nós temos, além da Santa Casa, o São José, Santa Rita, Hospital Meridional, enfim, vários outros hospitais. Hoje, em angiologistas, somos mais de 70 só em Vitória. E as especialidades começaram a chegar, os aparelhos modernos, como a tomografia computadorizada. Há dez ou 15 anos quem precisava de uma tomografia tinha que ir ao Rio ou a São Paulo. Em Itaperuna tinha tudo isso e Vitória não tinha. A gente não consegue imaginar. Como a gente vive o dia-a-dia, a gente não nota, mas imagina uma pessoa que viveu aqui em 1961, saiu e voltasse hoje?
- O senhor fala que são 70 angiologista em Vitória, mas o tratamento é mais procurado por questões de saúde ou uma questão de estética?
- Eu acredito que por causa estética.
- E como é esse tratamento?
- São drogas injetadas na veia tênues, delicadas, são capazes de destruir as camadas internas da veia produzindo o fechamento desse vaso. Na verdade, o vaso não tem cor, a cor é do sangue que passa dentro dele. E se aquele sangue não passa dentro de um vaso, ele desaparece. E hoje tem o laser, mas isso só pode ser feito com vaso delicado, pequeno. Se tentar fechar vasos grandes, pode causar trombose e traz mais malefícios que benefícios.