De julgamentos e de execrações





Tavares Dias


Dia desses, nesses tempos de caça às bruxas em que à inadiável necessidade de passar-se a limpo a nossa sociedade vão se juntando outras manifestações humanas menos nobres, tive rica conversa com alguns caros e experientes amigos, entre os quais jornalistas, juristas e outros vaidosos - o que não quer dizer que todo jornalista ou jurista tenha o ego anabolizado, mas, cá pra nós, ainda não encontrei pessoa que não o tenha.

Era sábado pela manhã. Bermudas, chinelos, camisetas, algumas horas de merecida folgança pela frente.
Vou tentar contar a estória sem usar palavras difíceis, latinórios, bolodórios.

Tudo começou quando falávamos do ardor de cristão-novo com que certos profissionais vêm revolvendo o lodo que traz à tona o que de mais carcomido há em algumas de nossas mais tradicionais e representativas instituições.

Um dos participantes da roda citou o nome de um amigo. Logo um outro o interpelou, um tanto asperamente, quanto à suposta desonestidade do citado.

A discussão pegou fogo. De um lado, havia quem defendesse que profissionais muito jovens, imbuídos de uma louvável vontade de consertar as coisas mas ainda um tanto a reboque da impetuosidade natural da juventude, acabam utilizando-se de profissionais de outras áreas cujo perfil comporta o mesmo tipo de impetuosidade, para divulgar fatos ainda não devidamente julgados, lançando lama sobre a honra de pessoas ainda não declaradas culpadas.

Foram citados, em nossa ardorosa conversa, muitos nomes de pessoas e instituições que, depois de terem sido execradas em retumbantes manchetes, tiveram sua inocência reconhecida em notas de rodapé, fruto da descoragem do mancheteiro. Claro, porque o desmentido deveria ganhar igual manchete, e nem mesmo assim consertaria o erro cometido, porque quem lê uma nem sempre lê a outra, e uma mentira repetida à exaustão pode adquirir foros de verdade, embora permaneça sendo mentira para sempre.

Numa sociedade de homens e mulheres honrados, uma versão jamais deveria sobrepor-se a um fato.

Antes que o fogo da discussão subisse demais, houve quem jogasse um oportuno balde d´água na situação, lembrando que estávamos divergindo apenas quanto ao método, mas que todos ali concordamos com o fato de que é preciso passar o País a limpo, mesmo. Aí o tom já começou a baixar.

Síntese do que consegui apreender da conversa: todos estamos sujeitos a ver, de repente, pessoas do nosso círculo de amigos sendo apontados como suspeitos, indiciados e/ou acusados de qualquer ilícito. Ao amigo verdadeiro, cabe a compreensão de que ninguém é só santo e nem só monstro. Compreender, porém, não significa ser complacente com o erro. O que há no cerne de todos nós, em potencial, ainda é hoje, mesmo com todos os avanços da ciência, um buraco negro. Nem mesmo magistrados, tão humanos como todos, estão livres de prevaricar, como freqüentemente se vê, em todo canto do mundo.

Portanto, cautela com quem se delicia com a desgraça do outro, mesmo que o outro tenha sido arrogante, prepotente, autoritário e até mesmo tenha tido sua culpabilidade insofismavelmente constatada. É bom lembrar que somos espelhos uns dos outros.
Nossos erros, ao contrário do que às vezes insistimos em acreditar, não são menos erros que os erros dos outros. O que nos pode dignificar é a busca do acerto, é a capacidade de não negar ao supostamente errado a chance de um dia perceber, de verdade, o quanto andou no vacilo, e então, se assim quiser, manifestar o desejo de se transformar.

Pague à Lei, cada um, o que à Lei dever. Mas tripudiar sobre a tragédia do outro é esquecer-se dos filhos do outro, dos pais do outro, dos próprios sentimentos do outro.

Então, é entristecedor ver autoridades, algumas até mesmo tidas como humanistas, religiosas e espiritualizadas, armando circos para execrar pessoas, em busca dos famosos 15 minutos de fama. Se os excessos acontecem com o beneplácito de certa ávida mídia, é muito pior.

Ainda estamos longe de conhecer o sentimento de fraternidade e da capacidade de julgar sem tripudiar. Às vezes vemos e ouvimos, na tevê, autoridades dando declarações como quem se considera o guardião da impecabilidade, monopolista da honradez. E os mais experientes conseguimos ver, naquele pavão que o vídeo nos mostra, a doença se apresentando na gesticulação, no tom da voz, na respiração, em esgares de canto e boca e em sorrisos que os olhos não assinam.

Mas, por outro lado, será fácil a vida do julgador? Nem de longe. De minha parte, o que ocorre é que, pela graça de Deus e pelo meu querer, nunca estive diante da necessidade de julgar qualquer suposto criminoso. Jamais, ao olhar para cima, deparei-me com a espada de Dâmocles, ali, de plantão, a ameaçar-me o alto do crânio. Mas cada um é responsável pelas próprias escolhas. Eu, é claro, incluído. E, no caso das funções de promotor ou de juiz, nunca me senti e continuo não me sentindo capaz de desempenhá-las, por isso não abracei a magistratura, embora sinta por ela o mesmo fascínio que atinge outrs tantas pessoas.

Acontece que alguém tem de tomar a si a responsabilidade de julgar, o que empresta presumidas nobreza, honra e credibilidade ao magistrado. Que cada juiz se lembre, pois, da parábola que fala da primeira pedra, e de que com a mesma medida com que julgar será julgado. E possa, então, amadurecendo, abrandando seu coração, cumprir a fundamental tarefa de julgar pessoas sem esquecer que da mesma Fonte viemos e para ela deveremos trabalhar para voltar, na condição de irmãos, erremos o quanto errarmos.

E que aquele que julga possa lembrar-se também de que, como diz o personagem central do impagável filme "O advogado do Diabo", vivido pelo ator Al Pacino, a vaidade é o sentimento preferido do Demônio.

E quem de nós não estará sujeito a deixar-se dominar por ela? Quem não estiver, que atire a primeira pedra.