"O Brasil hoje é mostrado até no exterior como um
exemplo de atendimento público aos portadores de HIV/Aids"
(Padre Júlio Lanceloti, diretor da Casa Vida, que abriga
crinaças órfãs com o vírus da Aids no Rio de Janeiro).
No final da entrevista, o psicólogo Italo Campos, que fez um trabalho de grande responsabilidade sobre as DSTs e a Aids para a saúde pública durante os últimos anos frente à Secretaria Municipal de Vitória, disse uma frase que pode até chocar quem a ouve, mas não passa da mais pura verdade: "Hoje, só tem Aids quem quer".
De início, isso pode parecer rigoroso, inflexível, mas com saúde não se brinca e a quantidade de informações que já surgiram a respeito do assunto desde o seu aparecimento é muito grande. Por isso a realidade é bem esta: se há facilidades de prevenção, só se infecta com o vírus quem quer.
Através dos avanços da medicina, com os medicamentos modernos, uma pessoa infectada com o HIV vive normalmente, sem tempo pré-determinado para a morte. É, a Aids não mata mais, o que não significa que o uso dos preservativos seja dispensável.
É sobre essas questões de risco e de responsabilidade com a própria saúde e a saúde do parceiro que o especialista conversa com a equipe de Século Diário neste fim de semana. Apesar das facilidades de tratamento, a saúde deve ser sempre a prioridade de todos.
A Aids (Síndrome da Imunodeficência Adquirida) surgiu no final da década de 70 e foi reconhecida em 1981 nos EUA, nas cidades de São Francisco e Nova York, quando pacientes adultos, do sexo masculino, homossexuais, apresentaram os sintomas que alarmaram toda a população mundial.
De início, havia o chamado grupo de risco, que englobava homossexuais, bissexuais e usuários de droga. Mas isso já não existe mais e todas as pessoas estão expostas à doença e mesmo que as facilidades de tratamento tenham aumentado, a vida sempre vale mais a pena.
Século Diário: - Bem, o senhor tem um trabalho pioneiro frente ao combate e ao tratamento da Aids em Vitória. Conte um pouco dessa experiência.
Foto: Apoena
|
|
|
|
Italo: - Minha primeira referência no Estado foi organizar a saúde mental. Um período na Secretaria Estadual de 83 a 89, que foram os primeiros trabalhos de equipe multiprofissional. Antes toda a saúde mental estava centrada no Adauto Botelho e duas clínicas privadas. Nesse período as equipes multiprofissionais entraram e surgiram equipes em ambulatório e começamos a discussão sobre o alcoolismo, que era estimulado pelo próprio Ministério da Saúde. O 'Sexta na Sesa' foi o primeiro evento que virou referência nacional e discutiam-se políticas e desenvolvimento para a saúde mental. Em 89, o Vitor (Buaiz) me convidou junto com o secretario de Saúde da época pra coordenar a saúde mental em Vitória. Aí eu fiquei, nessa mesma perspectiva de trabalho e logo depois eu propus e idealizei o CPTT, que é o Centro Público de Tratamento de Toxicômanos, na Ilha de Santa Maria. O objetivo era tratar os toxicômanos junto com o apoio da família, em um espaço aberto, que não simbolizava clínica psiquiátrica e sim uma construção que demonstrasse que essa questão não era de prisão ou exclusão, mas de inclusão. Esse CPTT foi a última obra inaugurada pela administração de Vitor Buaiz e a gente construiu politicamente e tecnicamente, que quando ele começou a funcionar, nós já éramos referência para o Ministério da Saúde. Nessa condição, nós fizemos um convênio com a União Européia de cooperação técnica que profissionais europeus e os daqui foram para lá, nessa troca de experiência, discussão técnica. Eu acho que esse é um marco importante na trajetória do tratamento do alcoolismo e da assistência à saúde mental. No Espírito Santo e no Brasil. O CPTT lidera essa rede que hoje já foi constituída e agrega clínicas privadas com a Ufes, fornece estágios, agrega Ongs, Igreja. Depois disso a gente cai na questão das DSTs. Eu saí e fui coordenar o serviço de AIDS. Aqui já existia esse serviço.
- Não só para Aids, mas para todas as outras DSTs, não é?
- Sim, as DSTs e a Aids. Esse serviço estava mais ou menos na mesma linha dos CPTT, de construir um espaço com multiprofissionais, psicólogos, assistenete social, enfermeira, enfim, a equipe básica. E teve muita visibilidade esse projeto.
- Em que época foi isso?
- Isso foi de 99 a 2005. Nesse período a gente desenvolve alguns projetos, membros apresentaram trabalhos dentro e fora do Brasil. O serviço tem um reconhecimento nacional e internacional, não só pelas características, mas pelo município de Vitória ser um município de vulnerabilidade, é um município que corta a BR, é passagem do Rio para Bahia, tem oito ou dez portos e ele é colocado como ponto estratégico nessa política dessas doenças sexualmente transmissíveis. É uma porta de entrada aberta para o mundo. De alguma maneira, a sociedade ficou em alerta. Em cidades maiores, como em São Paulo, por exemplo, cidades universitárias, São José do Rio Preto, outras em Santa Catarina, tiveram índices muito maiores que os nossos. Então, algo aqui na sociedade e no serviço público ajudou nisso.
- Mas e o trabalho, em si, nessa coordenação desse programa de combate à Aids, como era feito pelo senhor?
- O trabalho de Aids tem como ação em saúde, tem o nível da prevenção e da assistência. O da prevenção é o principal, que tem que investir mais, mas de maneira geral não acontece isso, investe-se mais na assistência e se esquece um pouco da prevenção. No caso da Aids isso é fatal. Houve as contribuições para o mundo moderno, que teve que refletir sobre as questões atuais, sobre as questões da morte. A classe media ficou muito atenta porque referências de classe artísticas e culturais, intelectuais se infectaram com o vírus, e isso promoveu uma discussão séria a respeito da ciência, da moral, dos costumes e dos serviços de saúde. Até então, as DSTs eram relegadas ao último plano porque só pobre pegava gonorréia. E outros tipos de coisas de alta morbidade. A Aids veio colocar as DSTs na pauta da sociedade. Com isso se despertou muito a inquietação na ciência porque é uma doença onde o vírus é inteligente, que sempre muda quando você ataca. Isso mudou o conceito da infectologia e tudo o mais. A Aids, na política, tem uma vertente preventiva, que aqui em Vitória a gente trabalha primeiro as campanhas nas datas chaves como carnaval, dia mundial de luta contra Aids, que é em 1º de dezembro, dias das mães, dia dos namorados, enfim, essas datas são marcos. No dia-a-dia, a gente tenta que os trabalhadores dos postos de saúde estejam atentos a essa questão. Em qualquer consulta conversar sobre o assunto, falar da camisinha. A Aids também trouxe à cena a escolha da sexualidade, porque até então homossexuais, travestis, tinham dificuldade de ir ao posto de saúde. Eles passaram a ir aos postos de saúde, ter orientação.
Foto: Apoena
|
|
|
|
- Essa prevenção também está incluída no programa de Saúde da Família, nas visitas das agentes de saúde nas casas?
- Sim, o programa inclui um treinamento de prevenção à Aids. Esse pessoal que é treinado já faz o primeiro contato, o primeiro alerta. Então o programa inclui essa atenção às DSTs e à Aids. E o centro de tratamento também é referência mesmo. Só nos últimos anos é que a gente pôde ser um centro para treinar profissionais, fazer educação continuada, permanente, e a assistência começar a ser prestada pelo método clinico, ter a possibilidade de manejar ou continuar um tratamento. Hoje tem em Vitória o centro de referência na sua vocação principal, que é informador, de referência mesmo. A prevenção e a atenção envolvem toda a rede. Isso está a caminho, porque há sempre mudanças de profissionais, de movimento dentro da própria da saúde. Agora, por exemplo, houve uma dificuldade do governo adquirir medicamentos, teve problemas no Ministério da Saúde, dúvidas que atrapalharam distribuição de preservativos, mas isso são os refluxos da vida, mas são coisas que já têm implantado uma certa idéia.